Por Bernardo Guimarães (1872)
- Credo! Nossa Senhora me guarde! . . . então, não; quero a minha carta; quero ser livre para poder ser escrava de minha sinhazinha. Esses diabos desses homens! Deus me perdoe! . . . parece que não são batizados. Meu senhor já valeu a eles todos, e agora não tem um só que tenha piedade dele. Má peste que os persiga! . . . Agora vou cuidar na janta. . . sinhazinha fica aí?
- Fico, Joana; podes ir; vou acabar de enxaguar esta roupa.
- Deixa isso, sinhazinha. Eu logo venho acabar de lavar e estender toda essa roupa; não esteja se matando sem precisão.
- Não gosto de estar à toa, e bem sabes que não é a primeira vez que lavo roupa, e também isto me serve de distração.
- Não tem medo de ficar aqui sozinha?
-medo de quê? . . . quem pode vir me fazer mal aqui neste ermo?
- Está bem, disse Joana retirando-se. Assim mesmo eu vou chamar sinhá Júlia para ficar com Vmcê.
- Não é preciso, Joana. . . Júlia está ocupada com uma costura que é preciso acabar hoje mesmo. Eu também lá vou neste instante.
Nenhum favor melhor podia o céu fazer a Elias naquele instante do que deixar Lúcia ali sozinha; e dir-se- ia que Lúcia adivinhava, e queria ficar só, como se tivesse ajustado uma entrevista. A emoção de Elias subiu de ponto. Não fosse uma excessiva ousadia, uma profanação, teria de um salto transposto a cerca e iria cair a seus pés. . .
Logo que Joana desapareceu por entre os arbustos do quintal, Lúcia deixou a fonte, e sentou-se sobre a grama do coradouro, pousou a face em uma das mãos, e pôs-se a cismar. Era um modelo perfeito para a estátua de uma náiade. Depois tirou do seio uma carta, e lançou sobre ela um olhar. Seus olhos arrasavam-se de lágrimas.
- Que crueldade, meu Deus, exclamou ela, deixar-me assim arrebatadamente, e abandonar-me tão sozinha e desamparada neste ermo. . . isto é de quem ama deveras? . . . e além de tudo, a pobreza! . . . Meu Deus! . . . não sei o que será de mim. . . hei de morrer de tristeza! . . . se me dissesse ao menos onde foi! . . . eu dera tudo para saber onde ele está! . . .
Ouvindo estas palavras, Elias não pôde mais conter-se; pulou a cerca, e em dois saltos estava ao pé de Lúcia.
- Eis-me aqui, Lúcia! . . . eis-me aqui a teus pés! exclamou o mancebo.
Lúcia assustada deu um grito, e ergueu-se rapidamente. Num relance desatou da cintura o lenço com que suspendia as saias, e com ele compôs os ombros e os seios que trazia quase nus. Lembrava Vênus, quando do traje de ninfa caçadora, em que estava disfarçada, transfigurou-se subitamente aos olhos de Enéias em verdadeira deusa, deixando tombar-lhe aos pés as vestes roçagantes.
- Perdoa-me, minha Lúcia! perdoa a minha ousadia; ela é filha do muito amor que te consagro. Eu estava ali. . . eu te ouvia, e eu te amo; vê se era possível conter-me. Se ainda me amas, tu me perdoarás.
O sobressalto de Lúcia não tardou em transformar-se na efusão de uma celeste alegria.
-se ainda te amo! . . . exclamou, pois duvida ainda? . . .
- Sou tão infeliz, que custo a acreditar em tamanha ventura.
- Compreendo. Pensa que lhe fui infiel; que traí o nosso amor. Tinha razão para pensar assim; mas quando souber o que houve, estou certa que me há de perdoar.
- Não tenho nada que perdoar-te; eu é que devo pedir-te perdão de meu estouvamento e precipitação. Meu coração já adivinhou tudo. Mas entretanto conta-me, minha querida Lúcia, conta-me como tudo isso foi. . .
Aquela entrevista, que o acaso preparara, durou apenas meia hora; mas meia hora de gozos e efusões d’alma, de delícias inefáveis, meia hora tão cheia de amor e felicidade, que aos olhos de Elias compensou largamente dois anos de agros sofrimentos e ásperos trabalhos, meia hora que ele trocaria de bom grado por um século de viver ordinário.
Entretanto Lúcia contou-lhe rapidamente a história de seu projetado casamento com Leonel, as solicitações de seu pai, e as tristes circunstâncias que a arrastaram àquele sacrifício, que além da felicidade lhe custaria também a vida, mas que ela julgava necessário e de seu dever para felicidade de seu pai e de sua irmã.
- E não te lembravas, disse Elias com um triste sorriso, que nesse sacrifício arrastavas mais uma vítima? . . .
- Oh! se me lembrava! . . . mas eu nem notícias tinha de ti. . . e, mesmo que as tivesse, a não estares em circunstâncias de valer a meu pai, levarias a mal esse sacrifício, se infelizmente se consumasse? . . .
- Não, minha Lúcia. . . eu não teria remédio senão admirar-te, embora se me estalasse de dor o coração. Mas a carta que te escrevi do Sincorá, acaso não chegou-te às mãos?
- Chegou, Elias; mas em que momento, meu Deus? Eu acabava de dar o meu consentimento, de comprometer solenemente a minha palavra para com meu pai; já era tarde. Faz idéia de quanto era triste e desesperadora a minha posição.
(continua...)
GUIMARÃES, Bernardo. O Garimpeiro. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=1776 . Acesso em: 26 fev. 2026.