Letras+ | Letródromo | Letropédia | LiRA | PALCO | UnDF


Compartilhar Reportar
#Romances#Literatura Brasileira

A Pata da Gazela

Por José de Alencar (1870)

O que Horácio amava nela, não era mais do que uma forma, um capricho, um sonho de sua imaginação enferma. Ela compreendeu essa aberração dos sentidos em um homem gasto para o amor e saciado de prazeres. A mulher era para o leão uma coisa comum e vulgar, incapaz de produzir-lhe emoções fortes. Tinha-as admirado de todos os tipos e de todos os caracteres. Seu coração exausto precisava de alguma coisa nova, original e extravagante.

Amélia compreendeu isto, não por uma análise, que seu espírito casto não poderia fazer, mas por uma intuição d’alma.

Quando de novo encontrou Horácio no baile, suas maneiras não podiam que se não ressentissem do estado de seu coração.

Tratou o leão secamente; mas logo tornou-se amável; ocorreu-lhe uma idéia; quis pôr à prova o amor do noivo, antes de confiar-lhe seu destino.

Foi na sua alcova, durante a insônia, que ela recordou-se da história de Leopoldo, e comparou seu amor ao de Horácio.

Repassando na mente as palavras comovidas do primeiro, pensando naquele afeto tão desprendido das misérias humanas, tão d’alma, Amélia sentia-se como purificada dos desejos do sedutor.

Esse amor puro e imaterial era um batismo para seu coração virgem.

A moça conheceu que o engano de Leopoldo provinha de uma ilusão da vista, no momento de entrar no carro com Laura; ilusão confirmada pela presença do lacaio na loja do sapateiro. Chegou a estimar esse incidente que pôs em relevo a alma nobre e generosa do mancebo.

Acudiu-lhe à lembrança sua primeira conversa em casa de D. Clementina. As palavras que então lhe pareceram ininteligíveis, tinham agora um sentido. Compreendia toda a sublimidade do coração que dizia com uma profunda convicção:

— Sinto-me capaz de amar o horrível, sinto-me capaz de nutrir uma dessas paixões mártires, de amar o anjo ainda mesmo encarnado no aleijão.

— Esse me ama realmente, a mim, e não à sua fantasia! murmurou a moça com tristeza.

No dia seguinte, depois de uma noite de insônia, preparou-se para receber Horácio e submetê-lo à prova. O Matos conservava um par das antigas botinas de Laura, o qual lhe fora para modelo. Mandou Amélia buscá-lo; e encheu-o de algodão para acomodar nessa enormidade o seu mimoso pezinho.

O bordado do bastidor foi expressamente inventado. Procurando uma letra para indicar a pessoa a quem destinava o pretendido presente, insensivelmente traçou um L. Era a inicial de Laura, que lhe acudira à mente; ou era a lembrança de Leopoldo, que lhe esvoaçava ainda na imaginação? Foi uma e outra coisa. Serviu-se do pretexto da amiga para evocar o nome do homem, que tão profundamente a amava.

Depois da cena que teve lugar na tarde do jantar, Amélia arrependeu-se. Receava ter-se excedido; bastava-lhe matar a ilusão do mancebo, não devia ter excitado o horror. Mas o afeto de Leopoldo a tornara exigente; ela queria ser amada por Horácio da mesma forma, com aquela sublime abnegação.

Durante alguns dias, alimentou a esperança de conservar a afeição do noivo, e regozijava-se com a idéia da surpresa que lhe guardava.

A ausência do leão a foi desenganando de dia em dia. Travou-se então uma luta em seu espírito. Devia esquecer o homem que não amava nela senão uma fantasia?

O tom de Horácio na última noite a irritou. Seu amor-próprio indignou-se com o menoscabo do moço, e súbita revelação de sua alma lhe advertiu que esse casamento causaria sua desgraça.

No dia seguinte ao do rompimento, Amélia foi, como havia dito na véspera, à casa de D. Clementina. Era a primeira vez que tornava a ver Leopoldo depois do baile.

Estiveram juntos alguns momentos. Como de costume Leopoldo falou, e a moça embebeu-se daquelas palavras apaixonadas como de um eflúvio suave. Em um momento de pausa, disse Amélia:

—  O senhor passou por nossa casa na terça-feira?

— É verdade. Por que pergunta?

— Eu estava no jardim. Vi-o quando passava; cuidei que ia entrar.

— Não me animava.

— Por quê?... Mamãe já lhe ofereceu nossa casa.

— Tenho receio de ser importuno.

— Pouco saímos agora; à exceção das noites que passamos aqui, estamos sempre sós; mamãe lendo e eu tocando ou fazendo algum trabalho de lã.

—E ninguém mais? perguntou Leopoldo, fitando na moça um olhar interrogador.

— Ninguém! respondeu Amélia em tom grave.

Leopoldo ficou suspenso, buscando compreender o pensamento da moça. Era mágoa do bem perdido, ou temor do mal frustrado, que assim lhe anuviara a fisionomia?

Mas o sorriso prazenteiro iluminou o semblante da moça:

— Sabe? Naquela noite do baile, me contaram uma história muito interessante, disse ela.

— Não se pode saber?

— O senhor pode. Foi a história de um sorriso, disse Amélia sublinhando a palavra com um gesto faceiro.

— Quem lhe contou? Foi ele?

— Foi o senhor.

— Eu?

— O senhor mesmo. Já não se lembra?

— Quer gracejar?

— O senhor estava no jardim conversando com seu amigo, e eu na janela do toucador.

Leopoldo adivinhou.

— Então ouviu tudo?

— Tudo!...

— E... perdoou-me?

— Não; não tinha de quê, mas...

(continua...)

« Primeiro‹ Anterior...3940414243Próximo ›Último »
Baixar texto completo (.txt)

← Voltar← AnteriorPróximo →