Por Gabriel Soares de Sousa (1587)
Logo no ano seguinte, de 1550, se ordenou outra armada, com gente e mantimentos, em socorro desta nova cidade, da qual foi por capitão Simão da Gama de Andrade, com o galeão velho muito afamado e outros navios marchantes, na qual foi o bispo D. Pedro Fernandes Sardinha, pessoa de muita autoridade, grande exemplo e extremado pregador, o qual levou toda a clerezia, ornamentos, sinos, peças de prata e outras alfaias do serviço da Igreja, e todo o mais conveniente ao serviço do culto divino; e somou a despesa que se fez no sobredito, e no cabedal que se meteu na artilharia, munições de guerra, soldos, mantimentos, ordenados dos oficiais, passante de trezentos mil cruzados.
E logo no ano seguinte, mandou Sua Alteza em fazor desta cidade outra armada, e por capitão dela Antônio de Oliveira, com outros moradores casados e alguns forçados, na qual mandou a rainha D. Catarina, que está em glória, algumas donzelas de nobre geração, das que mandou criar e recolher em Lisboa no mosteiro das órfãs, as quais encomendou muito ao governador por suas cartas, para que as casasse com pessoas principais daquele tempo; a quem mandava dar em dote de casamento os ofícios do governo da fazenda e justiça, com o que a cidade se foi enobrecendo, e com os escravos de Guiné, vacas e éguas que Sua Alteza mandou a esta nova cidade, para que se repartissem pelos moradores dela, e que pagassem o custo por seus soldos e ordenados, e o que mais lhe mandava pagar em mercadorias pelo preço que custavam em Lisboa, por a esse tempo não irem a essas partes mercadores, nem havia para quê, por na terra não haver ainda em que pudessem fazer seus empregados; pelo qual respeito Sua Alteza mandava cada ano em socorro dos moradores desta cidade uma armada com degredados, moças órfãs, e muita fazenda, com o que a foi enobrecendo e povoando com muita presteza, do que as mais capitanias se foram também ajudando, as quais foram visitadas pelo governador e postas na ordem conveniente ao serviço del-rei, e ao bem de sua justiça e fazenda.
C A P Í T U L O v
Em que se trata como' D. Duarte da Costa foi governar o Brasil.
Como Tomé de Sousa acabou o seu tempo de governador, que gastou tão bem gastado neste novo Estado do Brasil, requereu à Sua Alteza que o mandasse tornar para o reino, a cuja petição el-rei satisfez com mandar por governador a D. Duarte da Costa, do seu conselho, ao qual deu a armada conveniente a tal pessoa em que passou a este Estado, com a qual chegou a salvamento à Bahia de Todos os Santos; desembarcou na cidade do Salvador, nome que lhe Sua Alteza mandou pôr; e lhe deu por armas uma pomba branca em campo verde, com um rôlo à roda branco, com letras de ouro que dizem
Sic illa ad Arcam reversa est,
e a pomba tem três folhas de oliva no bico; onde lhe foi dada posse da governança por Tomé de Sousa, que se logo embarcou na dita armada, e se veio para o reino, onde serviu a el-rei D. João e a seu neto, el-rei D. Sebastião de veador, e no mesmo cargo serviu depois à rainha D. Catarina enquanto viveu.
E tornando a D. Duarte, como tomou a posse da governança, trabalhou quanto foi possível, por fortificar e defender esta cidade do gentio que em seu tempo se alevantou, e cometeu grandes insultos, os quais ele emendou dissimulando alguns com muita prudência, e castigando outros com armas, fazendo-lhes crua guerra, a qual caudilhava seu filho, D. Álvaro da Costa, que nestes trabalhos o acompanhou, e se mostrou nêles muito valoroso capitão.
(continua...)
BRASIL. Tratado descritivo do Brasil. Portal Domínio Público. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=38095. Acesso em: 30 nov. 2025.