Por Eça de Queirós (1887)
O festivo Pote conhecia, à beira da corrente batismal, um sitio deleitosíssimo para uma sesta cristã; e aí passamos as horas quentes, recostados num tapete, lânguidos, e bebendo cerveja, depois de bem esfriada nas águas do rio santo. Ele faz ali um claro, suave remanso, a repousar da lenta, abrasada jornada que traz, através do deserto, desde o Lago de Galiléia; e antes de mergulhar para sempre no amargor do Mar Morto - ali preguiça, espraiado sobre a areia fina; canta baixo e cheio de transparência, rolando os seixos lustrosos do seu leito; e dorme nos sítios mais frescos, imóvel e verde, à sombra dos tamarindos... Por sobre nós rumorejavam as folhas dos altos choupos da Pérsia; entre as ervas balançavam-se flores desconhecidas, das que toucavam outrora as tranças das virgens de Canaã em manhãs de vindima; e na escuridão fofa das ramagens, onde já as não vinha assustar a voz terrível de Jeová, gorjeavam pacificamente as toutinegras. Defronte, elevavam-se, azuis e sem mancha, como feitas de um só bloco de pedra preciosa, as montanhas do Moabe. O céu branco, mudo, recolhido, parecia descansar deliciosamente do duro tumulto que o agitou quando ali vivia, entre preces e mortandades, o sombrio povo de Deus; e onde constantemente batiam as asas dos serafins, e flutuavam as roupagens dos profetas arrebatados pelo Altíssimo, era calmante ver agora passar apenas uma revoada de pombos bravos, voando para os pomares de Engada.
Obedecendo à recomendação da Titi, despi-me, e banhei-me nas águas do Batista. Ao princípio, enleado de emoção beata, pisei a areia reverentemente como se fosse o tapete de um altar-mor; e de braços cruzados, nu, com a corrente lenta a bater-me os joelhos, pensei em São Joãozinho, sussurrei um padre-nosso. Depois ri, aproveitei aquela bucólica banheira entre árvores; Pote atirou-me a minha esponja; e ensaboei-me nas águas sagradas, trauteando o fado da Adélia.
Ao refrescar, quando montávamos a cavalo, uma tribo de beduínos, descendo das colinas de Galgalá, trouxe os seus rebanhos de camelos a beber ao Jordão; as crias brancas e felpudas corriam, balando; os pastores, de lança alta, soltando gritos de batalha, galopavam, num amplo esvoaçar de albornozes; e era como se ressurgisse em todo o vale, no esplendor da tarde, uma pastoral da idade bíblica, quando Agar era moça! Teso na sela, com as rédeas bem colhidas, eu senti um curto arrepio de heroísmo; ambicionava uma espada, uma lei, um deus por quem combater... Lentamente alargara-se pela planície sacra um silêncio enlevado. E o mais alto cerro de Moabe cobriu-se de um fulgor raro, cor-de-rosa e cor de ouro, como se nele de novo, fugitivamente, ao passar, se refletisse a face do Senhor! Topsius alçou a mão sapiente:
- Aquele cimo iluminado. D. Raposo, é o Moriá, onde morreu Moisés!
Estremeci. E penetrado pelas emanações divinas dessas águas, desses montes, sentia-me forte e igual aos homens fortes do Êxodo. Pareceu-me ser um deles, familiar de Jeová, e tendo chegado do negro Egito com as minhas sandálias na mão.. Esse aliviado suspiro que trazia a brisa vinha das tribos de Israel, emergindo enfim do deserto! Pelas encostas além, seguida de uma escolta de anjos, a Arca dourada descia balançada sobre os ombros dos levitas vestidos de linho e cantando. Outra vez, nas secas areias, reverdecia a terra da promissão, Jericó branquejava entre as searas; e através dos palmares cerrados já ressoavam, em marcha, os clarins de Josué!
Não me contive, arranquei o capacete, soltei por sobre Canaã este urro piedoso:
- Viva Nosso Senhor Jesus Cristo! Viva toda a corte do céu!
Cedo, ao outro dia, domingo, o incansável Topsius partiu, bem enlapisado e bem enguardasolado, a estudar as ruínas de Jericó, essa velha cidade das palmeiras que Herodes cobrira de termas, de templos, de jardins, de estátuas, e onde passaram os seus tortuosos amores com Cleópatra... E eu, à porta da tenda, escarranchado num caixote, fiquei a tomar o meu café, olhando os pacíficos aspectos do nosso acampamento. O cozinheiro depenava frangos; o beduíno triste arcava à beira da água o seu pacato alfanje; o nosso lindo arrieiro esquecia a ração às éguas para seguir no céu de um brilho de safira, a branca passagem das cegonhas voando aos pares para Samaria.
Depois pus o capacete, fui vadiar na doçura da manhã, de mãos nos bolsos, cantarolando um fado meigo. E ia pensando na Adélia e no Senhor Adelino... Enroscados na alcova, beijando-se furiosamente, estavam-me talvez chamando carola, enquanto eu passeava ali, nos retiros da
Escritura! Àquela hora a Titi, de mantelete preto, com o seu ripanço, saía para a missa de Santana; os criados do Montanha, esguedelhados, assobiando, escovavam o pano dos bilhares; e o Doutor Margaride, à janela, na Praça da Figueira, pondo os óculos, abria o Dia rio de Notícias. Ó minha doce Lisboa!... Mas ainda mais perto, para além do deserto de Gaza, no verde Egito, a minha Maricoquinhas nesse instante estava enchendo o vaso do balcão com magnólias e rosas; o seu gato dormia no veludo da cadeira; ela suspirava pelo "seu portuguesinho valente..." Suspirei também; mais triste nos lábios se me fez o fado triste.
E de repente, olhando, achei-me, como perdido, num sítio de grande solidão e de grande melancolia. Era longe do regato e dos aromáticos arbustos de flor amarela; já não via as nossas tendas brancas; e diante de mim arredondava-se um ermo árido, lívido, de areia, fechado todo por penedos lisos, direitos como os muros de um poço, tão lúgubres que a luz loura da quente manhã de Oriente desmaiava ali, mortalmente, desbotada e magoada. Eu lembrava-me de gravuras, assim desoladas, onde um eremita de longas barbas medita um in-fólio junto de uma caveira. Mas nenhum solitário aniquilava ali a carne em heróica penitência. Somente, ao meio do fero recinto, isolada, orgulhosa, com um ar de raridade e de relíquia, como se as penedias se tivessem amontoado para lhe arranjarem um resguardo de sacrário - erguia-se uma árvore tão repelente, que logo me fez morrer nos lábios o resto do fado triste...
(continua...)
QUEIRÓS, Eça de. A Relíquia. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=19199 . Acesso em: 29 jun. 2026.