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#Romances#Literatura Portuguesa

O Conde d'Abranhos

Por Eça de Queirós (1925)

E em questões de Instrução, de Imprensa, de Polícia, não tinham ambos as mesmas óptimas ideias? Absolutamente as mesmas.

Não eram ambos patriotas? Fanaticamente!

Então? – Pode-se dizer que Alípio Abranhos, indo dos Reformadores para os Nacionais, traía as suas ideias? Não! Certamente não!

Mas, dir-se-á, traiu o seu amigo Cardoso Torres.

Distingamos: Em Cardoso Torres há o homem e o político. Trair o homem, seria, por exemplo, (ainda que tal suposição me faz tremer de horror) pôr mão libidinosa no seio respeitável de D. Josefa Cardoso Torres. Alípio Abranhos fê-lo?

O vosso silêncio grave é a melhor resposta!

Mas traiu o político, direis. Vejamos: que é um político? E um ser que simboliza um complexo de ideias: só se pode traí-lo, traindo as ideias que ele representa. Ora eu provei suficientemente que Alípio Abranhos não traiu – nem em Religião, nem em Moral, nem em Economia Política, nem em Administração, nem em Pedagogia – as ideias representadas pelo Ex.mo Cardoso Torres.

Onde está pois a traição? Dizei-o. Ah! esses olhares no chão, essa expressão consternada, provam sobejamente que nada tendes a responder aos meus argumentos impecáveis!

Passou pois para a oposição o nosso grande Alípio, e com que prodigiosa impressão esse passo foi recebido no país, di-lo a História Constitucional.

Foi no discurso de resposta ao Discurso da Coroa que se viu Alípio Abranhos subir à tribuna, e com palavras comovidas, dizer que a sua consciência, os seus princípios, o seu patriotismo, forçavam-no a separar-se de amigos «cujo estandarte segui» – exclamava – «enquanto julguei que eles levavam o País à conquista do Progresso – mas de quem me separo com dor, ainda que com firmeza, no dia em que vejo que eles impelem a minha Pátria, – esta Pátria que eu amo mais do que amei minha mãe – para os abismos e para a ruína!» (Bravo! Bravo!)

Com um grande tacto político, Alípio Abranhos nunca disse claramente, nesse discurso magistral, os factos que lhe provavam que o Ex.mo Cardoso Torres fosse arrastando Portugal aos Abismos; mas os apoiados unânimes, os bravos frenéticos da oposição, mostravam-lhe que, ainda que ele, por respeito aos seus antigos camaradas, calasse esses factos, a oposição os compreendia absolutamente.

Assim, que grande ovação quando Alípio Abranhos traçou o inspirado quadro do estado do País sob a administração Cardoso Torres: «Olhai em redor, e vede este formoso torrão de Portugal, que vós jurastes, nas mãos de El-Rei defender e fazer.58 prosperar; olhai e dizei-me se sois dignos de estar nesses bancos uma hora mais: por toda a parte o esbanjamento da fazenda pública, por toda a parte o patrocinato primando o mérito; a escola, essa fonte pública, seca de instrução; as férteis campinas, desoladas; as estradas que prometestes, cobertas dos pedregulhos e das lamas da incúria; as cadeias, esses depósitos do mal, trasbordando; e o pobre camponês, que sucumbe ao peso dos impostos, regando com lágrimas o grão escasso que lhe dá um solo desolado!» (Bravo! Bravo!). E os ministros, nos seus bancos, com os braços frouxos, a cabeça pendente, sentindo retumbar-lhes aos ouvidos aquela voz, igual a outra que na Antiguidade, do fundo dos ares apostrofara Caim, pareciam contemplar, aterrados, a visão pavorosa da Pátria arruinada!

A sensação foi prodigiosa.

Nessa noite, quando, deitado no seu sofá exausto do seu grande feito oratório, Alípio se reconfortava na placidez do chá doméstico, recebeu uma carta do Conselheiro Guedes Navarro, chefe da oposição Nacional, em que lhe dizia, depois de outras considerações:

«Como discurso, poucos conheço iguais em Mirabeau ou em Lamartine. E para o partido Nacional uma honra, não só ter recebido nas suas fileiras um homem do seu valor, mas ter dado ocasião a que pronunciasse um discurso de tal elevação. Já não é somente para cumprir o nosso pacto, que lhe será guardada uma pasta na formação de um ministério Nacional. Essa pasta não é, d'ora em diante, a recompensa da sua adesão: é uma necessidade de existência para o partido Nacional, que terá em V. Exª, de futuro, o seu Mirabeau conservador.»

Donde se deduz, de resto, que Alípio Abranhos, com um grande alcance político e uma profunda experiência dos homens, não dera aquele passo sem primeiro ter garantidos todos os meios de penetrar no poder, e prestar ao País aqueles altos serviços que lhe estava preparando o seu génio político.

(continua...)

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