Por Eça de Queirós (1870)
Captain Rytmel ergueu-se risonho, aproximou-se de mim, e disse:- Peço-lhe que no fim do jantar pergunte àquele engraçado doido o seu lugar, a sua hora e as suas armas.
E foi sentar-se serenamente. Eu, à sobremesa, afastei-me com Perny, e transmiti-lhe aspalavras do meu amigo.
Perny riu, disse que estimava os Ingleses, que apreciava os seus serviços na Índia, quetinha sido instigado por Cármen a con trariar Rytmel, que o achava um adorável gentleman,que pedia das suas palavras as mais humildes desculpas, que o seu lugar era por toda a parte, a sua hora sempre, as suas armas quaisquer...- Mas, dadas essas explicações — disse eu -, nada temos que ver com as armas...
— Ah! perdão! — disse o francês — Há ainda uma pequena coi sa: é que eu acho qu e openteado do Captain Rytmel é profunda mente ofensivo do meu carácter e da dignidade da França. Isto é que exige reparação.
Nomearam-se padrinhos nessa noite. Combinou-se que o duelo não fosse em Malta:Rytmel era oficial, e os duelos nas praças de armas têm as mais severas penalidades. Era difícil, porém, estando numa ilha inglesa, não se baterem em território inglês. Resolveu-seentão que o duelo fosse no alto mar, a um tiro de canhão da costa inglesa. Lorde Grenley emprestou o seu iate e partimos de madrugada com um vento fresco e um sol alegre. As coisas foram rápidas. Pusemo-nos à capa a 5 milhas de Malta, arriámos o pavilhão inglês, amarinhagem subiu às vergas, e como havia igualda de de nível, um dos adversários foi colocado à popa e outro à proa. O sol dava-nos de estibordo. Eram 7 horas da manhã,pequenas nuvens brancas esbatiam-se no ar. O duelo era ao primeiro tiro, havendo ferimento grave. Lorde Grenly deu o sinal, os dois adver sários fizeram fogo. Perny deixou cair a pistola, e abateu-se sobre os joelhos. Estava gravemente ferido com a clavícula partida. Foi deitado numa cabina preparada. Levantou-se o pavilhão inglês e navegámos para Malta. Vinha caindo a tarde.
Eu dirigi-me logo aos quartos de D. Nicazio. Cármen estava só.- Sabe o que fez? — disse-lhe eu. — Perny está ferido.
— Isso cura-se, eu mesma o curarei, agora o que é sério, é o que se está tramando aqui dentro deste hotel... Eu não sei bem o que é, desconfio apenas.. Diga ao conde que vigie acondessa!
Eu encolhi os ombros, sorri, dirigi-me ao quarto da condessa: estava o conde, Rytmele Lorde Grenley. O ferimento de Perny fo ra declarado sem perigo, o capitão estava tranquilo.
Conversava-se alegremente. Combinava-se uma visita à ilha de Gozzo, a oitoquilómetros de Malta. Grenley tinha proposto a ex cursão, e oferecia o seu iate. O conde esquivava-se, dizendo que o mar o incomodava, no estado nervoso em que estava.- Menino, é aquela maldita Rize! -veio-me ele dizer em voz baixa. — Tenho-lhe para amanhã prometido um passeio a Bengama.
— Mas, então?- Acompanha tu a condessa. Vai Grenley e Rytmel. Faz-me isto. Bem vês!
Mademoiselle Rize é exigente, mas pobrezinha, dela, tem o sangue maltês!Mais tarde, quando eu atravessava para o meu quarto, um vul to veio a mim no corredor e tomou-me pela mão.
— Escute — disse-me uma voz subtil como um sopro.Era Cármen.
— Se é um homem de honra, cautela amanhã com o passeio a Gozzo. E desapareceu.
VIII
No outro dia às seis da manhã fui a casa de Rytmel. A condessa havia estado durante a noite sob o domínio de uma extrema agita ção nervosa, mas não queria renunciar ao passeiode Gozzo. Encontrei Lorde Grenley com Rytmel, tomando chá.
Pareceu-me pela fadiga das suas fisionomias, que se não tinham deitado: LordeGrenley decerto que não, porque estava de casaca, como na véspera, e tinha ainda na bontonnie`re um jasmim-do-cabo, murcho e amarelado.
— Bonita madrugada! — disse Rytmel.Tinham aberto a janela, o ar fresco entrava; nas árvores do jar dim cantavam os pássaros.- Adorável! — disse eu. — A condessa esteve toda a noite doente, mas não se transtorna o passeio.. Outra coisa: tem um re vólver, Rytmel?
— Para quê?- Disseram-me que era muito curioso atirar aos pássaros que se escondem nas cavernas, em Gozzo. Há um eco excêntrico. Pre cisamos de uma arma.Rytmel deu-me um pequeno revólver marchetado.
— Leve-o: eu tenho as algibeiras cheias da álbuns e de cane tas para tirar desenhos... Ah! Sabe que este Grenley não vai?- Porquê? Como assim, Milorde?
— Um jantar oficial com o governador — disse Lorde Grenley -; é horrível. Tenho umapena imensa... Às sete horas fomos buscar a condessa. O marido acompanhou -nos até o cais MarsaMuscheto.
(continua...)
QUEIRÓS, Eça de; ORTIGÃO, Ramalho. O Mistério da Estrada de Sintra. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=14021 . Acesso em: 30 jun. 2026.