Por Eça de Queirós (1901)
Começou então o laborioso e pensativo estudo dos Horários – e o dedo magro de Jacinto, pôr sobre o mapa, avançando e recuando entre Paris e Tormes. Para escolher o “salão” que devíamos habitar durante a temida jornada, duas vezes percorremos o depósito da Estação de Orleãs atolados em lama, atrás do chefe do Tráfico que entontecia. O meu Príncipe recusava este salão pôr causa da cor tristonha dos estofos; depois recusava aquele pôr causa da mesquinhez aflitiva do Water-Closet. Uma das suas inquietações era o banho, nas manhãs que passaríamos rolando. Sugeri uma banheira de borracha. Jacinto, indeciso, suspirava... Mas nada o aterrou como o trasbordo em Medina del Campo, de noite, nas trevas da Velha Castela. Debalde a Companhia do Norte da Espanha e de Salamanca, pôr cartas, pôr telegramas, sossegaram o meu camarada, afirmando que, quando ele chegasse no comboio de Irun dentro do seu salão, já outro salão ligado ao comboio de Portugal esperaria, bem aquecido, bem alumiado, com uma ceia que lhe ofertava um dos Diretores, D. Esteban Castilho, ruidoso e rubicundo conviva do 202! Jacinto corria os dedos ansioso pela face: - “E os sacos, as peles, os livros, quem os transportaria do salão de Irun para o salão de Salamanca?” Eu berrava, desesperado, que os carregadores de Medina eram os mais rápidos, os mais destros de toda a Europa! Ele murmurava: - “Pois sim, mas em Espanha, de noite!...” A noite, longe da Cidade, sem telefone, sem luz elétrica, sem postos de polícia, parecia ao meu Príncipe povoada de surpresas e assaltos. Só acalmou depois de verificar no Observatório Astronômico, sob a garantia do sábio professor Bertrand, que a noite da nossa jornada era de Lua-cheia!
Enfim, na Sexta-feira, findou a tremenda organização daquela viagem histórica! O Sábado predestinado amanheceu com generoso sol, de afagadora doçura. E eu acabava de guardar na mala, embrulhadas em papel pardo, as fotografias das criaturinhas suaves que, nesses vinte e sete meses de Paris, me tinham chamado "mon petit chou! mont rat cheri!” quando Jacinto rompeu pelo quarto, com um soberbo ramo de orquídeas na sobrecasaca, pálido e todo nervoso.
-Vamos ao bosque, pôr despedida?
Fomos – à grande despedida! E que encanto! Até nas almofadas e molas da vitória senti logo uma elasticidade mais embaladora. Depois, pela Avenida do Bosque, quase me pesava não ficar sempiternamente rolando, ao trote rimado das éguas perfeitas, no rebrilho rico de metais e vernizes, sobre aquele macadame mais alisado que mármore, entre tão bem regadas flores e relvas de tão tentadora frescura, cruzando uma Humanidade fina, de elegância bem acabada, que almoçara o seu chocolate em porcelanas de Sèvres ou de Minton, saíra de entre sedas e tapetes de três mil francos, e respirava a beleza de Abril com vagar, requinte e pensamentos ligeiros! O Bosque resplandecia numa harmonia de verde, azul e ouro. Nenhuma cova ou terra solta desalisava as polidas áleas que a Arte traçou e enroscou na espessura – nenhum esgalho desgrenhado desmanchava as ondulações macias da folhagem que o Estado escova e lava. O piar da aves apenas se elevava para espalhar uma graça leve de vida alada – e mais natural parecia, entre o arvoredo sociável, o ranger das selas novas, onde pousavam, com balanço esbelto, as amazonas espartilhadas pelo grande Redfern. Em frente ao Pavilhão de Armenonville cruzamos Madame de Trèves, que nos envolveu a ambos na carícia do seu sorriso, mais avivado àquela hora pelo vermelhão ainda úmido. Logo atrás a barba talmúdica de Efraim negrejou, fresca também da brilhantina da manhã, no alto dum fáeton tilintante. Outros amigos de Jacinto circulavam nas Acácias – e as mãos que lhe acenavam, lentas e afáveis, calçavam luvas frescas cor de palha, cor de pérola, cor de lilás. Todelle relampejou rente de nós sobre uma grande bicicleta. Dorman, alastrado numa cadeira de ferro, sob um espinheiro em flor, mamava o seu imenso charuto, como perdido na busca de rimas sensuais e nédias. Adiante foi o Psicólogo, que nos não avistou, conversando com um requebro melancólico para dentro dum cupé que rescendia a alcova, e a que um cocheiro obeso imprimia dignidade e decência. E rolávamos ainda, quando o Duque de Marizac, a cavalo, ergueu a bengala, estacou a nossa vitória para perguntar a Jacinto se aparecia à noite nos “quadros vivos” dos Verghanes. O meu Príncipe rosnou um – “não, parto para o sul...” – que mal lhe passou de entre os bigodes murchos... e Marizac lamentou – porque era uma festa estupenda. Quadros vivos da História Sagrada e da História romana!... Madame Verghane, de Madalena, de braços nus, peitos nus, pernas nuas, limpando com os cabelos os pés do Cristo! – O Cristo, um latagão soberbo, parente dos Trèves, empregado no Ministério da guerra, gemendo, derreado, sob uma cruz de papelão! Havia também Lucrécia na cama, e Tarquínio ao lado, de punhal, a puxar os lençóis! E depois ceia, em mesas soltas, todos nos seus trajes históricos. Ele já estava aparceirado com Madame de Malbe, que era Agripina! Quadro portentoso esse – Agripina morta, quando Nero a vem contemplar e lhe estuda as formas, admirando umas, desdenhando outras como imperfeitas. Mas, pôr polidez, ficara combinado que Nero admiraria sem reserva todas as formas de Madame de Malbe... Enfim colossal, e estupendamente instrutivo!
(continua...)
QUEIRÓS, Eça de. A ilustre casa de Ramires. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=1790 . Acesso em: 28 jun. 2026.