Por Lima Barreto (1915)
Acordaram cedo. Quaresma não foi logo para o trabalho. Tomou café e esteve conversando com o doutor. O correio chegou e trouxe-lhe um jornal. Rasgou a cinta e leu o título. Era o O Município, órgão local, hebdomadário, filiado ao partido situacionista. O doutor se havia afastado; ele aproveitou a ocasião para ler o jornaleco. Pôs o pince-nez, recostou-se na cadeira de balanço e descobriu o jornal. Estava na varanda; o terral soprava nos bambus que se inclinavam molemente. Começou a leitura. O artigo de fundo intitulava-se “Intrusos” e consistia em uma tremenda descompostura aos não nascidos no lugar que moravam nele - “verdadeiros estrangeiros que se vinham intrometer na vida particular e política da família curuzuense, perturbando-lhe a paz e a tranqüilidade”.
Que diabo queria dizer aquilo? Ia deitar fora o jornaleco, quando lhe pareceu ler seu nome entre versos.
Procurou o lugar e deu com estas quadrinhas:
POLÍTICA DE CURUZU
Quaresma, meu bem, Quaresma! Quaresma do coração! Deixa as batatas em paz Deixa em paz o feijão.
Jeito não tens para isso
Quaresma, meu cocumbi! Volta à mania antiga De redigir em tupi.
Olho vivo.
O major ficou estuporado. Que vinha a ser aquilo? Por quê? Quem era? Não atinava, não achava o motivo e o fundo de semelhante ataque. A irmã aproximara-se acompanhada da afilhada. Quaresma estendeu-lhe o jornal com o braço tremendo: “Lê isto, Adelaide.”
A velha senhora viu logo a perturbação do irmão e leu com pressa e solicitude. Ela tinha aquela ampla maternidade das solteironas; pois parece que a falta de filhos reforça e alarga o interesse da mulher pelas dores dos outros. Enquanto ela lia, Quaresma dizia: mas que fiz eu? que tenho com política? E coçava os cabelos já bastante encanecidos.
Dona Adelaide disse então docemente:
- Sossega, Policarpo. Por isso só?... Ora!
A afilhada leu também os versos e perguntou ao padrinho:
- O senhor se meteu algum dia nessa política daqui?
- Eu nunca!... Vou até declarar que...
- Está doido! exclamaram as duas mulheres a um tempo, ajuntando a irmã:
- Isto seria uma covardia... Uma satisfação... Nunca!
O doutor e Ricardo chegavam de fora e encontraram os três nessas considerações. Notaram a alteração de Quaresma. Estava pálido, tinha os olhos úmidos e coçava sucessivamente a cabeça.
- Que há, major? indagou o troveiro.
As senhoras explicaram o caso e deram-lhe as quadrinhas a ler. Ricardo depois contou o que ouvira na vila. Acreditavam todos que o major viera para ali no intuito de fazer política, tanto assim que dava esmolas, deixava o povo fazer lenha no seu mato, distribuía remédios homeopáticos... O Antonino afirmava que havia de desmascarar semelhante tartufo.
- E não desmentiste? perguntou Quaresma.
Ricardo afirmou que sim, mas o escrivão não quisera acreditar nele e reiterara os seus propósitos de ataque.
O major ficou profundamente impressionado com tudo; mas, de acordo com seu gênio, incubou nos primeiros tempos a impressão, e, enquanto estiveram com ele os seus amigos, não demonstrou preocupação.
Olga e o marido passaram no “Sossego” cerca de quinze dias. O marido, ao fim de uma semana, já parecia cansado. Os passeios não eram muitos. Em geral, os nossos lugarejos célebres, assim como na Europa cada aldeia tem a sua curiosidade histórica.
Em Curuzu, o passeio afamado era o Carico, uma cachoeira distante duas léguas da casa de
Quaresma, para as bandas das montanhas que lhe barravam o horizonte fronteiro. O Doutor Campos já travara relações com o major e, graças a ele, houve cavalos e silhão que também permitisse à moça ir à cachoeira.
(continua...)
BARRETO, Lima. O triste fim de Policarpo Quaresma. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=2028 . Acesso em: 8 maio 2026.