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#Romances#Literatura Brasileira

Bom-Crioulo

Por Adolfo Caminha (1895)

— Ando com umas coceiras, umas feridas no corpo... Diz que é sarna.

— Ah!... Porque estás magro, meu velho, estás na espinha. Que diabo!

E depois de uma pausa.

— Eu vim ver o Anacleto, que está com uma carregação... Não sabias que tinha baixado também, que andavas por aqui. Fazia-te longe...

— É verdade, há quase um mês nesta desgraça, me acabando!

Chegaram à enfermaria. Os doentes olhavam-nos, palrando, em grupos, nos corredores, nas dependências do hospital. Alguns convalescentes jogavam a peteca num largo donde se avistava o mar.

Ia para as seis da tarde. Os navios de guerra, imóveis e embandeirados, tinham um aspecto festivo. Ouviam-se toques de corneta ao longe e sons de música em terra, na cidade. Barcas de Niterói cruzavam-se no meio da baía calma. Por toda a parte, no mar e em terra, um frêmito de alegria universal e domingueira, uma estranha alacridade perdendo-se ao longe, nas primeiras névoas do crepúsculo. Já se não via o disco de ouro do sol; a claridade ia pouco a pouco tornando-se difusa, esmaecida, langue, como uma manhã de brumas. O perfil das embarcações, o contorno das montanhas, torres e chaminés — tudo mergulhava na noite que descia palpitante de mistérios...

Ao Herculano pouco se lhe dava que anoitecesse, porque estava de folga; daí, do hospital, iria para terra num bote de ganho. Mas era preciso não demorar muito, sob pena de fechar-se o portão do estabelecimento, e ele amanhecer naquele “cemitério de vivos”...

Bom-Crioulo tranqüilizou-o: — Ainda era cedo,. Que pressa, que vexame!

E muito jeitoso, muito amável:

— Senta um pouco. Nada de cerimônias: isto aqui é meu, é teu, é do Governo. Podemos conversar à vontade.

Herculano correu o olhar pela enfermaria, pelo chão, pelo teto, pelas camas alinhadas. De resto, não era má vida... Boas camas, bom passadio, liberdade...

— É porque ainda não passaste uma noite aqui dentro, meu velho. Um inferno é o que isto é. Só mesmo para quem não pode agüentar-se. Boa cama temos nós a bordo.

— Pode-se fumar? perguntou o outro.

— É proibido, mas fuma lá teu cigarro.

Tinham se sentado na cama do negro, muito encardida. — “Era só um instantinho”, avisou o grumete.

E Bom-Crioulo puxou conversa:

— Dá-me notícias daquela gente, ó Herculano. Como vai o Aleixo, como vai o guardião Agostinho, como vão todos?...

— Bem. O guardião Agostinho sempre malvado, aquele cabra — malvado e “implicante”. Eu, felizmente, não lhe tenho caído nas unhas; felizmente! O Aleixo, aqui pra nós, anda muito metido com os oficiais. Vive na praça d’armas, é quem dá corda no relógio, é quem arruma os camarotes, quem faz tudo. Está um pelintra, filho, um grande pelintra: é o nenenzinho de bordo. Sai quando quer, entra quando quer...

Bom-Crioulo pigarreou.

— Eu, por mim, não troco palavra com ele, continuou Herculano. Estamos de mal, por uma asneira, por uma tolice... Outro dia quase nos pegamos. Dizem até que está amigado, em terra, com uma rapariga.

— Amigado!?...

— Sim, amigado, um pitorra daquele. É o que dizem, eu não sei.

Bom-Crioulo tomava sentido, cheio de interesse, dominando-se, abafando uma golfada de palavrões, uma onda de cólera, que estava quase a irromper-lhe da boca. Desesperava. Na tépida penumbra da enfermaria o seu olhar tomava uma expressão dolorida e úmida, como o olhar de um náufrago perdido no círculo imenso das águas. Era uma tempestade surda e impenetrável, um desabar de todas as crenças, de todas as ilusões, de todas as forças que mantém o equilíbrio de uma natureza humana em revolta...

— O Sant’Ana, esse desertou, foi-se embora, foi-se embora, ninguém sabe para onde. Também, coitado! apanhava que nem boi ladrão. Era um pobre diabo...

Trocaram ainda algumas palavras. Herculano contou episódios íntimos de bordo, muito loquaz, muito verboso; e como já fosse noite:

— Adeus, Bom-Crioulo, que eu me vou chegando. Estimo que fiques bom, hein! que fiques completamente bom. Eu lá estou, na corveta, para o que quiseres. Boa noite!

— Boa noite, murmurou o negro com uma voz triste e profunda, quase lúgubre.

Acendiam-se as estrelas no céu muito alto e de uma limpidez outonal...

Bom-Crioulo não pensou em dormir, cheio, como estava, de ódio e desespero. Ecoavam-lhe ainda no ouvido, como um dobre fúnebre, aquelas palavras de uma veracidade brutal, e de uma rudez pungente : —“Dizem até que está amigado!”

Amigado, o Aleixo! Amigado, ele que era todo seu, que lhe pertencia como o seu próprio coração: ele, que nunca lhe falara em mulheres, que dantes era tão ingênuo, tão dedicado, tão bom!... Amigar-se, viver com uma mulher, sentir o contacto de outro corpo que não o seu, deixar-se beijar, morder, nas ânsias do gozo, por outra pessoa que não ele, Bom-Crioulo!...

(continua...)

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