Por Adolfo Caminha (1893)
Um belo domingo a Matraca lembrou-se outra vez de curtir o couro ao Zuza em redondilhas escandalosas que enchiam quase toda uma página. Os vendedores do pasquim atravessavam as ruas em disparada, esbaforidos, apregoando alto e bom som — o Namoro do Trilho de Ferro!
Em todas as esquinas surgiam meninos maltrapilhos sobraçando o jornaleco, arquejantes sob a luz crua do sol que incendiava a cidade nesse luminoso meio-dia de novembro.
O casarão do governo, acaçapado e informe, com o seu aspecto branco e tradicional de velho edifício português, do tempo do Sr. D. João VI, com a sua fila de janelas, alinhadas à maneira de hospital, espiando para a praça do General Tibúrcio, parecia dormir um sono bom de sesta, batido pelo sol, na mudez solene de um monumento arqueológico. Tinha dado meio-dia na Sé; ainda vibrava no espaço iluminado e azul a última nota das cornetas.
Àquela hora o estudante acabara de almoçar com o presidente, e, pernas cruzadas, reclinado numa cadeira de balanço, deliciava-se a fumar tranqüilo o seu havana, mais o José Pereira, na larga sala de recepção do palácio. De repente:
— A Matraca a 40 réis! O namoro do Trilho de Ferro! O Estudante e a Normalista! Grande Escândalo!
Um menino passava gritando a todo o pulmão numa voz fina de adolescente, as notícias da folha domingueira.
Zuza, com o rosto afogueado pelo Bordeaux que tomara ao almoço, estremeceu na cadeira.
— Hein?
O vendedor de jornais repetia a lengalenga lá fora, na praça. Então o estudante fulo de raiva, sacudindo fora o resto do charuto, levantou-se e foi direito à janela.
— Psiu! Psiu! Ó menino da Matraca!
— Eu?
— Sim, você mesmo!
Enquanto se esfrega um olho os dois encontraram-se embaixo, na porta do palácio.
— Que está você a gritar, seu patife? perguntou Zuza segurando o vendedor pelas orelhas.
— Nada, seu doutô; é o Namoro do Trilho.
— Você ainda repete, seu grandíssimo corno!
E, depois de encher o pequeno de petelecos, o futuro bacharel tomou-lhe todos os exemplares da Matraca rasgando-os imediatamente.
O outro abriu a goela a chorar encostando-se à parede, com a cabeça entre os braços.
— E puxe! continuou o Zuza implacável, com o seu olhar de míope. Vá, vá, vá, e diga ao dono desta imundície que eu ainda lhe quebro a cara a bengaladas, hein! Vá, vá, vá...
O pequeno não teve outro jeito senão ir-se arrastando pela parede, muito triste, resmungando, protestando nunca mais vender a Matraca, enquanto o Zuza explicava o caso ao José Pereira e ao presidente, que o receberam com uma explosão de risos.
O caso não era para rir, dizia ele formalizado, limpando os óculos com a ponta do lenço de seda. O caso não era para rir, que diabo! Ainda havia de quebrar a cara do redator da Matraca. Aquilo excedia as raias do decoro e do respeito que se deve ter à sociedade. Que essa! Não era nenhum filho da mãe que estivesse a servir de judas a Deus e ao mundo. Era assim que resolvia questões de dignidade pessoal — à bengala!
— Mas vem cá, ó Zuza, disse amigavelmente o fidalgo paulista; tu perdes o tempo e o latim com semelhante gente...
— Eu já o aconselhei, interrompeu José Pereira. O desprezo é a arma dos fortes.
— Qual desprezo, homem! O desprezo é a arma dos covardes. Eu cá resolvo as coisas positivamente a bengaladas.
— Quantas já deste no redator da Matraca? perguntou José Pereira para confundir o Zuza.
— Não dei nenhuma ainda, mas pretendo, antes de me ir embora, quebrar-lhe os queixos, sabe você?
O presidente para não provocar mais a bílis do Zuza perguntou, a propósito de jornais que se ocupavam da vida alheia, se tinham lido o Pedro II, e a conversa descambou para o terreno árido da política local.
— Que diz o papelucho? perguntou o fidalgo de dentro dos seus grandes colarinhos lustrosos.
— A mesma coisa de todos os dias, respondeu José Pereira com um gesto de desprezo. Que você é um péssimo presidente, que você gosta de tomar champanha e, finalmente, que você “vai encaminhando as coisas públicas para um abismo”.
— Ora, suportem-se umas coisas destas! saltou o Zuza. Eis aí: é ou não para se dar o cavaco?
— Mas, Zuza, eu vou respondendo a cada artigo com a demissão de dez funcionários amigos da oposição.
Queres ver uma coisa?... Que dia é hoje?...
— Domingo...
— Pois bem, vou mandar lavrar a demissão de alguns empregados públicos que se dizem miúdos, com a data de hoje. Eis aí está como se resolvem questões desta ordem. Insultam-me, não é assim? injuriam-me, acham que sou mau, que não tenho juízo, que sou indiferente à sorte do Ceará... Pois bem, hoje mesmo muita gente vai pagar pelos diretores do tal partido. Nada mais simples, não achas?
Ante a resolução pronta e decisiva do presidente o Zuza ficou perplexo. Decididamente era um grande homem aquele!
— Mas olha que vais reduzir à miséria muitas famílias...
(continua...)
CAMINHA, Adolfo. A normalista. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16512 . Acesso em: 27 mar. 2026.