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#Romances#Literatura Brasileira

O Missionário

Por Inglês de Sousa (1891)

Fidêncio contara então. Recebera aquele jornal, na véspera, por um regatão, e lera a notícia dum ataque de índios na Mundurucânia. Segundo o Baixo Amazonas, um bando de mundurucus ferozes atacara a pequena povoação de S. Tomé, incendiando as casas, e matara muitos moradores. Isto em pleno século dezenove, exclamara por sua conta, e sob o governo do José Maria da Silva Paranhos! O povo pagava impostos ao Estado para ter a sua vida garantida e a sua propriedade segura! A isto estava reduzido o Amazonas, graças à inércia do presidente da província, a uma floresta virgem, onde os habitantes a todo momento eram trucidados pelos silvícolas! Fidêncio ia escrever uma carta forte ao Democrata, verberando o ministério. Oh! havia de ser uma das suas mais apimentadas correspondências, mostraria o que era esse governo de fracalhões, de covardes, de malandros, que deixava que os roupetas de Lojola se assenhoreassem do povo, e não tratava de o defender contra os incolas da floresta, porque só cuidava de encher a pança ao Mauá e mais meninos bonitos.

— Hei de mostrar-lhes! terminara acendendo o cigarro e indo sentar-se no banco de pau, para limpar as unhas com um palito.

O coletor tomara a defesa do governo contra as injustiças de Fidêncio. O ministério não tinha culpa! O presidente era um excelente homem, um cavalheiro amável e não podia prever. O que provava contra o governo do país aquele lamentável fato da Mundurucânia? Que não temos braços.

— Varro, bradara o Pedrinho Sousa, por troça, varro, seu capitão. Braços tenho eu e mais V. S.a, o Chico e o Barata.

O capitão explicara complacentemente. Queria dizer que se a população aumentasse, os sertões se povoariam e o gentio fugiria para longe, para muito longe, lá para Mato Grosso. E porque não aumentava a população, coisa que já de si bastava para responder às censuras, à primeira vista justas, do Sr. Fidêncio? Evidentemente, por falta de braços...

— Talvez por falta de cabeças... acudira o professor, grifando a frase para o meter à bulha.

Os rapazes deram uma risada, dizendo: essa é que é a verdade!

O coletor sorria, assoara-se e continuara, fingindo não entender a pilhéria:

— Por falta de cabeça, diz V. S.a; e talvez tenha razão até certo ponto, porque sem cabeça não há homem e sem homem não há braços, sem braços não há população, nem lavoura, nem civilização, nem nada. Entretanto, o governo tem cuidado seriamente da catequese, que seria outro meio de acabar com os selvagens, convidando-os pela brandura e pelas boas maneiras a virem tomar parte no banquete do cristianismo. O diabo é que não se pode fazer catequese sem padres, e os padres...

— Disso não cuidam eles, interrompera Fidêncio aproveitando o ensejo. Catequese! Está fresco! Do que eles cuidam é de assegurar o seu predomínio sobre as famílias católicas pela confissão, pelas rezas, pelos bentinhos, a fim de conseguirem os seus fins tenebrosos, como dizia Voltaire. Eu não creio na catequese pelos padres, porque o índio não é civilizável, mas, enfim, antigamente os padres dedicavam-se à conversão do gentio, como, por exemplo, S. Paulo que foi chamado o Apóstolo dos Gentios. Mas, hoje, do que eles tratam é de namorar as mulatas e de encher a pancinha com petisqueiras finas, e aferrolhar o cobre para o que der e vier.

Os rapazes aplaudiam com profundo conhecimento da questão, bebido nas muitas lições anteriores. O capitão Fonseca sacudia a cabeça, como tendo muita coisa a opor. O portuguesinho do balcão, o Manuel da Costa e Silva, como o chamavam, encostado à mesa de pinho do patrão, de braços cruzados, silencioso, parecia não ouvir o que se dizia; enfiava o olhar negro e vivo pela porta que lhe ficava em frente, embebendo-o nas nuvens que sombreavam o lago, restringindo o horizonte, e que talvez lhe estivessem recordando o céu da sua querida aldeia minhota. Quando Fidêncio fazia uma pausa, um besouro verde-negro zumbia sonoramente, batendo-se pelas paredes. A vozeria das crianças diminuíra, ouviamse as mães que as chamavam para a casa, ameaçando-as, de cipó em punho. De vez em quando um tapuio, retardado pelo porre da última hora, passava pelas portas, pisando forte, admirando com os olhos vermelhos as figuras pintadas nos vãos da fachada. A noite vinha vindo do fundo do Saracá.

Fidêncio desforrara-se então da privação de dias, repisando as declarações contra os padres. Todas as acusações formuladas pela imprensa livre-pensadora, pelos panfletos baratos, todas as banalidades cediças reeditadas de fresco pelos inimigos do clericalismo na luta travada a propósito do interdito das irmandades, tomaram na boca do professor - tinha presunção disso - a forma original dos seus calem-burgos brejeiros e das suas pilhérias desaforadas. O Pedrinho Sousa e o Manduquinha ajudavam-no, esclarecendo com o comentário das gargalhadas o sentido equívoco das expressões, revestidas de um respeito afetado pela pessoa do capitão Fonseca. O coletor já começava a ceder, meio vencido, mas entrincheirando-se na Divindade de Cristo e na Virgindade de Maria Santíssima. Desses dois dogmas é que não admitia que se duvidasse. O jornalista desfiara um longo rosário de anedotas picantes, reminiscências da Central, para provar que os padres eram os verdadeiros inimigos da religião católica e da moral pública. E, despertando-lhe aquelas reminiscências a indignação adormecida, bradara, batendo uma punhada sobre o balcão:

— Corja de jesuítas! Do que precisam é dum marquês de Pombal!

Nessa ocasião o vulto de padre Antônio de Morais, esbatido pela dúbia claridade do último crepúsculo da tarde, desenhou-se no trecho de rua devassado pelas portas da loja, passando vagarosamente, sereno e triste, na batina negra.

(continua...)

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