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#Romances#Literatura Brasileira

Uma Lágrima de Mulher

Por Aluísio Azevedo (1880)

— Então! interrompeu Miguel, em cujo olhar acabava de nascer o contentamento e a esperança, havias te esquecido de mim? Ingrata! Não te quis ao menos parecer que a tua riqueza era um obstáculo sério à minha ventura! Oh! como sou feliz em ver-te novamente pobre! Iremos juntos para Lipari, onde serás minha esposa, e então seremos felizes, muito felizes! Quanto é bom ser pobre! Olha! disse ele chegando-se carinhosamente para ela e sorrindo, com os modos satisfeitos, de quem se preza de saber arranjar bem as coisas. Vendido tudo por cá, todas estas grandezas e todo este luxo, em pouco poderá ficar a dívida; por esse tempo já estarás em Lipari, caso contigo e serei legalmente o único devedor do que não se puder pagar com o resultado da venda; e daí, com o meu trabalho e principalmente com a minha vontade, crê, conseguiremos ir pouco a pouco resgatando o nome de teu pai. Oh! como seremos felizes!... Mas como te houveste tão injusta em não te lembrares de mim!... Em Lipari, levantaremos novamente uma casa, sob as oliveiras que te viram nascer, minha Rosalina, e sozinhos, ao som das brisas que te embalaram em pequenina, e do mar que te ama ainda, e dos cantos dos passarinhos que voltarão ao nosso teto hospitaleiro, viveremos em companhia da boa Ângela, que te estremece como mãe. Sabes mais!... Castor ainda vive!... disse o moço satisfeitíssimo, batendo palmas, ainda vive! achei-o na noite o incêndio e conservo-o comigo; é um bom e generoso companheiro! Oh! ele também virá porque, não sabes? foi ele que primeiro descobriu pelo faro que tu moravas aqui. Coitado! como te cobrirá de festas quando te vir! Oh! mas é preciso que te decidas a partir! Vamos! não é assim? Dize!... Estás pobre?... Tanto melhor! Ninguém se lembrará de te perseguir!... Partamos, meu amor!

E Miguel, satisfeito como uma criança, beijava as mãos, os pés, o cabelo e a fronte de Rosalina. Parecia louco

Ela observava-o com um sorriso de afetada desesperança, que mascarava enorme surpresa; parecia-lhe aquilo um sonho; nunca esperava tanto amor de Miguel; sentia-se conscientemente arrependida de se ter fingido pobre, antes falasse com franqueza, porque a situação perigava progressivamente.

— Diabo! dizia consigo. Ele adora-me apesar de tudo! Que volta darei a esta cena tão difícil e ridícula?

E assim pensando, fingia fartar-se em contemplar silenciosa o amado, enquanto meditava astuciosamente outro meio mais seguro de fugir-lhe; porém, fundo e estranho ressentimento principiava a minguar-lhe o ânimo, em presença daquela vontade de ferro, daquela firmeza de afeto, daquele amor indelével que tudo cometia indiferente, contanto que o deixassem existir pela mulher, que o próprio coração escolheu para ídolo.

Neste estado e maquinando ainda uma engenhosa saída, fitou Rosalina os olhos abrasados e felizes de Miguel, e, apartando deles os próprios, passeava-os, aparentemente enfraquecidos, pelo quarto, à procura da idéia; quando o acaso deparou-lhe o copo de orchata, sobre o velador à cabeceira do leito.

— Ah! fez ela.

— Que tens!... acudiu Miguel.

— Nada, meu amigo, sinto-me mal!...

— Tudo isso, volveu Miguel, beijando-lhe as mãos, desaparecerá com a nossa futura felicidade! Reanima-te e ordena o que queres que te faça! Aqui tens um escravo! vamos, meu amor... fala! como se eu fosse teu pai, minha filhinha!...

— Já não tenho vontade nem desejos... meu bom amigo, respondeu ela, retorcendo os olhos, porque não posso contar com a existência...

— Rosalina!... disse Miguel; não te deixes levar por essas idéias tão más!... Confia em mim e espera de Deus! Não desanimes, que tens muita vida e a nossa ilha tem muitas flores que te esperam... Havemos de correr juntos pela primavera os caminhos sombreados e ervecidos; subiremos de mãos dadas as encostas dos montes e os píncaros dos rochedos; havemos de...

Rosalina parecia já não escutar; torcia-se na cama, a ranger os dentes uns contra os outros, e retorcendo os olhos derivava olhares desencontrados.

— Rosalina! Rosalina!... Que tens!... Meu Deus! Acudam! exclamava Miguel.

— Silêncio! disse ela, tapando-lhe brandamente a boca com os dedos corde-rosa. Não faças bulha e ouve, que é necessário falar. Ainda há pouco me vedaste concluir o que te contava; ouve o resto. Dizia-te eu, que era necessário abraçar qualquer partido, porque o tempo urgia e o dia da entrega se aproximava... Pois bem, meu bom Miguel, não tive ânimo de me resolver a casar com o velho rico e...

— E... disse Miguel trêmulo de impaciência.

— Chegou a véspera do dia maldito!... Amanhã os credores tomam conta de tudo!...

— Não importa!

— Mas é... acrescentou chorando Rosalina, que eu não resisti a tamanha provação! Fui covarde!... confesso! mas eu sou mulher, perdoa!...

— Acaba!...

— Vês este copo? continuou ela, torcendo-se toda e indicando a cabeceira do leito.

— Céus!...

— Ainda há pouco estava cheio de... veneno... eu... E reclinando-se nos braços de Miguel acrescentava, espatifando as palavras: Não tenho, Miguel, de vida... mais que alguns... instantes...

(continua...)

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