Letras+ | Letródromo | Letropédia | LiRA | PALCO | UnDF




?
Busca avançada
Compartilhar Reportar
#Romances#Literatura Brasileira

O Mulato

Por Aluísio Azevedo (1881)

Já maçado, resolveu passar busca minuciosa em todo o quarto e encontrou os seguintes corpos de delito: dois ganchos de pentear, um jasmim seco, um botão de vestido e três pétalas de rosa. “Ora. estes objetos lhe pertenciam tanto quanto o pentinho de tartaruga e o laço de veludo.. Quem fazia a limpeza e arrumava o quarto era o Benedito; este também não usava laços nem ganchos na cabeça... Logo, como havia pensado, alguém se divertia em vir, na sua ausência, revistar o que era dele, e esse alguém só poderia ser Ana Rosa!... Mas, que diabo vinha ela fazer ali?... Como adivinhar o fim daquelas visitas extravagantes?... Seria simples curiosidade ou andaria naquilo a base de alguma intriga maranhense, tramada contra o morador do quarto, ou talvez, quem sabe? contra a pobre menina?... Fosse o que fosse, em todo o caso, era urgente pôr cobro a semelhante patacoada!”

Desde esse dia, Raimundo prestou atenção a todos os objetos que deixava no quarto; marcou o ponto em que ficava o álbum, o despertador um livro, o estojo de barba ou qualquer coisa, que o moleque não precisasse tirar do lugar para fazer a limpeza. E com estas experiências, cada vez mais se convencia das visitas misteriosas; os corpos de delito reproduziam-se escandalosamente; uma vez encontrou toda riscada a unha a cara da dançarina, cuja fotografia ele, com tanto cuidado, escondera de sua prima, porque nas costas do cartão, havia a seguinte dedicatória: A mon brésillen bien-aimé, Raymond.

Que dúvida! Todas as suspeitas recaiam sobre a bela filha do dono da casa! A graça, porem. é que Raimundo, apesar de não agradar à sua índole de homem sério e franco tudo que cheirasse a subterfúgio e ilegalidade, sentia no entanto certo gosto vaidoso em preocupar tanto a imaginação de uma mulher bonita; lisonjeava-lhe aquele interesse, aquela espécie de revelação tímida e discreta; gostou de perceber que seu retrato era de todos os objetos, o mais violado, e, como bom policia chegou a descobrir-lhe manchas de saliva que significavam becos. Mas ou fosse levado pela curiosidade ou fosse na desconfiança de ser tudo aquilo obra de algum patife, ou fosse, enfim, porque o fato repugnasse ao seu caráter honesto verdade é que deliberou aproveitar a primeira oportunidade para acabar com aquela mistificação.

Poucos dias depois, saindo de casa e demorando-se defronte da porta a conversar com alguém, viu da rua fecharem cuidadosamente as rótulas do seu quarto. Não hesitou - subiu pé ante pé, atravessou a varanda deserta, e foi direito ao seu aposento.

CAPÍTULO VI

Ana Rosa, com efeito, de algum tempo a essa parte, fazia visitas ao quarto de Raimundo, durante a ausência morador.

Entrava disfarçadamente, fechava as rótulas da janela, e como sabia que o morador não aparecia àquela hora, começava a bulir nos livros, a remexer nas gavetas abertas, a experimentar as fechadas a ler os cartões de visita e todos os pedacinhos de papel escrito. que lhe caiam nas mãos. Sempre que encontrava um lenço já servido no chão ou atirado sobre a cômoda apoderava-se dele e cheirava-o sofregamente, como fazia também com os chapéus de cabeça e com a travesseirinha da cama.

Estas bisbilhotices deixavam-na caída numa enervação voluptuosa e doentia, que lhe punha no corpo arrepios de febre. Uma vez encontrou uma banda de luva cor de cinza, esquecida atrás de uma das mulas calçou-a logo, com avidez e facilidade, e pôs-se a fixá-la muito a interrogá-la com os olhos, abrir e fechar a mão distraída, acompanhando as rugas da pelica. E esta luva arrancava-lhe conjeturas sobre o passado de Raimundo; fazia-lhe imaginar os bailes ruidosos de Paris as festas, os passeios, as estações dos caminhos de ferro as manhãs frescas em viagem de mar, as ceias nos hotéis, as corridas a cavalo e toda uma vida de movimento, de gargalhadas de almoços com mulheres uma existência que se desenrolava defronte da sua imaginação, como um panorama feito com os desenhos do álbum de Raimundo e em cujo primeiro plano atravessava este, rindo fumando braço dado à dançarina da fotografia, que lhe dizia, cheia de um amor teatral: “Raymond! mon bien-aimé!”

Foi num desses sonhos que Ana Rosa, irrefletidamente, arranhou o rosto do retrato, com a mesma raiva como que no colégio fazia outro tanto aos judeus mal desenhados do seu compêndio de doutrina cristã.

(continua...)

« Primeiro‹ Anterior...3940414243...Próximo ›Último »
Baixar texto completo (.txt)

← Voltar← AnteriorPróximo →