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#Romances#Literatura Brasileira

O Garimpeiro

Por Bernardo Guimarães (1872)

Elias bem ardia em desejos de ir ver Lúcia. Mas, ofendido há tão pouco tempo pelo Major em seu amor- próprio, sentia certa repugnância em ir visita-lo, e demais receava que ele pensasse que sua visita naquela ocasião tinha por fim humilha-lo e mortifica-lo. Visitar Lúcia na ausência do pai, também sua natural delicadeza não permitia, principalmente naquela condição em que ela se achava; era dever duplamente sagrado para ele respeitar-lhe o recato e a reputação.

Elias passou essa manhã a excogitar um meio de ver Lúcia sem encontrar-se com o Major; mas seu cérebro abrasado e debilitado pela moléstia não lhe sugeriu nenhum. À tarde o acesso febril o prostrou na cama, e forçoso lhe foi renunciar por esse dia ao seu desejo.

No dia seguinte amanheceu muito melhor. O Major saiu como na véspera à mesma hora. Elias que não ousava fazer uma visita formal à casa de seus vizinhos, começou a rondá-la em torno, mas em certa distância respeitosa, a ver se por acaso entrevia de longe a sua querida Lúcia, e esperando que o acaso lhes proporcionaria ao menos um momento de entrevista. O sítio era inteiramente ermo. A casa tinha um grande cercado ou quintal quase inteiramente inculto, e contíguo ao quintal da casa de Elias, tendo ambos nos fundos por limites o ribeirão. Elias rodeou primeiramente o cercado pelo lado exterior, passou pela frente da casa e desceu até à margem do ribeirão, enfiando ávidos e perscrutadores olhares por todas as janelas, através das cercas e dos arvoredos. Se alguém o visse, nada poderia suspeitar; ia embuçado em seu capote, arrimado a um bastão, era um pobre enfermo em convalescença, que dava o seu passeio higiênico. Não viu ninguém.

De volta à casa lembrou-se de fazer a mesma excursão pelo lado interior do quintal de sua casa, que ficava contíguo ao dos vizinhos. Aquele também estava coberto de arbustos silvestres e capoeira inculta, de maneira que, por entre as moitas, podia Elias muito a seu sabor e sem ser visto observar por entre paus mal unidos da cerca todo o quintal vizinho, e mesmo divisar algumas vezes o terreiro. Teria dado como uns trinta passos ao longo da cerca que ia morrer à beira do rio, quando ouviu vozes de mulher um pouco mais abaixo. O coração pulou-lhe cheio de alvoroço; cuidou ouvir a voz de Lúcia! Foi-se aproximando com precaução até o ponto donde partiam as vozes, colocou-se à cerca, espreitou e viu. . .

A pequena distância da cerca um jorro d’água caía por uma bica em um tanque raso alcatifado de cascalhos, no qual Lúcia, com os pés descalços mergulhados n’água, a saia do vestido, presa por um lenço, regaçada quase até os joelhos, o corpo do vestido descido, os róseos seios mal cobertos pela fina e transparente camisa e os compridos cabelos ajuntados atrás por uma fita, caindo-lhe pelas espáduas, estava lavando roupa.

Debruçada sobre o tanque, cujas águas borbulhando-lhe em torno beijavam amorosas as duas colunas de alabastro nelas mergulhadas, dir-se- ia Vênus no momento em que nascia da espuma do mar, ou branca açucena que ali nascera à beira da fonte, e pendia o cálix a mirar-se em seu cristalino regaço. Nunca Elias, nos dias em que ela era rica e feliz, no meio das festas e do esplendor do luxo, nunca a vira tão linda, tão fascinadora assim. O coração batia-lhe com tal violência, que tinha medo que fosse ouvido e traísse a sua presença ali. Entretanto quase se envergonhava de estar ali espreitando às escondidas e profanando com suas vistas o inocente e descuidoso desalinho daquela casta criatura. Queria fugir, mas seus pés pregados à terra, e seus olhos não podiam desviar-se daquela Angélica figura que os fascinava, e se Lúcia nunca dali saísse, Elias também ali ficaria para sempre, ou então de um salto transpondo a cerca, iria se arrojar aos pés dela, se do lado de cima da bica não estivesse em pé uma escrava que com ela conversava. Era a boa e fiel Joana, que acabava de colher nos canteiros destroçados daquela inculta horta um punhado de ervas para o parco jantar da família, enquanto a senhora lavava roupa.

Não é só a morte que nivela as condições; o destino às vezes a antecipa, e se compraz em curvar a cabeça dos ricos e orgulhosos até beijarem o pó da terra, e coloca escravos ao nível do senhor. Mas o destino é cego, e o raio que fulmina sobre a cabeça do culpado também às vezes debruça sobre o lodo o lírio puro da inocência e da virtude.

Quando Elias as avistou, a conversa das duas estava tocando a seu fim.

-tem paciência, sinhazinha, dizia a escrava. Nossa Senhora do Patrocínio há de ter piedade de nós. Querendo Deus, tudo se há de arranjar e nós ainda havemos de voltar para nossa roça. Mas enquanto isso se não arranja, aqui está sua negra velha, que ainda pode trabalhar para Vmcês. Todos. . .

-mas tu hoje és forra, Joana; deves ir cuidar na tua vida. . .

- Que me importa lá isso? . . . por acaso eu pedi alguma alforria? entreguem-me cá a minha carta, e hão de ver como eu a faço em pedacinhos e atiro tudo no fogo.

- Isso não, Joana! . . . tal não farás. Fui eu que pedi a meu pai te forrasse, e sabes por quê? . . .

- Eu sei lá! . . . de certo foi porque sinhazinha não me quer mais; quer ficar livre de mim. . .

- pelo contrário, Joana, foi para não ficar sem ti. Se não fosses forra, irias cair nas mãos dos credores de meu pai, como todos os outros escravos da casa.

(continua...)

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