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#Romances#Literatura Brasileira

A Pata da Gazela

Por José de Alencar (1870)

Desde a idade de três ou quatro anos, isto é, desde que deixou as faixas, Laura usou sempre de roupas compridas. Isso causava reparo a todos que viam a menina trajada como uma senhora. Muitos achavam extravagante e ridículo o capricho e censuravam a mãe.

Esta ouvia as censuras de suas amigas, assim como os motejos estranhos, e calava-se; mas não alterava o vestuário da menina. A ternura e piedade materna lhe davam a paciência necessária para arrostar com as zombarias do mundo.

Laura tinha um aleijão; nascera com os pés disformes. Para mais agravar o desgosto dos pais, essa monstruosidade vinha ligada a uma beleza angélica. A senhora avaliou do infortúnio de sua filha, e preparou-se para todos os sacrifícios. Consultas foram dirigidas aos melhores médicos da Europa; chegou a empreender uma viagem para tentar os recursos da ciência; foram todos ineficazes.

Desenganada afinal, dedicou-se a esconder a desgraça de sua filha, a fim de que ela não fosse obrigada a envergonhar-se na sociedade. Durante muito tempo Laura não teve outra criada, além de sua mãe. À custa de esforços constantes, de uma vigilância incessante de cada dia e cada hora, conseguiu a senhora manter esse segredo de família, do qual dependia a felicidade da filha.

Atingindo a idade de oito anos, a menina com o instinto da mulher, compreendera seu infortúnio; e desde então descansou a mãe daquele cuidado incessante. Ficando moça casou-se, e seu marido que a amava estremecidamente, morreu ignorando o segredo.

Com bastante mágoa sua, Amélia surpreendeu o segredo da prima e amiga.

A filha de Sales tinha dois pezinhos de fada, breves, arqueados, com uns dedos que pareciam botões de rosa. O desgosto e vexame que isso causava à moça, ninguém o imagina. Ela supunha-se aleijada; apesar de seus 18 anos, seus pés eram de menina.

Assim o mesmo cuidado com que Laura escondia a sua monstruosidade, punha ela em ocultar essa graça e prenda da natureza. Naquele tempo não se tinha introduzido ainda a moda dos vestidos curtos; bem ao contrário, o tom era arrastar desdenhosamente pelo chão a longa fímbria do vestido.

Um dia que Laura passou em sua casa, Amélia teve curiosidade de comparar seu pezinho com o da prima, para saber se a diferença era excessiva. Enquanto a outra endireitava o penteado no toucador, realizou ela seu intento.

Avalie-se da vergonha e aflição de Laura; o desespero de Amélia foi maior ainda. Não perdoava a si mesma o ter causado tão grande pesar à prima, a quem ela queria muito bem. Para mitigar essa dor profunda, Laura esqueceu a sua.

Desde então as duas amigas se consolavam mutuamente. Laura admirava o pezinho de Amélia; esta, ou sinceramente, ou para atenuar a mágoa da prima, chegava a invejar o seu infortúnio.

Aborrecida de não encontrar nas lojas calçado que lhe servisse, Amélia tinha descoberto por acaso o sapateiro da Rua Sete de Setembro. Conhecendo a habilidade do Matos, pensou que ele pudesse disfarçar o defeito da prima. Não se enganou; o artista realizara a obra-prima de paciência, que Leopoldo tivera ocasião de apreciar por um acaso.

Amélia fez a Laura o sacrifício de expor-se para não comprometer o segredo da amiga. O sapateiro não a conhecia, nunca a tinha visto, recebia as encomendas por intermédio de um criado que pagava à vista. Fácil foi portanto iludi-lo.

Na ocasião em que as duas primas esperavam de carro na Rua da Quitanda, o lacaio vinha da casa do sapateiro, o qual vexado com a pressa, esquecera as recomendações de fechar bem o embrulho.

As pretensões de Horácio vieram pouco depois arrefecer a amizade das duas primas: já não se viam tão amiúde; mas não obstante Amélia continuou a prestar a Laura o mesmo serviço, e essa, coagida pela necessidade, foi obrigada a aceitá-lo.

Iam as coisas por esse teor, quando teve lugar o baile do Azevedo.

Depois da primeira quadrilha, Amélia foi ao toucador. Era este em uma sala que dava para o jardim. Aproximando-se de uma janela entreaberta, obscurecida pela sombra do cortinado da cama, viu a moça os dois amigos no momento em que eles vieram sentar-se no banco, justamente colocado por baixo da janela.

A casa era abarracada. Amélia encostada no portal da janela, descobria os dois cavalheiros por entre a folhagem, e ouvia distintamente suas palavras.

Aí, imóvel, mas agitada por comoções diversas, escutou ela a história do pé e a história do sorriso. Já os dois amigos se tinham afastado, e a moça permanecia no mesmo lugar como estática.

A narração de Horácio, e as observações que fizera Leopoldo a esse respeito, revelaram à moça uma coisa que já anteriormente se havia apresentado, embora indistinta, vaga e confusa a seu espírito.

(continua...)

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