Por Gabriel Soares de Sousa (1587)
Como el-rei D. João III de Portugal soube da morte de Francisco Pereira Coutinho, sabendo já das grandes partes da Bahia, da fertilidade da terra, bons ares, maravilhosas águas e da bondade dos mantimentos dela, ordenou de a tomar à sua conta para a fazer povoar, como meio e coração de toda esta costa, e ajudar e socorrer todas as mais capitanias e povoações dela como a membros seus; e pondo Sua Alteza em efeito esta determinação tão acertada, mandou fazer prestes uma armada e provê-la de todo o necessário para esta empresa, na qual mandou embarcar Tomé de Sousa do seu conselho e o elegeu para edificar esta nova cidade, de que o fez capitão e governador-geral de todo o Estado do Brasil; ao qual deu grande alçada e poderes em seu regimento, com que quebrou as doações aos capitães proprietários, por terem demasiada alçada, assim no crime como no cível; de que eles se agravaram à Sua Alteza, que no caso os não proveu, entendendo convir a si e a seu serviço. E como a dita armada esteve prestes, partiu Tomé de Sousa do porto de Lisboa aos 2 dias de fevereiro de 1549 anos; e levando próspero vento chegou à Bahia de Todos os Santos, para onde levava sua derrota, aos vinte e nove dias de março do dito ano, e desembarcou no pôrto de Vila Velha, povoação que Francisco Pereira edificou, onde pôs mil homens, convém a saber: seiscentos soldados e quatrocentos degradados e alguns moradores casados, que consigo levou, e outros criados del-rei, que iam providos de cargos, que pelo tempo em diante serviram.
C A P Í T U L O II
Em que se contém, quem foi Tomé de Sousa e de suas qualidades.
Tomé de Sousa foi um fidalgo honrado, ainda que bastardo, homem avisado, prudente e mui experimentado na guerra de África e da Índia, onde se mostrou mui valoroso cavaleiro em todos os encontros em que se achou; pelos quais serviços e grande experiência que tinha, mereceu fiar dele el-rei tamanha empresa como esta que lhe encarregou, confiando de seus merecimentos e grandes qualidades que daria a conta dela que dele esperava; a quem deu por ajudadores ao Dr. Pedro Borges, para com ele servir de ouvidor-geral, pôr o governo da justiça em ordem em todas as capitanias; e a Antônio Cardoso de Barros para também ordenar neste Estado o tocante à Fazenda de Sua Alteza, porque até então não havia ordem numa coisa nem noutra, e cada um vivia ao som da sua vontade. O qual Tomé de Sousa também levou em sua companhia padres da Companhia de Jesus, para doutrinarem e converterem o gentio na nossa santa fé católica, e a outros sacerdotes, para ministrarem os sacramentos nos tempos devidos. E no tempo que Tomé de Sousa desembarcou, achou na Vila Velha a um Diogo Álvares, de alcunha o Caramuru, grande língua dos gentios, o qual, depois da morte de Francisco Pereira, fez pazes com o gentio; e, com elas feitas, se veio dos Ilhéus a povoar o assento das casas em que dantes vivia, que era afastado da povoação, onde se fortificou e recolheu com cinco genros que tinha, e outros homens que o acompanharam, dos que escaparam da desventura de Francisco Pereira, os quais, ora com armas, ora com boas razões, se foram defendendo e sustentando até a chegada de Tomé de Sousa, por cujo mandado Diogo Álvares quietou o gentio e o fez dar obediência ao governador, e oferecer-se ao servir; o qual gentio em seu tempo viveu muito quieto e recolhido, andando ordinariamente trabalhando na fortificação da cidade a troco do resgate que lhe por isso davam.
C A P Í T U L O III
Em que se declara como se edificou a cidade do Salvador.
Como Tomé de Sousa acabou de desembarcar a gente da armada e a assentou na Vila Velha, mandou descobrir a baía, e que lhe buscassem mais para dentro alguma abrigada melhor que a em que estava a armada para a tirarem daquele porto da Vila Velha, onde não estava segura, por ser muito desabrigada; e por se achar logo o porto e ancoradouro, que agora está defronte da cidade, mandou passar a frota para lá, por ser muito limpo e abrigado; e como teve a armada segura, mandou descobrir a terra bem, e achou que defronte do mesmo porto era melhor sítio que por ali havia para edificar a cidade, e por respeito do porto assentou que não convinha fortificar-se no porto de Vila Velha, por defronte desse porto estar uma grande fonte, bem à borda da água que servia para aguada dos navios e serviço da cidade, o que pareceu bem a todas as pessoas do conselho que nisso assinaram. E tomada esta resolução, se pôs em ordem para êste edifício, fazendo primeiro uma cerca muito forte de pau a pique, para os trabalhadores e soldados poderem estar seguros do gentio. Como foi acabada, arrumou a cidade dela para dentro, arruando-a por boa ordem com as casas cobertas de palma, ao modo do gentio, nas quais por entretanto se agasalharam os mancebos e soldados que vieram na armada. E como todos foram agasalhados, ordenou de cercar esta cidade de muros de taipa grossa, o que fez com muita brevidade, com dois baluartes ao longo do mar e quatro da banda da terra, em cada um deles assentou muito formosa artilharia que para isso levava, com o que a cidade ficou muito bem fortificada para se segurar do gentio; na qual o governador fundou logo um colégio dos padres da
Companhia, e outras igrejas e grandes casas, para viverem os governadores, casas da câmara, cadeia, alfândega, contos, fazendas, armazéns, e outras oficinas convenientes ao serviço de Sua Alteza.
C A P Í T U L O IV
Em que se contém como el-rei mandou outra armada em favor de Tomé de Sousa.
(continua...)
BRASIL. Tratado descritivo do Brasil. Portal Domínio Público. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=38095. Acesso em: 30 nov. 2025.