Letras+ | Letródromo | Letropédia | LiRA | PALCO | UnDF




?
Busca avançada
Compartilhar Reportar
#Romances#Literatura Portuguesa

O Conde d'Abranhos

Por Eça de Queirós (1925)

Mas quando se não dá nenhuma destas hipóteses, quando os ministros não foram trazidos do seio da sua família para resolver questões sociais, – ou porque as não haja, ou porque seja um princípio tacitamente estabelecido deixá-las sem resolução – quando,.56 em lugar de se esforçarem contra a larga corrente da opinião, os ministros lhe bolam regaladamente no dorso, não compreendo como um ministério se possa gastar.

Um dia pedi respeitosamente ao Conde d'Abranhos a explicação da palavra e do fenómeno, e S. Exª, o que raras vezes sucedia, deu uma resposta vaga, tortuosa, reticente:

– É uma coisa que se sente no ar. É um não sei quê... Sente-se que a situação está gasta...

Não me permitiu o respeito que insistisse, mas, no fundo do meu entendimento, guardo um secreto terror por este fenómeno incompreensível!

O ministério Cardoso Torres estava portanto gasto. Calculava-se que ele pudesse talvez sobreviver durante grande parte da próxima sessão, mas, para o fim de Abril, devia desaparecer subitamente, como tinham desaparecido os Bexigosos e a corveta Saragoça!

O Partido Nacional retomaria então o poder, e Alípio Abranhos que, agora, era Governo, Influência, Força, Lei, passaria a ser o deputado loquaz de uma oposição estéril, pois que ninguém acreditava que os Reformadores – a que pertencia Cardoso Torres – tendo subido ao poder por um acaso, vissem esse acaso repetir-se. Os Reformadores eram pois, na frase clássica, «um partido sem futuro». O próximo ministério Nacional havia de colar-se às cadeiras do poder durante anos. E poderia, durante anos, Alípio Abranhos ver as suas faculdades, o seu génio, gastarem-se na retó-rica hostil e rancorosa da oposição?

Além disso o seu círculo de Freixo não era ainda um círculo certo. Durante esses curtos meses de sessão, Alípio não tivera tempo de prender definitivamente, pela gratidão, pelo interesse, pela lisonja, pelos serviços prestados, os influentes de Freixo. Se os Nacionais dissolvessem a Câmara, quem sabe se Alípio Abranhos não se veria empurrado involuntariamente para as doçuras da vida íntima, fazendo biribi no beicinho do Bibi, sob as sombras de Campolide, enquanto outros, sem a sua eloquência nem os seus estudos, trotariam para Belém, repoltreando-se nas almofadas do poder?

Decerto tinha deveres para com Cardoso Torres: fora ele que o nomeara deputado, que lhe abrira as portas da vida pública, que o fizera... Mas, por outro lado, tinha deveres maiores para consigo mesmo, para com a sua carreira, o seu nome, e, sobretudo, para com o tenro Bibi. Não devia ele tornar-se grande no seu país, para um dia poder apoiar a carreira do Bibi? Tinha ainda deveres para com Virgínia, a quem pesava a obscuridade social, e que, como uma verdadeira portuguesa, ansiava por fazer a sua grande mesura de corte diante de SS. MM. Tinha enfim deveres para com o país, ao qual não podia negar os serviços do seu alto entendimento!

Estas considerações pesou-as bem Alípio Abranhos, nessas horas da tarde em que passeava solitário na alameda de loureiros; e quando em princípios de Novembro voltou para Lisboa, tinha decidido, no segredo da sua alma, passar-se com as suas armas de eloquência e a sua bagagem de saber para o campo inimigo. Ia fazer-se oposição!

Esta resolução não a revelou a ninguém, – nem à sua esposa – mas durante meses preparou o grande discurso em que explicaria, como ele disse, «as razões de Estado que me fazem passar destas bancadas estéreis (e designava a maioria) para aqueles bancos fecundos!» (e mostrava a oposição).

Muitas vezes este grande acto político foi chamado uma «indecente traição». Nada mais absurdo. Pergunto eu: que é trair? É abandonar os ideais que se serviram, e passar, sem razão, para o serviço de ideais opostos que até aí se combatiam! Isto é normalmente, materialmente, uma traição.

Mas havia entre os Reformadores e os Nacionais ideais opostos? Abandonava Alípio Abranhos ideias queridas, para ir, por interesses grosseiros, defender ideias.57 detestadas? Não.

As ideias que servia entre os Reformadores, ia servi-las entre os Nacionais.

Em Religião, que eram os Reformadores? Católicos, Apostólicos, Romanos. E os Nacionais? Idem.

Em Política, o que eram os Rei armadores? Conservadores constitucionais. E os Nacionais? Idem.

Não tinham ambos o mesmo amor pela dinastia? – O mesmo.

Não eram ambos sustentáculos dedicados da propriedade? – Dedicadíssimos.

Não desejavam ambos a estrita aplicação da Constituição, só da Constituição, de toda a Constituição? – Desejavam-na ambos, ardentemente.

Não eram ambos centralizadores? Eram.

Não estavam ambos firmes na manutenção de um exército permanente? Firmíssimos, ambos.

Não tinham ambos um nobre rancor aos princípios revolucionários? Um rancor nobilíssimo.

(continua...)

« Primeiro‹ Anterior...3839404142...Próximo ›Último »
Baixar texto completo (.txt)

← Voltar← AnteriorPróximo →