Por Eça de Queirós (1888)
- Não ha mulheres?
- Não ha quem as receba. É um covil de solteirões. A viscondessa, coitada...
- Bem sei. Um apopleté...
- Sim, uma hemorragia cerebral. Ah, temos tambem o Silveirinha, chegou-nos ultimamente o Silveirinha...
- O de Resende, o cretino?
- O cretino. Euviuvou, vem da Madeira, ainda um bocado thisico, todo carregado de luto... Um funebre. O Ega, repoltreado, com aquelle ar de tranquilla e solida felicidade que Carlos já notara, disse puchando lentamente os punhos:
- É necessario reorganisar essa vida. Precisamos arranjar um cenaculo, uma bohemiasinha dourada, umas soirées de inverno, com arte, com litteratura... Tu conheces o Craft?
- Sim, creio que tenho ouvido fallar...
Ega teve um grande gesto. Era indispensavel conhecer o Craft! O Craft era simplesmente a melhor cousa que havia em Portugal...
- É um inglez, uma especie de doido?...
Ega encolheu os hombros. Um doido!... Sim, era essa a opinião da rua dos Fanqueiros; o indigena, vendo uma originalidade tão forte como a de Craft, não podia explical-a senão pela doidice. O Craft era um rapaz extraordinario!... Agora tinha elle chegado da Suecia, de passar tres mezes com os estudantes de Upsala. Estava tambem na Foz... Uma individualidade de primeira ordem!
- É um negociante do Porto, não é?
- Qual negociante do Porto! exclamou o Ega erguendo-se, franzindo a face, enojado de tanta ignorancia. O Craft é filho d'um clergiman da egreja ingleza do Porto. Foi um tio, um negociante de Calcutá ou d'Australia, um Nababo, que lhe deixou a fortuna. Uma grande fortuna. Mas não negoceia, nem sabe o que isso é. Dá largas ao séu temperamento byroneano, é o que faz. Tem viajado por todo o universo, collecciona obras d'arte, bateu-se como voluntario na Abyssinia e em Marrocos, emfim vive, vive na grande, na forte, na heroica accepção da palavra. É necessario conhecer o Craft. Vaes-te babar por elle... Tens razão, caramba, está calor.
Desembaraçou-se da opulenta pelliça, e appareceu em peitilho de camisa.
- O que! tu não trazias nada por baixo? exclamou Carlos. Nem collete?
- Não; então não a podia aguentar... Isto é para o effeito moral, para impressionar o indigena... Mas, não ha negal-o, é pesada!
E immediatamente voltou á sua idéa: apenas Craft chegasse do Porto relacionavam-se, organisava-se um Cenaculo, um Decameron d'arte e dilletantismo, rapazes e mulheres - tres ou quatro mulheres para cortarem, com a graça dos decotes, a severidade das philosophias...
Carlos ria-se d'esta idéa do Ega. Tres mulheres de gosto e de luxo, em Lisboa, para adornar um cenaculo! Lamentavel illusão de um homem de Celorico! O marquez de Souzella tinha tentado, e para uma vez só, uma cousa bem mais simples - um jantar no campo com actrizes. Pois fôra o escandalo mais engraçado e mais caracteristico: uma não tinha creada e queria levar comsigo para a festa uma tia e cinco filhos; outra temia que, acceitando, o brazileiro lhe tirasse a mezada; uma consentiu, mas o amante, quando soube, deu-lhe uma cóça. Esta não tinha vestido para ir; aquella pretendia que lhe garantissem uma libra; houve uma que se escandalisou com o convite como com um insulto. Depois, os chulos, os queridos, os pôlhos, complicaram medonhamente a questão; uns exigiam ser convidados, outros tentavam desmanchar a festa; houve partidos, fizeram-se intrigas, - emfim esta cousa banal, um jantar com actrizes, resultou em o Tarquinio do Gymnasio levar uma facada... - E aqui tens tu Lisboa.
- Emfim, exclamou o Ega, se não apparecerem mulheres, importam-se, que é em Portugal para tudo o recurso natural. Aqui importa-se tudo. Leis, idéas, philosophias, theorias, assumptos, estheticas, sciencias, estylo, industrias, modas, maneiras, pilherias, tudo nos vem em caixotes pelo paquete. A civilisação custa-nos carissima com os direitos da alfandega: e é em segunda mão, não foi feita para nós, fica-nos curta nas mangas... Nós julgamo-nos civilisados como os negros de S. Thomé se suppõem cavalheiros, se suppõem mesmo brancos, por usarem com a tanga uma casaca velha do patrão... Isto é uma choldra torpe. Onde puz eu a charuteira?
Desembaraçado da magestade que lhe dava a pelissa o antigo Ega reapparecia, perorando com os seus gestos aduncos de Mephistopheles em verve, lançando-se pela sala como se fosse voar ao vibrar as suas grandes phrases, n'uma lucta constante com o monocolo, que lhe caía do olho, que elle procurava pelo peito, pelos hombros, pelos rins, retorcendo-se, deslocando-se, como mordido por bichos. Carlos animava-se tambem, a fria sala aquecia; discutiam o Naturalismo, Gambetta, o Nihilismo; depois, com ferocidade e á uma, malharam sobre o paiz...
(continua...)
QUEIRÓS, Eça de. Os Maias. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=1792 . Acesso em: 30 jun. 2026.