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#Romances#Literatura Portuguesa

O Primo Basílio

Por Eça de Queirós (1878)

que viesse. Mas bem depressa aquele cismar começou a quebrar-se a cada momento como uma tela que se esgaça em rasgões largos, e por trás aparecia logo como uma intensidade luminosa e forte a idéia do primo Basílio.

As viagens, os mares atravessados tinham-no tornado mais trigueiro; a melancolia da separação dera-lhe cabelos brancos. Tinha sofrido por ela! - E no fim onde estava o mal? Ele jurara-lhe que aquele amor era casto, passando-se todo na alma. Tinha vindo de Paris, o pobre rapaz, assim lho jurara, a ver, uma semana, quinze dias. E havia de dizer-lhe: "Não voltes; vai-te"?

Quando a senhora quiser o chá... - disse da porta do quarto Juliana.

Luísa deu um suspiro alto como acordando. Não; que trouxesse a lamparina, mais tarde.

Eram dez horas. Juliana foi tomar o seu chá à cozinha. O lume ia-se apagando, o candeeiro de petróleo estendia nos cobres dos tachos reflexos avermelhados.

- Hoje houve coisa, Sra. Joana - disse Juliana sentando-se. - Está toda no ar! E é cada suspiro! Ali houve-a e grossa.

Joana, do outro lado, com os cotovelos na mesa e a face sobre os punhos, pestanejava de sono.

- A Sra. Juliana, também, deita tudo para o mal - disse.

- É que era necessário ser tola, Sra. Joana!

Calou-se, cheirou o açúcar; era um dos seus despeitos; gostava dele bem refinado - e aquele açúcar mascavado e grosso, que punha no chá um gosto de formigas, exasperava-a.

- Este é pior que o do mês passado! Para uma pobre de Cristo tudo é bom! - rosnou muitoamargamente.

E depois de uma pausa repetiu:

- É que era necessário ser tola, Sra. Joana!

A cozinheira disse preguiçosamente:

- Cada um sabe de si...

- E Deus de todos - suspirou Juliana.

E ficaram caladas.

Luísa tocou a campainha embaixo.

- Que teremos nós agora? Está com as cócegas.

Desceu. Voltou com o regador, muito enfastiada:

- Quer mais água! Olha a mania; pôs-se agora a chafurdar à meia-noite! Sempre a gente as vê...

Foi encher o regador, e enquanto a água da torneira cantava no fundo da lata:

- E diz que lhe faça amanhã ao almoço um bocado de presunto frito, do salgado. Quer picantes!

E com muito escárnio:

- Sempre a gente vê coisas! Quer picantes!

À meia-noite a casa estava adormecida e apagada. Fora, o céu enegrecera mais; relampejou, e um trovão seco estalou, rolou.

Luísa abriu os olhos estremunhada; começara a cair uma chuva grossa e sonora; a trovoada arrastava-se, ao longe. Esteve um momento escutando as goteiras que cantavam sobre o lajedo; a alcova abafava, descobriu-se; o sono tinha fugido, e de costas, o olhar fixo na vaga claridade que vinha de fora da lamparina, seguia o tique-taque do relógio. Espreguiçou-se, e uma certa idéia, uma certa visão foi-se formando no seu cérebro, completando-se tão nítida, quase tão visível, que se revirou na cama devagar, estirou os braços, lançou-os em roda do travesseiro, adiantando os beiços secos - para beijar uns cabelos negros onde reluziam fios brancos.

Sebastião tinha dormido mal. Acordou às seis horas e desceu ao quintal em chinelas. Uma porta envidraçada da sala de jantar abria para um terraçozinho, largo apenas para três cadeiras de ferro pintado e alguns vasos de cravos; dali, quatro degraus de pedra desciam para o quintal; era uma horta ajardinada, muito cheia, com canteirinhos de flores, saladas muito regadas, pés de roseiras junto dos muros, um poço e um tanque debaixo de uma parreirita, e árvores; terminava por um outro terraço assombreado de uma tília, com um parapeito para uma rua baixa e solitária; defronte corria um muro de quintal muito caiado. Era um sitio recolhido, de uma paz aldeã. Muitas vezes Sebastião, de madrugada, ia para ali fumar o seu cigarro.

Era uma manhã deliciosa. Havia um ar transparente e fino; o céu arredondava-se a uma grande altura com o azulado de certas porcelanas e, aqui e além, uma nuvenzinha algodoada, molemente enrolada, cor de leite; a folhagem tinha verde lavado a água do tanque uma cristalinidade fria; pássaros chilreavam de leve com vôos rápidos.

Sebastião estava debruçado para a rua, quando a ponteira de uma bengala, passos vagarosos cortaram o silêncio fresco. Era um vizinho de Jorge, o Cunha Rosado, o doente de intestinos; arrastava-se, curvado, abafado num cachenê e num paletó cor de pinhão, com a barba grisalha desmazelada, a crescer.

- Já a pé vizinho! - disse Sebastião.

O outro parou, ergueu a cabeça lentamente.

- Oh, Sebastião! - disse com uma voz plangente. - Ando a passear os meus leites, homem!

- A pé?

- Ao princípio ia na burrita até fora de portas, mas diz que me fazia bem o passeiozito a pé...

Encolheu os ombros com um gesto triste de dúvida, de desconsolação.

- E como vai isso? - perguntou Sebastião, muito debruçado para a rua, com afeto.

O Cunha teve um sorriso desolado nos seus beiços brancos:

(continua...)

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