Por Eça de Queirós (1870)
No dia seguinte chegámos a Malta. Era de noite, não havia es trelas. A água da baía estava imóvel e negra. Via-se defronte La Valeta, elevada como uma colina, altiva como umcastelo, pes pontada de luzes. Em redor do paquete as gôndolas corriam silen ciosamente tendo à popa, esguia e alta, uma lanterna pendente. Havia um grande silêncio, umasuavidade inefável. Os gondoleiros remavam calados. Aquilo era doce e regular. Sentia-se o mistério italiano e a polida inglesa.
Desembarcámos: fomos para Clarence-Hotel, na Strada-Reale, defronte da célebreIgreja de S. João. Rytmel hospedou-se em casa dos oficiais ingleses. D. Nicazio e Cármen vieram para Clarence-Hotel, também. Os três primeiros dias em Malta foram ocupados em percorrer os monumentos: o palácio dos grão-mes tres, os palácios chamados Estalagens, eque eram pertencentes às diferentes nacionalidades da ordem, as grandes ruas brancas, com elevadas e altivas casas no gosto da Renascença, e os arredores de Malta, Civita-Vecchia,Bengama, Boschetto, e a ilha de Calipso, que tem tantos encantos em Homem e que é um rochedo húmido, cheio de cavernas tenebrosas. Desde o primeiro dia, Rytmel e al guns oficiais iam jantar a Clarence-Hotel. A condessa comia sempre nos seus quartos. O ruído, apetulância da mesa, era Cármen. Deixara-se logo seguir sempre por um rapaz francês, espirituoso e ligeiro, louro e ardente, um Mr. Perny, viajante por tédio, dizia ele.Cármen não se aproximava de Rytmel. Havia entre eles como uma separação combinada e discreta. Rytmel, pelo contrário, não se afastava de nós em todas as excursões ao campo, às fortificações, à baía; todas as noites nos acompanhava ao teatro. O conde tinhaficado logo cativado das grandes tranças louras de uma rapariga que nós víamos sempre na 1-a ordem do teatro, com a tez inglesa e os olhos malteses, de uma frescura de miss emovimentos de an daluza, e que era uma radiosa Mademoiselle Rize, dançarina em disponibilidade. De resto, o conde não podia separar-se de Rytmel.
Ali, em Malta, os movimentos da condessa e do oficial não es tavam tanto sob odomínio da minha vista. Eu, às vezes, não via a condessa um dia, dois dias, absorto na companhia de alguns ofi ciais ingleses, em passeios no mar, no campo, em ceias e no jogo.Compreendia, porém, que aquela paixão da condessa a dominava absolutamente. Rytmel parecia-me também perdidamente namo rado.
Não lhe quero dizer, senhor redactor, os raciocínios interiores, que me determinaram aser indiferente àquela situação. Compreenderá claramente os motivos por que resolvi não saber, não olhar, não perceber, isolar-me numa discrição completa e de licada.Pouco tempo depois de chegarmos a Malta, tínhamo-nos rela cionado com Lorde Grenley, que estava ali passando o Inverno e curando os seus blue devils. Tinha vindo de Inglaterra num lindo iate, chamado The Romantiç que nós víamos todos os dias na baía bordejar, fazendo reluzir ao sol os seus cobres polidos e o seu esbel to costado branco. Lorde Grenley ligara-se muito com o conde. Era também o Intimo de Rytmel.
Cármen tinha-se encontrado pouco com a condessa, a não ser no teatro, onde a crivavade olhares impertinentes, em plena e al tiva indiferença da condessa. Cármen, irritada, não vivendo nas relações de ladies, não a encontrando, como nos sete metros do tombadilho do paquete, sob a acção dos seus largos gestos e das suas ásperas ironias, desforrava-se à mesade Clarence-Hotel, envolvendo indirectamente Rytmel em toda a sorte de alusões e de palavras cáusticas. A sua última táctica era instigar sempre Mr. Perny contra o oficial,arremessá-lo contra todas as ideias, todas as opiniões de Rytmel; não sei se com a esperança perversa de um duelo, se apenas pelo gosto de o ver contrariado...
Um dia falava-se da Índia. Rytmel dizia a transformação fe cunda que a Inglaterra lhetinha feito. Uma grande risada inter rompeu-o. Era Perny.
— Ri-se? — disse Rytmel, levemente pálido.- Rio-me? Estalo de riso, tenho apoplexias de riso. Que transformação fecunda fez aInglaterra à Índia? A transformação da poesia, da imaginação, do sol, numa coisa chata, trivial e cheia de carvão. Eu estive na Índia, meus senhores. Sabem o que fizeram ostransformadores ingleses? A tradução da Índia, poema misterioso, na prosa mercantil do Morning Post Na sombra dos pagodes põem fardos de pimenta; tratam a grande raça índia,mãe do ideal, como cães irlandeses; fazem navegar no divino Ganges paquetes a três xelins por cabeça; fazem beber às bayaderas, pale ale, e ensinam-lhes o jogo do cricket; abrem squares a gás na floresta sa grada; e, sobre tudo isto, meus senhores, destronam antigos reis,misteriosos, e quase de marfim, e substituem-nos por sujeitos de suíças, crivados de dívidas, rubros de porter, que quando não vão ser forçados em Botany-Bay, vão ser governadores da Índia! E quem faz tudo isto? Uma ilha feita metade de gelo e metade de ros-beef habitadapor piratas de colarinhos altos, odres de cerveja!
(continua...)
QUEIRÓS, Eça de; ORTIGÃO, Ramalho. O Mistério da Estrada de Sintra. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=14021 . Acesso em: 30 jun. 2026.