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#Romances#Literatura Portuguesa

A Cidade e as Serras

Por Eça de Queirós (1901)

-Vê tu, Zé Fernandes, que facilidade!... Saímos do 202, chegamos à serra, encontramos o 202. Não há senão Paris!

Recomeçara a amar a Cidade, o meu Príncipe, enquanto preparava o seu êxodo. Depois de Ter, toda a manhã, apressado os encaixotadores, descortinado confortos novos para o abandonado solar, telefonado gordas listas de encomendas a cada loja de Paris – era com delícia que se vestia, se perfumava, se floria, se enterrava na vitória ou saltava para a almofada do fáeton, e corria ao bosque, e saudava a barba talmúdica do Efraim, e os bandós furiosamente negros de Vergame, e o Psicólogo de fiacre, e a condessa de Trèves na sua nova caleche de oito molas fornecida pelas operações conjuntas da Bolsa e da alcova. Depois arrebanhava amigos para jantares de surpresa no Voisin ou no Bignon, onde desdobrava o guardanapo com a impaciência duma fome alegre, vigiando fervorosamente que os Bordpeus estivessem bem aquecidos e os Champanhes bem granitados. E no teatro das Nouveautés, no Palais Royal, nos Buffos, ria batendo na coxa, com encanecidas facécias de encanecidas farsas, antiquíssimos atores, com que já rira na sua infância, antes da guerra, sob o segundo Napoleão.

De novo, em duas semanas, se abarrotaram as páginas da sua Agenda. A magnificência do seu traje, como imperador Frederico II de Suábia, deslumbrou, no baile mascarado da Princesa de Cravon-Rogan (onde também fui, de “moço de forcado”). E na Associação para o Desenvolvimento das Religiões Esotéricas discursou e batalhou bravamente pela construção dum Templo Budista de Montmartre!

Com espanto meu recomeçou também a conversar, como nos tempos de Escola, da “famosa Civilização nas suas máximas proporções”. Mandou encaixotar o seu velho telescópio para o usar em Tormes. Receei mesmo que no seu espírito germinasse a idéia de criar, no cimo da serra, uma Cidade com todos os seus órgãos. Pelo mesmo não consentia o meu Jacinto que essas semanas da silvestre Tormes interrompessem a ilimitada acumulação das noções – porque uma manhã rompeu pelo meu quarto, desolado, gritando que entre tantos confortos e formas de Civilização esquecêramos os livros! Assim era – e que vexame para a nossa Intelectualidade! Mas que livros escolher entre os facundos milhares sob que vergava o 202? O meu Príncipe decidiu logo dedicar os seus serranos ao estudo da História Natural - e nós mesmos, imediatamente, deitamos para o fundo dum vasto caixote novo, como lastro, os vinte e cinco tomos de Plínio. Despejamos depois para dentro, às braçadas, Geologia, Mineralogia, Botânica... Espalhamos pôr cima uma camada aérea de Astronomia. E, para fixar bem no caixote estas ciências oscilantes, entalamos em redor cunhas de Metafísica.

Mas quando a derradeira caixa, pregada e cintada de ferro, saiu do portão do 202 na derradeira carroça da Companhia dos Transportes, toda esta animação de Jacinto se abateu como a efervescência num copo de Champanhe. Era em meados já tépidos de Março. E de novo os seus desagradáveis bocejos atroaram o 202 e todos os sofás rangeram sob o peso do corpo que lhe atirava para cima, mortalmente vencido pela fartura e pelo tédio, num desejo de repouso eterno, bem envolto de solidão e silêncio. Desesperei. O quê! Aturaria eu ainda aquele Príncipe palpando amargamente a caveira, e, quando o crepúsculo entristecia a Biblioteca, aludindo, num tom rouco, à doçura das mortes rápidas pela violência misericordiosa do ácido cianídrico? Ah não, caramba! E uma tarde em que o encontrei estirado sobre um divã, de braços em cruz, como se fosse a sua estátua de mármore sobre o seu jazigo de granito, positivamente o abanei com furor, berrando:

-Acorda, homem! Vamos para Tormes! O casarão deve estar pronto, a reluzir, a abarrotar de coisas! Os ossos de teus avós pedem repouso em cova sua!... A caminho, a enterrar esses mortos, e a vivermos nós, os vivos!... Irra!

São cinco de Abril!... é o bom tempo da serra!

O meu Príncipe ressurgiu lentamente da inércia de pedra:

-O Silvério não me escreveu, nunca me escreveu... Mas, com efeito, deve estar tudo preparado... Já lá certamente criados, o cozinheiro de Lisboa... eu só levo o Grilo, e o Anatole que enverniza bem o calçado, e tem jeito como pedicuro... Hoje é Domingo.

Atirou os pés para o tapete, com heroísmo:

-Bem, partimos no Sábado!... Avisa tu o Silvério!

(continua...)

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