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#Romances#Literatura Brasileira

Recordações do Escrivão Isaías Caminha

Por Lima Barreto (1909)

Todos se viraram e imediatamente apanharam no ar uma fisionomia sorridente repassada de admiração. Voltei-me também. Descobri logo quem era. Os retratos, espalhados pelos quatro cantos do Brasil, tinham tornado familiar aquela fisionomia; mas, de perto, ali a dois passos de mim, o seu olhar fixo, atras de fortes lentes, a testa baixa e fugidia, quase me fizeram duvidar que fosse aquele o Veiga Filho, o grande romancista de luxuoso vocabulário, o fecundo conteur, o enfático escritor a quem eu me tinha habituado a admirar desde os quatorze anos... Era aquele o homem extraordinário que a gente tinha que ler com um dicionário na mão? Era aquela a forte cerebração literária que escrevia dois volumes e três volumes por ano e cuja glória repousava sobre uma biblioteca inteira? Fiquei pasmado. Com aquele frontal estreito, com aquele olhar de desvairado, com aquela fisionomia fechada, balda de simpatia, apareceu-me sem mobilidade, sem ductibilidade, rígido, sinistro e limitado. Acresce que o branco da sua tez soava falso, e do seu espirito julguei logo, vendo o esforço que punha a escova na testa para ganhar diariamente terreno no cabelo! Foi uma má impressão que se desfez mais tarde.

— Veiga, disse Floc depois dos cumprimentos, gostei muito da tua conferência. Foi uma epopéia, uma ode triunfal ao grande corso!

— Houve pedacinhos lindos, intrometeu-se o Oliveira. Quando, por exemplo, o doutor falou naquele inglês lá da ilha que tinha feito sofrer “o último grande homem da nossa espécie”, foi como se eu tivesse visto o próprio Napoleão — grande, alto, com aquele cavanhaque.

— Napoleão era baixo e não tinha barba, disse alguém.

— É um modo de dizer, quero falar na figura, na... Era extraordinário mesmo! E a gente, continuou Oliveira, e a gente fica admirado que um homem desses tenha sido cercado, acuado em Sedan!

— Em Waterloo, é que você quer dizer...

— Em Waterloo! Não foi em Sedan? O Zola, na Derrocada... Eu li!

— Ah! Isto é Napoleão III, acudiu Floc.

— É VERDADE! Fez o Oliveira. Que confusão!

Veiga Filho passeava a olhar pela sala, distraído, sem dar grande atenção ao Oliveira. Digeriu o seu triunfo e só saiu dessa digestão difícil, quando Floc lhe disse:

— E quanta gente! Muitas senhoras... moças, gente fina... Estavam as Wallesteins, as Bostocks, as Clarks Walkovers... Podes-te gabar que tens o melhor auditório feminino da cidade... Nem o Bilac.

Por ai os seus olhos tiveram uma grande e forte expressão de triunfo. Disfarçou com um movimento de modéstia e perguntou:

— Já deste a notícia?

— Ainda não; não tenho tempo... Vou ao banquete do ministro e...

— Quando a vais fazer?

— Hoje não posso, vou ao banquete; mas o Leporace podia dar... Leporace (gritou para o secretário), escreve a noticia da conferência do Veiga!

— Não tenho tempo, objetou o fanhoso secretário, aproximando-se do grupo.

Durante minutos estiveram discutindo quem devia dar ou não a noticia, sem chegar a um acordo. Leporace, então, lembrou que o próprio Veiga a fizesse:

— Estás doido! objetou o romancista. Não viste o que aconteceu da outra vez? Que diriam?

— Ora! Que tolice! Como se houvesse alguém que acreditasse no murmúrio desses literatecos... Umas bestas, uns vagabundos; escreve, anda!

A sua natureza de boa fé complacente fê-lo aceder.

Eu demorei-me ainda muito e pude ouvi-lo ler a noticia. Começou dizendo que era impossível resumir uma conferência de um artista como Veiga Filho. Para ele, as palavras eram a própria substancia de sua arte. Dizer em alguns períodos o que ele dissera em hora e meia, era querer mostrar a beleza do fundo do mar com uma gota d'água trazida de lá (não citou o autor). Em seguida, a grande glória das letras partias mostrou como tinha começado: citou Nietzsche, de quem, hoje, entre nós, Veiga Filho e um dos mais profundos conhecedores e a cuja filosofia a sua inspiração obedece. Começou com o Zaratustra: o homem é uma ponte entre o animal e o super-homem. Daí partiu seguindo o grande corso na passagem desta ponte. Serviu-se dos mais modernos historiadores: Masson, Albert Sorel, Lord Rosebery. Descreveu a batalha de Austerlitz, contou a campanha da Rússia e a passagem do Berezina foi motivo para uma descrição das mais artísticas que até agora se fez na nossa língua. Pelo auditório, quando ele mostrou aqueles milhares de homens, caindo ao rio gelado, amontoando-se uns sobre os outros, debatendo-se, lutando sob uma chuva de metralha, correu um frisson de terror. Contestou teorias de Tólstoi, pôs finas notações aos ataques feitos a Napoleão e ao estudo de seu gênio por Lombroso. Patenteou uma grande erudição e conhecimentos não suspeitados; e, quando a sua palavra colorida descreveu os suplícios desse titã roído pelo enfado, houve na sala um soluço.

Foi um duplo triunfo, terminava assim a noticia, de Veiga Filho e de Napoleão, o último grande homem que a nossa espécie viu, cuja grandeza e cujos triunfos aquele grande artista soube pintar e descrever, jogando com as palavras como um malabarista hábil faz com as suas bolas multicolores. Raro e fugace gozo foi essa conferência do eminente cultor das letras pátrias.

(continua...)

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