Por Coelho Neto (1906)
— Isto é que é... Já me lembrei de a deixar à janela, por dentro, com um barbante para se puxar.
— Ou embaixo da porta, lembrou.
— Sim, é melhor. Pois fica assim: deixo embaixo da porta, do lado esquerdo.
— Bem. Até logo.
— Até logo. E Deus te acompanhe.
Paulo saiu com ânsia de chegar à casa de penhores, para conhecer o valor da velha jóia. Dona Júlia foi à cozinha. Felícia estava no quintal, lavando, ao sol, com o cachimbo nos beiços. Chamou-a. A negra levantou o busto, passando as mãos pelos braços, a raspar a espuma que os cobria, e caminhou para a velha, que se encostara a um dos alizares da porta:
— Estou com vontade de ir hoje, Felícia. Pode ser?
— Como não? Mas minh'ama falou a nhonhô?
— Falei.
— Dizendo que ia lá? — exclamou alarmada.
— Estás doida!
— Ahn... E vosmecê há de ver como se descobre tudo. — A fisionomia da negra iluminou-se. — Vosmecê já devia ter ido.
— Não acredito nessas coisas.
— Por que, minh'ama? Então vosmecê não acredita nas almas?
— Não sei. Depois, tenho tanto medo... Tanta gente tem endoidecido por causa dessas histórias.
— Ora o quê, minh'ama!
— Ora o quê?!
— Pois eu sei de muitas pessoas que ficaram sofrendo depois que se meteram com o espiritismo. Enfim, seja o que Deus quiser. Como não faço mal a ninguém, nem vou com más intenções... A que horas começa?
— Às sete e meia. A gente saindo daqui às sete, chega lá com tempo. — Pois sim.
CAPÍTULO X
Era noite fechada. Na sombra vasta do mar fogos piscavam e, longe, fulgiam as luzes litorâneas de Niterói, como pedras de um adereço em escrínio. Dona Júlia, enquanto a negra fechava portas e janelas, com os cotovelos na cômoda, a face inclinada sobre as mãos postas, rezava. Quando Felícia apareceu, traçando o xale, persignou-se e soprou a lamparina. A luz de um fósforo, foram as duas seguindo vagarosamente pelo corredor escuro.
O céu estava negro e pesado e um vento frio soprava do mar. Felícia fechou a porta e, cautelosamente, raspando a soleira, escondeu a chave no lugar convencionado.
— Vamos, minh'ama.
Foram caminhando. A negra ia orgulhosa da conquista que fizera, já imaginando as perguntas com que a haviam de assaltar no Centro, quando a vissem entrar com uma senhora respeitável. Sentia-se superior com aquela glória de iniciadora e, sôfrega, bem que Dona Júlia não pudesse sair do passo vagaroso, apressava-a: "Que já era tarde. Podiam encontrar a sessão no meio". E a velha, de cabeça baixa, sondando o terreno com o guarda-chuva, lá ia.
— Mais devagar, Felícia; eu não vejo bem e a noite está tão escura. Não há um bonde para lá? Eu a pé não agüento.
— Há bonde, sim senhora: ali no largo.
— Sim, porque eu já não sei andar; depois com a falta de vista, está sempre me parecendo que vou cair num buraco. — De repente, como ia pensando na sessão, cochichou: Não vá aparecer por lá algum conhecido. Deus me livre que Paulo saiba que ando metida nessas coisas.
— Não tenha medo, minh'ama: eu conheço todo o mundo que vai lá.
No Largo da Lapa, diante dos tílburis estacionados junto à igreja, Dona Júlia teve um sobressalto, aconchegando-se à Felícia.
— Não vá um desses cavalos disparar, rapariga.
— Não tem perigo, minh'ama. Que medo de vosmecê. Vamos por aqui.
Mas um bonde partia, e a negra, esquecendo a senhora, precipitou-se, a correr, com o xale a espadanar, aos psius! A velha fez um esforço supremo e foi levando o pesado corpo aos rebolos, arquejando e, ao alcançar o bonde, com as pernas trêmulas, ofegante, agarrou-se aos balaústres, guindando-se.
— Você foi correr, Felícia... sabendo que eu não posso — repreendeu esbaforida. — Estou aqui pondo a alma pela boca.
O bonde partiu.
A velha encolhia-se, receosa; mal olhava para os lados, indiferente às casas que fulguravam, profusamente iluminadas, com refletores radiantes; às músicas, que ressoavam em tarambotes; à multidão que formigava às portas dos chopes, como nuvens de mariposas em torno de claridades. Aterrava-a a idéia de um encontro com o filho e, quando a negra mandou parar o bonde em frente ao teatro São Pedro, teve um choque e perguntou baixinho:
— É aqui?
— É ali adiante.
Atravessaram a praça em direção à Travessa da Barreira. Na esquina, junto a um quiosque, marinheiros chalravam. Entraram em uma viela escura e, diante duma porta estreita, Felícia deteve-se segredando com mistério:
— É aqui, minh'ama...
Dona Júlia sentiu um grande abalo, as pernas curvaram-se-lhe e, hesitante, lançando os olhos pela comprida escada, sussurrou:
— Não sei que é, Felícia... mas estou com medo.
(continua...)
COELHO NETO, Henrique Maximiano. O Turbilhão. 1906. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16596 . Acesso em: 7 abr. 2026.