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#Romances#Literatura Brasileira

Bom-Crioulo

Por Adolfo Caminha (1895)

Tinha momentos de calma, procurando afastar do espírito qualquer idéia de vingança, de desforra, como quem se julga superior às pequeninas misérias da vida. Durante o dia jogava a dama com o tal empregado que lhe fizera o bilhete, resignado, sem cólera, prazenteiro mesmo, não perdendo, entretanto, aquela vaga expressão de melancolia que boiava em seus olhos traindo mistérios d’alma...

Era à noite, porém, que o caso de Aleixo voltava-lhe à imaginação, enchendoa de fantasmas, povoando-a de sonhos, com a insistência de um remorso —à noite, nas horas de repouso, quando tudo era silêncio no hospital.

Positivamente não se conformava com a idéia de que o Aleixo o abandonara por outro... E quem seria esse outro? Algum marinheiro também, decerto, algum “primeira-classe”... Era muita ingratidão, muita baixeza! Abandoná-lo, por quê? Porque era negro, porque fora escravo? Tão bom era ele quanto o imperador!...

Consumia-se em reflexões pueris, verberando o procedimento de Aleixo, uivando pragas que ninguém escutava, dardejando cóleras, tempestuoso e medonho na sua mudez alucinada. Eram noites e noites de um sonambulismo fantástico e enervante, de uma obsessão rude e esmagadora. E quando, pela madrugada, vinha-lhe o sono, era impossível dormir, porque vinham-lhe também o que ele chamava “as coceiras”, um horroroso prurido na pele, no corpo todo, como se o sangue fosse esguichar pelos poros numa hemorragia formidável ou como se estivesse crivado de alfinetes da cabeça aos pés; — não podia fechar os olhos, nem tranqüilizar o espírito. Seu desejo era sair como um doído por ali fora, meter-se num banho e ficar n’água um ror de tempo agachado, nu em pêlo. Parecia uma maldição! Rebentavam-lhe feridas: havia uma grande aberta no joelho esquerdo. Não atinava com aquilo. Talvez alguma praga injusta... Era horroroso! Levar um homem a noite inteira sem dormir, pensando numa cousa, noutra, e, ainda por cima, o diabo de umas coceiras que punham a gente doida!

Então é que tinha raiva de Aleixo, então é que se revoltava contra o grumete, o “causador de todos os seus males”. Naquele estado aflitivo de desespero de corpo e d’alma ia-se-lhe a razão — Bom-Crioulo só tinha uma idéia: vingar-se do efebo, persegui-lo até a morte, aniquilá-lo para sempre!

Era um misto de ódio, de amor e de ciúme, o que ele experimentava nesses momentos. Longe de apagar-se o desejo de tornar a possuir o grumete, esse desejo aumentava em seu coração ferido pelo desprezo do rapazinho. Aleixo era uma terra perdida que ele devia reconquistar fosse como fosse; ninguém tinha o direito de lhe roubar aquela amizade, aquele tesouro de gozos, aquela torre de marfim construída pelas suas próprias mãos. Aleixo era seu, pertencia-lhe de direito, como uma cousa inviolável. Daí também o ódio ao grumete, um ódio surdo, mastigado, brutal como as cóleras de Otelo...

Aleixo com outro homem! Esta idéia fazia-o enlouquecer de ciúme, torturava-o como um sofrimento agudo, como uma chaga viva e dolorosa.

Que felicidade, que alívio, que suprema ventura, quando pela manhã, já dia claro, o sol, tépido e loução, entrava cheio de mistério pela enfermaria dentro, e recomeçava em todo o hospital a bela vida!...

Foi justamente numa dessas noites e obsessão e desespero que Bom-Crioulo galgou a muralha do estabelecimento e abalou vertiginoso para a Rua da Misericórdia, cego, às tontas, como quem vai precipitar-se num abismo.

Era um sábado feriado. Entre os marinheiros que tinham ido ao hospital visitar os amigos, Bom-Crioulo reconhecera o Pinga da corveta, seu companheiro de viagem outrora — o Pinga, o Herculano, que fora surpreendido a praticar uma ação feia e deprimente do caráter humano, junto à amurada, na proa, certa noite...

— Ó Herculano, vem cá!

— Oh! Bom-Crioulo!

— Então, que é feito de ti? perguntou o negro, interessado, conduzindo o outro pelo braço. Onde é que estás agora?

Herculano estava mudado, já não era o mesmo Pinga retraído e esquivo, com olheiras, falando pausadamente. Estava outro, admiravelmente outro, O Herculano — gordo, rosado, o olhar vivo e brilhante, sem melancolia, nem sombra alguma de tristeza. Perdera a antiga palidez que lhe dava um arzinho pulha de cousa à-toa, falava desempenado, alto, e ria, como uma criança, por ninharias. — “Onde estava agora? Na corveta, sempre na corveta.”

— Ainda? fez Bom-Crioulo admirado, ocultando a satisfação que lhe fazia a resposta. Ainda estás na corveta, homem de Deus?

— Por que não? Aquilo é que é navio. Depois que saiu do dique, nem parece a mesma. Faz gosto vê-la. Toda pintadinha, toda nova, que é ver uma tetéia.

— Mas, como é que se muda assim, rapaz? Tu, que eras tão pobre de sangue, estás me parecendo bonito, homem!

— Qual o quê! sorriu Herculano. Já estive mais gordo...

Ia reparando em Bom-Crioulo. Como estava acabado o negro! Viam-se-lhe os ossos da cara; tinha uma grande cicatriz, uma espécie de ruga funda no pescoço...

— Estás doente? perguntou.

(continua...)

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