Por Aluísio Azevedo (1880)
O visconde em ruínas, esse, coitado! é que não desistia, nem era preterido; barreira firme, rochedo inalterável, recebia impassível e com verdadeira coragem, digna da nobreza de sua ilustre raça, os embates tempestuosos daquele pélago de lama. Coitado! a desonra lhe seja leve!...
E neste estado deplorável de coisas decorria o tempo, sem outro fato de notar, além do que se vai seguir.
CAPÍTULO XIII
Ia uma dessas noites quentes de verão, em que a natureza parece adormecida aos beijos ardentes do sol; em que as águas dos lagos são mornas como a brisa, que acaricia os pícaros abrasados das montanhas, e a lua se ergue vermelha, como uma chaga viva.
Uma dessa formosas noites napolitanas, em que tudo se converte em volúpia e cansaço, em que se derretem os corações e volatizam-se os beijos para vagarem pelo espaço, como um bando de mariposas sensuais.
Noite de sonhos ardentes e dores indefinidas! noite feliz para o mancebo e perigosa para a donzela!...
As mulheres estremecem ao tato dos amantes e as criancinhas torcem-se no berço, acometidas de precoce irritabilidade; o olhar transforma-se em boca que beija; o hálito em palavra que excita; a palavra em corpo que morde, afaga, queima e estreita.
Abraçam-se nos montes os pinheiros e os ciprestes nos cemitérios; entrelaçam-se flores no campo; amam-se feras nos covis; nos ares os passarinhos e os reptis no charco.
A natureza toda transforma-se numa mulher de trinta anos, de carnes brancas e palpitantes, sofre nessa noite da nevrose, tem ataques histéricos, estrebucha, grita, contorce-se e solta, de vez em quando, suspiros prolongados e gemidos voluptuosos.
E quando, pela volta da madrugada, à brisa fresca e cor-de-rosa da manhã, adormecem os membros frouxos e fatigados, levanta-se da terra um murmúrio suave e trêmulo para o céu; é a música dos beijos!
CAPÍTULO XIV
A alcova de Rosalina recendia a amor. O amor tem o seu perfume especial que se aspira pelo coração; esse perfume, à semelhança dos do Oriente, quando não mata, embriaga, mas sempre encanta.
A bela italiana, perseguida pelo calor da noite, refugiara-se sozinha no seu ninho, como a lebre que foge ao caçador, e arremessando negligentemente as roupas para o chão, envolvera-se nas cambraias do leito, rolando de um para outro lado, como uma serpente.
Extenuada, caíra a moça nessa prostação mofina que precede o sono, e só de vez em quando dava acordo de si para refrigerar-se com um gole de orchata, que à cabeceira do leito estava preparada num copo de cristal. Isto feito, recaía no mesmo entorpecimento, com as pálpebras pesadas e os olhos descerrados pelo calor; mais parecia uma bela produção artística do que uma realidade. Quando quieta, difícil seria de dizer o que mais era, se uma estátua animada, se uma mulher de mármore.
Súbito, assomou na janela uma cabeça, depois um busto, e finalmente um homem, vestido de blusa, pulou na sala com a ligeireza de um gato.
O barulho fez Rosalina voltar-se e soltar um grito que queria dizer:
— Miguel!...
O recém-chegado parou, levando aos lábios o dedo em sinal de silêncio; ela respondeu a esse sinal com um outro que o intimava a aproximar-se.
O artista obedeceu, encaminhando-se sombriamente para o leito.
— És livre agora?!... disse, caindo de joelhos aos pés.
A moça não respondeu e sorriu.
— Fala, meu anjo!... não percamos tempo, dize-me se és já livre os se...
— Ouve! interrompeu Rosalina, fingindo dificuldade no falar. Ouve. Desde que morreu meu pai, uma fraqueza doentia me tem de tal modo perseguido, que me suponho irremediavelmente perdida; posso dizer que tenho vivido neste leito, donde não conto levantar-me com vida.
— Uma viagem te restabelecerá totalmente, disse Miguel inquieto.
— Ah! suspirou Rosalina. Uma viagem!... É porque não sabes, meu bom amigo, que, com a morte de meu pai, ficamos na extrema miséria, que ele, coitado! passou uma vida de opulência, superior ao que possuía, e morreu de tal modo endividado, que não nos será fácil a nós salvar honradamente seu nome, e a mim continuar a viver sem a difamante proteção de algum estranho! Bem fiz por salvar a situação, e confesso que me supunha mais forte e generosa, de que realmente sou!
E Rosalina começou a tossir, oprimindo o peito com as mãos.
— E eu, continuou a suposta doente, com a voz cada vez mais trêmula, fazia-me forte, aceitando a proposta salvadora e tremenda de um velho rico e doente, que se propunha resgatar o nome de meu pai, casando comigo. Era um futuro triste, porém, honesto. Cedi, Miguel, cheia de esperança e resignação, porém depois de medir bem o sacrifício não tive ânimo para arrostá-lo. Urgia contudo tomar uma deliberação qualquer; o tempo passava e o dia do leilão da casa e dos móveis não tarda a anunciar-se. O momento fatal chegou!... Amanhã tenho de entregar tudo, tudo! e serei...
(continua...)
AZEVEDO, Aluísio Azevedo. Uma lágrima de mulher. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16538 . Acesso em: 25 mar. 2026.