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#Romances#Literatura Brasileira

O Mulato

Por Aluísio Azevedo (1881)

— Anda lá, sonsinha? Não sabes outra coisa!...

E, enquanto Ana Rosa parecia muito ocupada em raspar com a unha uns pingos de cera velha, espalhados pela madeira da cômoda, continuou o negociante:

— Mas por que não me falaste com franqueza há mais tempo, sua caprichosa, fazendo o pobre rapaz supor que o não querias?...

Ana Rosa ficou seria. O pai acrescentou:

— A fazê-lo, coitado! andar por ai tão derreado, que até metia dó!...

— Como?!

— Pois então não sabes como andava o nosso Dias?... — O Dias?! interrogou Ana Rosa empalidecendo.

E fez-se muda, a cismar; só despertou, com estas palavras:

— Ora senhores!... Tem graça!

—Tem graça, não senhora! vossemecê disse que o aceitava para marido!

Que diabo quer dizer agora esta mudança?... Ah, que temos mouros na costa! .. Bem me dizia o compadre!...

— Não sei o que lhe disse o padrinho, mas o que eu lhe digo, papai, é que definitivamente não me casarei com o Dias. Nunca, percebe?

— Mas, tu, se já não o queres, e porque tens outro de olho!...

— Não sei não senhor...

E abaixou os olhos.

— Bem! vê lá! Isto já me vai cheirando mal!... Ora dizes uma coisa; ora dizes outra!.. O mês passado respondeste-me na varanda: “Pode ser” e agora, às duas por três, dizes que não! Sabes que só quero a tua felicidade... não te contrario.. mas tu também não deves abusar!...

— Mas, gentes, o que foi que eu fiz?...

— Não estou dizendo que fizesses alguma coisa!... Só te aviso que prestes toda a atenção na tua escolha de noivo!.. Nem quero imaginar que seda capaz de escolher uma pessoa indigna de ti!...

— Mas, como, papai?... Fale claro!

— Isto vai a quem toca! Não sei se me entendes!...

— Ora, seu Manuel! exclamou Maria Bárbara, levantando-se e pousando no chão o enorme cachimbo de taquari do Pará Você às vezes tem lembranças que parecem esquecimento! Pois então, uma menina, que eu eduquei, ia olhar...— E gritou com mais forca — para quem, seu Manuel!?

— Bem, bem...

— Vejam se não é mesmo vontade de provocar uma criatura!...

— Bem, bem! Eu não digo isto para ofender!... desculpou-se o negociante.

Mas é que temos cá um rapaz bem-aparecido, que...

— Um cabra! berrou a sogra. E era muito bem feito que acontecesse qualquer coisa, para você ter mais cuidado no futuro com as suas hospedagens! Também só nessa cabeça entrava a maluqueira de andar metendo em casa crioulos cheios de fumaças! Hoje todos eles são assim! Súcia de apistolados! Dá-se-lhes o pé e tomam a mão! Corja! Julgue-se mas é muito feliz em não lhe ter recebido o coice! porém fique você sabendo que só a mim o deve! — sei a educação que dei a minha neta!... por esta respondo eu!.. E, quanto ao cabra... é tratar de despachá-lo já, e já, se não quiser ao depois ter de pegar-se com trapos quentes!...

— Pois bem, pois bem, senhora! Amanhã mesmo tratarei disso! Oh!

E Manuel pensou logo em aconselhar-se com o cônego. Ana Rosa continha o choro.

— Vou para meu quarto! disse ela, com mau modo.

— Ouça!... opôs-lhe o pai, detendo-a. A senhora...

— Não diga asneiras!... atalhou a velha, empurrando a neta para fora. Vai-te! e reza à Virgem Santíssima para que te proteja e te dê juízo!

Ana Rosa fechou-se, no seu quarto, rezou muito, não quis tomar chá, e soluçou até às quatro horas da manhã.

No dia seguinte, Manuel, depois de entender-se com o compadre, preveniu a Raimundo que se preparasse para ir ao Rosário.

— Estou às suas ordens, mas o senhor tinha dito que iríamos no mês de agosto.

— É certo! porem o tempo está seco e para a semana temos lua cheia.

Podemos ir no sábado Convém-lhe?

— Como quiser. estou pronto.

E, daí a pouco, Raimundo foi ao quarto verificar se os seus pertences de viagens, a borracha de aguardente, as botas de montar, as esporas e o chicote, achavam-se em bom estado de servir. Estranhou encontrar tudo isso mexido e remexido de muito fresco, como se alguém houvera se servido daqueles objetos Já não era o primeiro reparo que fazia desse gênero. por outras vezes quis parecer que alguém curioso de mau gosto se divertia a remexer-lhe os papéis e a roupa “Talvez bisbilhotice do moleque!”

Mas, no dia seguinte, por ocasião de deitar-se achou sobre o travesseiro um atracador de tartaruga preso a um laço de veludo preto. Reconheceu logo estes objetos; pertenciam a Ana Rosa. “Mas, como diabo vieram eles imoralmente parar ali, na sua cama?... Havia nisso, com certeza, um mistério ridículo, que convinha por a limpo!...” Lembrou-se então de ter ficado uma vez muito intrigado por descobrir, na escova e no pente de seu uso, fios compridos de cabelo, cabelo de mulher, sem dúvida, e mulher branca.

(continua...)

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