Por Aluísio Azevedo (1895)
Se eu fosse homem, sacrificaria de bom grado boa parte da minha força nervosa pela glória de ser um grande escritor, ou um grande artista, ou um grande sábio; se eu tivesse um filho daria prontamente, nem só minha saúde, mas a vida, se em troca de tal sacrifício alcançasse ele aquela glória; mas o que eu tinha não era um filho, era uma filha; logo precisava de um “bom genro”, de um bom marido para ela; e queria pois que esse meu genro fosse talhado pelas conveniências particulares de sua mulher e não pelas conveniências gerais de qualquer homem.
Parece absurdo, mas não é. Absurdo é o protesto que alguns artistas fazem contra as competentes sogras, porque estas, na vigilância do seu amor materno, se revoltam em guerra aberta contra o absorvente egoísmo do talento deles e contra a absorvedoura preocupação das suas glórias individuais, cônscias de que nisso reside o terrível inimigo da felicidade doméstica da filha.
Não é raro ouvirem-se deles exclamações desta ordem:
“Vejam o que é ser sogra! A minha já me declarou, face a face, que preferia fosse eu um homem vulgar, mas — bom marido — a ser quem sou, causando à filha, apesar do meu nome e do meu talento, as contrariedades de que ela se queixa! Já particularizou até com toda a franqueza que preferia para genro um taverneiro estúpido, porém exemplar como esposo, a mim ou ao mais ilustre artista do universo!”
Decerto! Elas têm toda a razão. Não compreendem esses senhores sonhadores de glória que a sogra, assim praticando, está perfeitamente dentro do seu programa de mãe amorosa, ao passo que eles, contraindo casamento, traíram o programa do seu ideal artístico, aceitando um novo ideal incompatível com o primeiro. É impossível viver de corpo e alma para a arte e para a glória e viver ao mesmo tempo para a família! Desses dois ideais um triunfará em sacrifício do outro. Há uma coisa pior do que ficar eternamente solteiro — é casar, sem sentir aptidão para ser um bom chefe de família.
“Quem não pode com o tempo não inventa modas” diz a sabedoria do povo.
A boa sogra, ou, por outra, a boa mãe, quer que seu genro seja um bom marido de sua filha e nada mais. Não é o talento, nem são as glórias dele que a interessam, mas é só a felicidade dela. Para isso a boa mãe ou boa sogra procura agradar o genro, fazer-lhe as vontades, não contrariá-lo, adulá-lo até, levar-lhe a papinha à cama; mas não por ele próprio, e sim porque tudo isso se traduz em benefício da filha.
Leandro, pois, ao meu ver, nada por si só representava; valia muito, porém, desde que eu o julgasse como auxiliar indispensável à felicidade de Palmira. Por conseguinte, sob o ponto de vista do meu egoístico e extremoso amor materno, meu genro, quanto menos individualidade intelectual tivesse, tanto melhor para mim, porque tanto mais seria ele absorvido pela esposa.
A um genro basta a inteligência apenas necessária para não ser ridículo e para não fazer maldades conjugais por estupidez. Na família, em que ele entra, e à qual fica adido, nunca poderá atingir no amor dos pais o primeiro plano, que esse pertence aos filhos. É um auxiliar do amor, como certos artistas de ordem subalterna são os auxiliares dos artistas criadores, ou de primeira ordem. Um genro é para nossa filho o que o gravador é para o pinto original, de cujo quadro ele tira o seu desenho; o que o cantor é para o compositor musical; o que o ator é para o autor; o que o executor de estátuas é para o estatuário que as concebeu; o que o mestre-deobras é para o arquiteto, e o que o tradutor ou o compositor tipográfico é para o escritor. Do mesmo modo que o artista criador não pode dispensar o artista auxiliar, porque precisa dele para o desempenho da sua produção, assim, nós sogras, não podemos dispensar o genro. Não o desprezamos, ao contrário — tratamo-lo com todo o carinho; mas o seu papel em nosso amor e em nosso interesse, nunca será o primeiro e sim o segundo, porque o primeiro pertence à sua mulher, que é nossa filha.
O que uma boa sogra tem a pedir ao genro não é estima, nem carinhos para ela; não é tampouco que tenha talento ou seja um grande homem, é pura e simplesmente que lhe faça a filha feliz. Se o genro fizer isto, a sogra nada mais tem a exigir dele, e há de ser boa por força de regra.
A sogra só é má quando a filha é infeliz com o marido, ou quando, o que é anormal, não sinta amor de mãe.
Não! para esposo de minha filha não quereria nunca um gênio, nem algum herói glorioso, fosse ele lá de que espécie fosse; para meu genro queria simplesmente um homem — um bom marido.
Pois bem: o negociante, segundo o meu novo modo de julgar, é quem melhor preenche esse ideal.
Vejamos por quê:
(continua...)
AZEVEDO, Aluísio Azevedo. O livro de uma sogra. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16536 . Acesso em: 24 mar. 2026.