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#Relatos#Literatura Brasileira

A Retirada da Laguna

Por Visconde de Taunay (1871)

Após longas hesitações, forçoso se tornou romper ao acaso, através do pestilento pantanal, onde a coluna foi desde o princípio provado pelas febres. Uma das primeiras vítimas veio a ser o próprio e infeliz chefe, falecido à margem do rio Negro. Afinal, arrastando-se penosamente, conseguiu atingir a povoação de Miranda a 396 quilômetros para o sul. Aí uma epidemia climática de novo gênero, a paralisia reflexa, ou beribéri, acabrunhou-a, dizimando-a ainda mais. Dois anos quase haviam decorrido, desde a nossa partida do Rio de Janeiro. Lentamente descrevêramos imenso circuito de dois mil cento e doze quilômetros. E já um terço de nossa gente perecera.

CAPÍTULO II

Miranda. Partida da coluna. Marcha de Miranda a Nioc.

Foi a 1º de janeiro de 1867 que o coronel Carlos e Morais Camisão, nomeado pela presidência de Mato Grosso, assumiu o comando dos desventurados soldados que, só mesmo profundo sentimento de disciplina, pudera até então manter em forma. É Miranda quase inabitável, rodeada como se acha, e numa extensão considerável, de depressões que a menor chuva, num instante, inunda, até mesmo na melhor estação, e que os raios solares, som a mesma rapidez, enxugam. Privada de boa água, pois a do Miranda é sempre agitada e lodosa, a disposição do terreno não oferecia ali, aliás, nenhuma das condições militares às quais, em rigor, poderiam Ter sido sacrificadas as considerações higiênicas. E com efeito, ao longo de um caudal, acessível a grandes embarcações, estendem-se margens uniformemente baixas a que tiram toda a segurança estradas abertas.

Freqüente e energicamente pronunciara-se a comissão de engenheiros contra maior demora neste foco de infecção; e já, por duas vezes, em relatório, o assinalara o chefe da junta médica como a causa de ruína da expedição, pois de contínuo diminuía o seu pessoal, quer pela morte, quer pela dispensa forçada dos doentes. Continuava o beribéri a fazer em nossas fileiras numerosas vítimas naquele lugar ainda sujeito à influência dos grandes pantanais que a tropa acabara de atravessar, entre o Coxim e Miranda.

Estava Miranda em ruínas quando nossas forças ali entraram. Ao partirem haviam-na os paraguaios incendiado. Ardera parte das construções, mas eram evidentes os sinais de decadência, anterior ao incêndio que sucedera à primeira fase de desenvolvimento e prosperidade. Ainda se mantinham de pé prédios cômodos e sobre o local de velha fortificação, outrora bem construído quartel, então muito deteriorado pelo fogo, fechava uma praça de onde saíam duas ruas que iam acabar em frente à igreja paroquial, ambas ladeadas de casas erguidas a pequena distância umas das outras.

Da matriz apenas subsistiam as paredes laterais, e arcabouço da torre, o galo de folha-de-flandes e uma cruz esculpida no alto do frontão. Fora edificada graças aos esforços de virtuoso missionário italiano, Frei Mariano de Bagnaia, que não somente nela empregara o produto das esmolas, por ele próprio recolhidas em toda a vizinhança, com incomparável trabalho e ardor, como ainda ali aplicara a modesta côngrua.

Os tristes destroços desta igreja, saqueada pelos paraguaio, que até os sinos lhe tomaram, havia algum tempo antes presenciado uma cena que nos parece merecer menção.

A 22 de fevereiro de 1865, deixando Frei Mariano as margens do Salobro, onde se refugiara, ao aproximar-se a invasão, viera, de moto próprio, entregar-se aos paraguaios, no intuito de lhes pedir compaixão para com a desventurada paróquia. Ao chegar à vila, fora-lhe o primeiro cuidado correr à matriz, objeto da sua mais viva solicitude. Desolador espetáculo o esperava: altares derribados, as imagens santas despojadas dos adornos, enfim todas as mostras da profanação. Ao presenciá-lo, dele se apoderou tal sentimento de indignação e desespero, que não pôde dominar-se. Imediatamente, e em tom retumbante, à frente do chefe paraguaio e seus comandados, pronunciou solene anátema contra os autores de tais atentados. Ouviram-no todos cabisbaixos, como se esta voz severa fora a de algum daqueles Padres que outrora lhes haviam catequizado os antepassados, esforçando-se o comandante em convencer o missionário que os únicos culpados eram os Mbaias (Índios).

Lavado em lágrimas, corria o santo homem de altar em altar, como para verificar os ultrajes praticados contra cada um dos objetos de sua veneração. Só após minuciosa constatação de todas as indignidades cometidas se resignou a celebrar o santo sacrifício da missa; e isto depois de tudo haver disposto para que a cerimônia se pudesse realizar.

De cento e treze dias, foi a permanência da coluna em Miranda – de 17 de setembro de 1866 a 11 de janeiro seguinte. A 28 de dezembro retirou-se um dos comandantes enviados da capital de Mato Grosso, ele próprio atacado pela epidemia. A 31 de mesmo mês apresentava-se em Miranda o coronel Carlos de Morais Camisão; e no dia imediato, 1º de janeiro de 1867, assumia o comando, como já o dissemos.

(continua...)

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