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#Romances#Literatura Brasileira

O Matuto

Por Franklin Távora (1878)

Assim falando e repetindo sempre com razoáveis intervalos, estes fingidos e traiçoeiros dós, metia-se por entre as redes dos rancheiros, muitas vezes passando de leve a mão esquerda por cima deles, enquanto com a direita apanhava muito naturalmente as esporas ou a faca aparelhada de prata, a maca onde vinha o melhor fato e alguma vez jóias preciosas e dinheiro, o relógio, que descansava sobre uma mala, o gibão novo que estava pendente do galho da arvore ou do punho da rede.

Tal era aquele cujo fim trágico Francisco se propôs contar aos companheiros.

Para melhor ouvirem a narração, reuniram-se os matutos ao pé do narrador, uns fumando em cachimbos de barro, outros comendo da matalotagem que traziam em mochilas de algodão ainda hoje em uso entre esta espécie de gente por ocasião de suas jornadas.

II

Francisco principiou assim:

- O sol estava a sumir-se, quando ouvimos, já arranchados ao pé da oiticica ramalhuda, que fica adiante da casa de Valentim obra de duas léguas, uns gemidos e uns queixumes que cortavam o coração a quem os escutava.

- Quem me socorre? Cristãos, filhos de Deus, acudi-me – dizia a voz: Ai que dor! Não tenho quem me meta a vela na mão. Ai que morro neste mato sem ter quem me chame pelo nome de Jesus.

Seu sargento-mór João da Cunha, com quem eu vinha de Goiana, e que era o dono do comboio, - se por informações, ou por prevenção, não o sei bem dizer, viu logo no afligido um velhaco; e quando, assim que chegou aonde nós estávamos, arrastando-se com muito trabalho e gemendo sempre, ele lhe pediu, com voz sumida um lugar entre os arreios para passar a noite junto de quem o pudesse ajudar na hora de morte, reconheceu no pobre o Valentão-daTimbaúba. Todos nós o reconhecemos também pelo olho furado e a perna quebrada.

- Estou pronto a consentir que você pernoite entre nós, mas há de ser com uma condição, - disse-lhe seu sargento-mór. Valentim respondeu: Farei tudo o que vossa senhoria ordenar, contanto que me deixe morrer entre filhos de Deus.

Você há de dormir amarrado pelas mãos do Francisco debaixo de minhas vistas no tronco desta oiticica.

- Ai meu senhor! tornou Valentim. Compadeça-se do pobre enfermo. A ninguém ofendi nesta vida para merecer tanta crueza.

- Se não lhe serve a condição, vá morrer longe daqui enquanto é cedo.

A estas palavras de seu João da Cunha, Valentim afastou-se do lugar sem mais demora, gemendo mais do que dantes. Todos nós fizemos tenção de não pregar olho essa noite, mas o enfado da viagem tinha vencido a todos algumas horas depois. Só quem não dormiu foi seu sargento-mór, que para fazer crer que estava deitado, mandou pôr dentro da rede dele um surrão carregado, e junto dela, entre duas caixas de fazenda, se sentou escondido como quem fazia tocaia a veado, esperando pelo ladrão, com o bacamarte armado, por cima da caixa que lhe ficava na frente.

Quando foi lá pelas tantas, um vulto veio tomando chegada pé ante pé. Estava nu da cintura para cima. Tinha as calças arregaçadas e trazia uma arma de fogo na mão. Quando o ladrão ia a por a mão no cabresto de um dos animais que estavam comendo milho nos embornais defronte da oiticica, seu sargento-mór desabrochou-lhe fogo. Todo o rancho acordou atordoado e ganhou mão das armas. Eu fui o primeiro que corri ao ponto onde estavam os animais. Faltava um, e o ladrão tinha desaparecido. Seu sargento-mór ficou muito zangado com a perda do seu cavalo, e ainda mais por Ter errado o tiro. Mas que se havia de fazer?

- Gosto de um cabra danado assim como o Valentim! disse um dos matutos que ouviam a narração.

- É verdade, disseram outros. Fez o que quis, e acabou antes do amanhecer.

Sim, mas, quando amanheceu – prosseguiu Francisco – e se viu o rastilho de sangue que ele foi deixando pelo caminho afora, seu sargento-mór mandou que eu e Mameluco, seu pagem de confiança, montássemos nos melhores cavalos e lhe fizéssemos companhia, guiados pelo rastilho, em busca do Valentão.

O comboio seguiu para o sul, e nós tiramos para o poente. Pouco adiante o rastilho perdeu-se no mato; mas nós entramos por ele, e fomos dar em um riacho.

Ai, bem na beira, debaixo de uma emburana, estava o cabra.

- Acaba de matar este negro! Disse seu sargento-mór a Mameluco.

Mas, não foi preciso fazer nada mais. Valentim estava morto.

Assim acabou o Valentão-da-Timbaúba. Podemos, por isso, dormir todos sem susto que ninguém mais nos há de vir inquietar durante a noite. Tomando o conselho de Francisco, que, por sua idade e prudência, parecia exercer sobre os companheiros legitima influencia, tranqüilos e serenos estes meteram-se em suas redes e pouco depois estavam ressonando profundamente.

Como visse o rancho em silêncio, o velho Ignacio apagou o candeeiro e retirou-se a seus aposentos, não sem ter primeiro fechado todas as portas, com excepção da de entrada, que de costume ficava sempre aberta para a qualquer hora da noite se recolherem os viageiros que não podiam chegar mais cedo.

Não havia luar, mais a noite estava clara. As estrelas cintilavam com a luz suave que elas têm no deserto ou nos lugares onde não há, para quebrarem sua branda claridade, as iluminações publicas.

(continua...)

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