Por Bernardo Guimarães (1872)
— O que é isso, comadre? está com medo? — exclamou a senhora Antunes com uma gargalhada. Pois não quer ver o lindo e inocente bichinho, que ainda agora estava-lhe beijando a filha?
— Jesus!... santo nome de Jesus! — bradou Umbelina persignando-se e olhando de través o hediondo animal, que se estorcia no chão. — Que bicho medonho!... de que escapou minha pobre filhinha!...
— Ah!... já está vendo?... a comadre deve um favorzão a Deus por ter permitido que a cobra não mordesse a menina.
— Anda cá Josefa! — continuou ela, dirigindo-se à escrava. — Daqui em diante mais cautela com estas crianças, ouviste? não te arredes de perto delas... se as deixares outra vez por aí sozinhas, lavro-te de relho, pasmada, e ponho-te na roça com uma enxada na mão... olha a cara desta desmazelada!... está sonsa, que nem para tomar conta de umas crianças tem préstimo!...
O extraordinário incidente foi por muitos dias o assunto da conversação naquela casa.
Umbelina via nele um milagre, pelo qual dava infinitas graças ao céu apertando nos braços a filhinha que, como ela dizia, tinha nascido naquele dia. A mulher de Antunes porém, que tinha o espírito propenso a acreditar em superstições e agouros, teimava em ver naquilo um sinistro prenúncio, que ela mesma não sabia explicar.
CAPÍTULO III
Margarida, pois, não saí a quase de casa do capitão Francisco Antunes onde, conduzida por sua mãe entrava pela manhã, e não saía senão à tardinha. Muitas vezes mesmo acontecia-lhe dormir lá, quand0 fazia mau tempo, ou quando os afazeres de Umbelina não lhe permitiam ir buscá-la.
À medida que a menina ia crescendo, a senhora Antunes como boa madrinha que era, ia-lhe ensinando o que a sua tenra idade comportava, e desde e os cinco anos lhe pôs nas mãos a agulha e o dedal.
Margarida, por sua graça e gentileza, extrema docilidade e precoce vivacidade, era mui querida de todos, e inseparável de Eugênio.
Assim foi-se criando e fortalecendo desde o berço entre aquelas duas almas infantis uma viva e profunda afeição, que dia a dia mais afundava as raízes naqueles dois tenros corações, como em uma terra fresca e cheia de seiva. Eram como duas flores silvestres em botão, nascidas da mesma haste, nutrindo-se da mesma seiva, acariciadas pela mesma aragem, que ao abrirem-se cheias de viço e louçania encontravam-se sorrindo-se e namorando-se em face uma da outra, e balanceandose às auras da solidão procuravam beijar-se trocando entre si eflúvios de amor. De dia em dia crescia essa mútua amizade entre as duas crianças, como um cipó, que nascendo entre dois tenros arbustos vizinhos se enleia em torno deles e confunde seus galhos tornando-os como um só.
Não eram ainda Romeu e Julieta; mas eram inseparáveis como Paulo e Virgínia vagueando pelas sombras dos pitorescos bosques da Ilha de França.
Entretanto Eugênio tocava já aos seus nove anos, e um dia foi preciso mandá-lo morar na Vila em casa de um parente, a fim de freqüentar a escola de primeiras letras.
Ah! foi esse um dia de prantos e desolação naquela pequena família. Parecia que ela havia sido fulminada por alguma grande desgraça. Umbelina e a dona da casa ralhavam e afagavam, sorriam e choravam ao mesmo tempo; os meninos resmungavam queixas e soluçavam pelos cantos da casa. O pai gritava, enternecia-se e exasperava-se alternativamente à vista de tanta choradeira. E tudo isso por causa de um menino que ia para a escola dali a légua e meia!...
No momento de partir foi a muito custo que conseguiram arrancar os dois meninos dos braços um do outro.
Foi necessário que Umbelina agarrasse à força sua filha, que se atirava pelo chão, estorcendo-se e rasgando as roupas em desespero, e queria a todo o transe ir correndo pela estrada afora atrás de seu companheiro, que lá se ia em lágrimas e soluços.
Por alguns dias Margarida ficou metida em sua casa, triste e amuada. Uma dor de alguns dias já é para assombrar em um coração de oito anos. Mas o tempo é o melhor, senão o único consolador das mágoas passageiras da vida. Sobretudo no coração das crianças, o seu bálsamo é de uma eficácia e prontidão espantosa. Assim pois com o tempo e também porque quase todos os domingos Eugênio vinha passar o dia na fazenda, Margarida foi-se consolando e acomodando com a sua sorte.
Eugênio esteve dois anos na escola, e quando voltou definitivamente para a casa paterna, Margarida, que estava entre os nove e dez anos, já não era tão assídua em casa do fazendeiro. A menina já podia ajudar a sua mãe; sabia coser, bordar, e era muito diligente em toda a espécie de serviço caseiro compatível com a sua idade. Portanto somente aos domingos e dias santos, ou por acaso em alguma tarde costumava aparecer em casa de seus padrinhos em companhia de sua mãe.
(continua...)
GUIMARÃES, Bernardo. O Seminarista. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16585 . Acesso em: 27 fev. 2026.