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#Romances#Literatura Brasileira

Encarnação

Por José de Alencar (1878)

Essa ardente efusão de duas existências durava desde o primeiro instante, não tinha lapsos nem desmaios.

Hermano aproximava-se dos trinta anos, e vivera muito nesse tempo. Julieta aos vinte anos não conhecia o mundo; e seu coração virgem era um manancial de ternura.

Que diálogo inefável entre aquela inteligência pródiga e essa inocência ávida de saber, rica de afeto?

O passado de Hermano, desde a primeira infância até o casamento, Julieta queria vivê-lo, dia por dia, hora por hora, se fosse possível, para amar seu marido em cada um desses momentos anteriores a ela.

O presente não lhe bastava. nem o futuro. Carecia de remontar-se à origem dessa existência que lhe

pertencia, para soldá-la ainda mais intimamente a si, de modo que não lhe fosse possível marcar a época de sua união. Então o casamento teria sido apenas a consagração social do vínculo de duas almas gêmeas

Por seu lado Hermano sentia também a necessidade de vazar no coração ingênuo e casto da esposa, como em um crisol, os seus pensamentos, as idéias de que a sociedade o imbuíra; e assim apurar sua consciência naquela chama celeste.

Sua individualidade, escoimando-se da liga mundana, apagando os traços de uma mocidade fácil, identificava-se de mais em mais com o espírito puro e imaculado da moça; e embebia-se nele como o raio do sol que se infunde na seiva da árvore e gera a flor.

Hermano e sua mulher freqüentavam a sociedade onde os chamavam suas relações. Iam, porém, aos divertimentos unicamente para se desobrigarem de um dever de cortesia e posição; ou talvez para certificarem-se de que nada faltava à sua felicidade.

Depois de uma ou duas horas passadas no teatro ou nos salões, recolhiam-se pressurosos à sua casa e ao seu amor.

Duas vezes por mês reuniam as famílias de sua amizade. Essas longas noites, em que se deviam a seus convidados, eram uma ausência, uma separação para eles. Tinham o mundo entre si.

Que saudades não sentiam um do outro nesses momentos; e com que anelos encontravam-se de novo na sua querida solidão?

Amália era então uma criança de nove anos. No dia do casamento tinha vindo do colégio passar o domingo com a família. À noite vira a chácara vizinha iluminada e os noivos que chegavam com grande acompanhamento de carros.

Reparando na elegância e garbo do par que subia as escadas de pedra alcatifadas de fino tapete, a menina pensou no dia de seu casamento; e desejou que seu noivo fosse tão lindo como aquele.

Nos outros domingos que passava em casa, quando chegava à janela, via os noivos sempre juntos passeando no jardim, ou sentados em um banco à sombra dos bambus.

Um dia ardeu-lhe a curiosidade de espiar os aposentos da noiva. O fundo da chácara dava para a montanha; e o declive fora cortado em socalco com terraços que se sucediam em degraus.

De uma dessas elevações dominava-se a casa vizinha, especialmente a asa do edifício, que ficava fronteira, a duas braças apenas de distância.

Foi daí que Amália, aproveitando uma ocasião em que as janelas estavam abertas, viu o quarto de dormir e o toucador da noiva, ambos preparados com luxo e primor.

No toucador, sentada junto a uma mesa de charão, Julieta procurava numa caixinha de jóias uns botões para os seus punhos de cambraia. O mando entrou. Em pé, por detrás da cadeira, colheu nas mãos o rosto da moça e cobriu-o de beijos.

A travessa que os espiava disparou a rir. Julieta corou e quis afastar-se; porém, Hermano a reteve e beijou-a de novo tranqüilamente, como para afrontar a malícia da menina com a castidade de sua carícia.

Pouco tempo depois desta cena, o Sr. Veiga mudou-se para o Andaraí, por causa da perda de sua sogra, e alugou a casa de São Clemente, para onde D. Felícia não quis voltar depois do golpe que ali sofrera.

A existência dos dois noivos continuou sem alteração; sua felicidade tornou-se com o tempo mais serena e por isso mesmo mais intensa.

Afinal apareceu uma ligeira nuvem naquele céu aberto. Estavam casados havia mais de três anos, e não tinham filho. Começaram a sentir essa falta; era o primeiro desejo não satisfeito.

Engolfados no misticismo do amor, tão grato às imaginações vivas, eles consolavam-se com uma teoria psicológica um tanto abstrata, mas original e encantadora.

Hermano dissera uma vez à mulher:

— Um filho é uma porção de nós que se destaca para formar outro eu. Nós, Julieta, nos queremos tão exclusivamente, e nos possuímos com tanta ânsia, que nenhum quer perder do outro a menor parcela, ainda mesmo reproduzir o nosso ser.

A mulher aplaudia esta explicação, que ela primeiro balbuciara sem poder exprimi-la; e o egoísmo cheio de enlevos desse amor inexaurível substituía para o feliz casal o outro penhor que a sorte lhes negara.

(continua...)

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