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#Comédias#Literatura Brasileira

O Noviço

Por Martins Pena (1845)

Carlos — O tempo acostumar! Eis aí porque vemos entre nós tantos absurdos e disparates. Este tem jeito para sapateiro: pois vá estudar medicina... Excelente médico! Aquele tem inclinação para cômico: pois não senhor, será político... Ora, ainda isso vá. Estoutro só tem jeito para caiador ou borrador: nada, é ofício que não presta... Seja diplomata, que borra tudo quanto faz. Aqueloutro chama-lhe toda a propensão para a ladroeira; manda o bom senso que se corrija o sujeitinho, mas isso não se faz; seja tesoureiro de repartição fiscal, e lá se vão os cofres da nação à garra... Essoutro tem uma grande carga de preguiça e indolência e só serviria para leigo de convento, no entanto vemos o bom do mandrião empregado público, comendo com as mãos encruzadas sobre a pança o pingue ordenado da nação.

Emília — Tens muita razão; assim é.

Carlos — Este nasceu para poeta ou escritor, com uma imaginação fogosa e independente, capaz de grandes cousas, mas não pode seguir a sua inclinação, porque poetas e escritores morrem de miséria, no Brasil... E assim o obriga a necessidade a ser o mais somenos amanuense em uma repartição pública e a copiar cinco horas por dia os mais soníferos papéis. O que acontece? Em breve matam-lhe a inteligência e fazem do homem pensante máquina estúpida, e assim se gasta uma vida? É preciso, é já tempo que alguém olhe para isso, e alguém que possa.

Emília — Quem pode nem sempre sabe o que se passa entre nós, para poder remediar; é preciso falar.

Carlos — O respeito e a modéstia prendem muitas línguas, mas lá vem um dia que a voz da razão se faz ouvir, e tanto mais forte quanto mais comprimida.

Emília — Mas Carlos, hoje te estou desconhecendo...

Carlos — A contradição em que vivo tem-me exasperado! E como queres tu que eu não fale quando vejo, aqui, um péssimo cirurgião que poderia ser bom alveitar; ali um ignorante general que poderia ser excelente enfermeiro; acolá, um periodiqueiro que só serviria para arrieiro, tão desbocado e insolente é, etc., etc. Tudo está fora de seus eixos.

Emília — Mas que queres tu que se faça?

Carlos — Que não se constranja ninguém, que se estudem os homens e que haja uma bem entendida e esclarecida proteção, e que, sobretudo, se despreze o patronato, que assenta o jumento nas bancas das academias e amarra o homem de talento à manjedoura. Eu, que quisera viver com uma espada à cinta e à frente do meu batalhão, conduzi-lo ao inimigo através da metralha, bradando: "Marcha... (Manobrando pela sala, entusiasmado:) Camaradas, coragem, calar baionetas! Marche, marche! Firmeza, avança! O inimigo fraqueia... (Seguindo Emília, que recua, espantada:) Avança!"

Emília — Primo, primo, que é isso? Fique quieto!

Carlos, entusiasmado —"Avança, bravos companheiros, viva a Pátria Viva!" — e voltar vitorioso, coberto de sangue e poeira... Em vez desta vida de agitação e glória, hei-de ser frade, revestir-me de paciência e humildade, encomendar defuntos... (Cantando:) Requiescat in pace... a porta inferi! amém... O que seguirá disto? O ser eu péssimo frade, descrédito do convento e vergonha do hábito que visto. Falta-me a paciência.

Emília — Paciência, Carlos, preciso eu também ter, e muita. Minha mãe declaroume positivamente que eu hei-de ser freira.

Carlos — Tu, freira? Também te perseguem?

Emília — E meu padrasto ameaça-me.

Carlos — Emília, aos cinco anos estava eu órfão, e tua mãe, minha tia, foi nomeada por meu pai sua testamenteira e minha tutora. Contigo cresci nesta casa e à amizade de criança seguiu-se inclinação mais forte... Eu te amei, Emília, e tu também me amaste.

Emília — Carlos!

Carlos — Vivíamos felizes esperando que um dia nos uniríamos. Nesses planos estávamos quando apareceu este homem, não sei donde, e que soube a tal ponto iludir tua mãe, que a fez esquecer-se de seus filhos que tanto amava, de seus interesses e contrair segundas núpcias.

Emília — Desde então nossa vida tem sido tormentosa...

Carlos — Obrigaram-me a ser noviço, e não contentes com isso, querem-te fazer freira. Emília, há muito tempo que eu observo este teu padrasto. E sabes qual tem sido o resultado das minhas observações?

Emília — Não.

Carlos — Que ele é um rematadíssimo velhaco.

Emília — Oh, estás bem certo disso?

Carlos — Certíssimo! Esta resolução que tomaram, de fazerem-te freira, confirma a minha opinião.

Emília — Explica-te

Carlos — Teu padrasto persuadia a minha tia que me obrigasse a ser frade para assim roubar-me, impunemente , a herança que meu pai deixou-me. Um frade não põe demandas...

Emília — É possível?

Carlos — Ainda mais; querem que tu sejas freira para não te darem dote, se te casares.

Emília — Carlos, quem te disso isso? Minha mãe não é capaz!

Carlos — Tua mãe vive iludida. Oh, que não possa eu desmascarar este tratante!...

(continua...)

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