Por José de Alencar (1860)
JORGE - Ainda quando ele se oponha, Elisa. Não contrariaremos a sua vontade, não esqueceremos os nossos deveres; mas a aliança pura de duas almas que se compreendem tem a sua religião.
ELISA - É meu pai!
JORGE - Vem a propósito.
ELISA - Mas não lhe fale agora, não.
CENA VII
Os mesmos e GOMES
JORGE - Bom dia, Sr. Gomes!...
GOMES - Ah!... Como passou, Sr. Jorge?... Desculpe!... Não tinha visto. (Senta-se distante.)
JORGE - Permite que continuemos?
GOMES - Pois não!
JORGE - (a ELISA) - Não quer dar a sua lição?
ELISA - (a meia voz) - Não posso cantar agora!... Não vê como estou toda trêmula!
JORGE - Pois toque um pouco.
GOMES (sentindo a falta do relógio) - Ah!... Que horas são?... Deixei o meu relógio a consertar.
JORGE - Nove e vinte.
GOMES - Já?... Não chega!... Que martírio!...
ELISA - Que tem, meu pai?
GOMES - Nada! Deixa-me! Estou aflito!... Espero uma resposta.
ELISA - Vm. está tão descorado!
GOMES - É o calor... O cansaço, talvez! Não te inquietes.
JORGE (a Elisa) - Seu pai está incomodado. Naturalmente deseja ficar só. Até logo.
ELISA - Sim! Até logo.
JORGE - Não se esqueça que me deu o direito de viver para a sua felicidade.
ELISA É coisa que se esqueça nunca?
JORGE - Se houver alguma novidade, mande-me chamar.
ELISA - Imediatamente.
JORGE - Sr. Gomes!...
GOMES - Já vai?
JORGE - Quando poderei falar-lhe hoje, que menos o incomode?
GOMES - À tarde... ou à noite.
JORGE - Eu passarei à noite. (Volta) Uma carta que acabam de entregar.
GOMES - Ah!...
CENA VIII
GOMES e ELISA
GOMES (lendo) - "Sinto muito... porém... as minhas circunstâncias..." É o que todos respondem!... Infames! Não se lembram que se hoje lhes peço as migalhas, já lhes dei a abastança.
ELISA - Que diz essa carta que o agonia tanto, meu pai?
GOMES - O que há de ser, minha filha?!... Mais um ingrato a quem estendo a mão e que me repele com o pé.
ELISA - Não lhes peça nada!... Olhe: o nosso trabalho bastará para vivermos! Guarde o seu ordenado para pagar casa e vestirmos. Eu não preciso de nada. Das minhas costuras tirarei o necessário para os gastos diários.
GOMES - Não te iludas, Elisa! Podes te matar, mas não farás impossíveis.
ELISA - Há de ver.
CENA IX
Os mesmos e VICENTE
VICENTE - O Sr. Gomes, empregado público...
GOMES - Que deseja?
VICENTE - É V. Sa.?
GOMES - Um seu criado.
VICENTE - Então permita... Cito-o pela petição supra e seu despacho, do teor seguinte: "Ilmo. Sr. Dr. Juiz Municipal da 3a Vara. Diz..."
GOMES - Peço-lhe que me dispense dessa formalidade.
VICENTE - Prescinde da leitura, neste caso?
GOMES - Sei de que se trata. É do meu senhorio?
VICENTE - Justamente! Mandado de despejo, dentro de 24 horas, por não pagamento de aluguéis.
ELISA - Meu Deus!
GOMES - Estou ciente, senhor.
ELISA - Mas então, meu pai?
GOMES - Tudo nos persegue, minha filha.
VICENTE - V. Sa. tem à mão papel e tinta para passar a contra-fé... senão dou um pulo à venda defronte.
ELISA - Aqui tem, senhor.
VICENTE - Qualquer pena serve.
ELISA - O senhor não poderá fazer alguma coisa a favor de meu pai?
VICENTE - Sou suspeito, Sra. Dona... Oficial do juízo!
ELISÁ - Então amanhã vêm deitar-nos fora de casa?
VICENTE - Qual!... O senhor seu pai não tem advogado? É pedir vista... embargos... agravo... Lá o doutor sabe bem disso! Tem chicana para um ano!
ELISA - Ouve, meu pai? - Ainda há remédio.
GOMES - Se eu tivesse dinheiro para pagar a advogados... Mas nesse caso pagaria antes ao meu credor, cuja dívida é justa.
VICENTE - É V. Sa. o primeiro réu que o confessa!
CENA X
Os mesmos e PEIXOTO
PEIXOTO - Com licença!
GOMES - Quem é?
ELISA - Ah! É o senhor que há pouco o procurou, meu pai.
PEIXOTO - Finalmente achei-o em casa.
GOMES - Sr. Peixoto, não me nego a pessoa alguma.
PEIXOTO - Não digo o contrário mas é difícil de o encontrar.
VICENTE - V. Sa. paga a contra-fé?
ELISA - Quanto é?
GOMES - Não tenho com que pagar, senhor.
VICENTE - Bem. É só para declarar.
PEIXOTO - Hum!... Já lhe anda esta gente por casa... Mau sinal!
VICENTE - Viva, Sr. Peixoto! (A GOMES) Aqui tem!
GOMES - Não preciso deste papel.
VICENTE - Em todo o caso aí fica. As ordens! Queira desculpar!
PEIXOTO (a meia voz) - Que foi isso?
VICENTE (idem) - Despejo!
PEIXOTO - Mau!
GOMES - Elisa, vai para dentro. Deixa-me conversar com o senhor.
CENA XI
GOMES e PEIXOTO
PEIXOTO - Sabe o que me traz aqui?
(continua...)
ALENCAR, José de. Mãe. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=7546 . Acesso em: 21 jan. 2026.