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#Romances#Literatura Brasileira

Diva

Por José de Alencar (1864)

Nunca, até então, eu assumira a tremenda responsabilidade da conservação de uma vida, que um erro meu, um instante de hesitação, podiam sacrificar. E não era uma vida indiferente... Essa menina caprichosa, calma e impassível à dor, velando-se como as virgens mártires do cristianismo para morrer pudicamente... Essa menina inspirava-me não sei que estranho e vivo interesse. 

Eu sentia, combatendo sua enfermidade, o que devem sentir os grandes artistas tratando um assunto difícil; raiva e desespero, quando a consciência da minha fraqueza contra as leis da natureza me acabrunhava; júbilos imensos, quando meu espirito, tirando forças da ciência e da vontade, arcava com a moléstia e a subjugava por instantes. 

Uma vez perdi a esperança. 

D. Leocádia dormitava extenuada à cabeceira do leito. Emília não dava mais acordo de si. Aproximei-me; a máscara da morte cobria já aquele rosto diáfano. Sentei-me à borda do leito, e não pude reter as lágrimas que me saltaram em bagas dos olhos. 

Santa virgindade das emoções, primeiros orvalhos do coração, que a aridez do mundo tão depressa estanca! A quantos espetáculos pungentes não tenho eu assistido depois com os olhos enxutos e o espírito sereno! D. Leocádia abriu os olhos: 

—Não há. mais esperança, doutor? Enxuguei as lágrimas envergonhado, e achei em mim uma energia nova. Lancei mão dos últimos recursos. Um mês arquei com a dissolução que invadia esse corpo frágil, disputando às garras da morte os sobejos de vida, que lhe faltava devorar. Tinha, a pedido do Sr. 

Duarte, ficado em sua casa; e a isso, a esse cuidado incessante de todas as horas e de todos os momentos, devo o resultado que obtive. 

Venci afinal. Mal sabia eu da influência que devia ter no meu destino essa existência, cujos frouxos clarões, prestes a se apagarem, eu reanimara com os lumes de minha alma. 

Emília entrou em convalescença. A gratidão do pai foi sincera; sua recompensa generosa. Aceitei a primeira e recusei a última. 

—Por quê? me perguntarias talvez. 

Era como te disse o meu primeiro triunfo em medicina; trabalhei para ele como o sacerdote de minha nova religião. Por um desses movimentos misteriosos do coração que não se explicam, quis sagrá-lo unicamente à ciência, extreme e puro de todo o interesse pecuniário. 

Tal foi o motivo de minha recusa, e não mal-entendido pudor de receber a justa remuneração de tão nobre serviço. 

Escrevi ao Sr. Duarte pouco mais ou menos o seguinte: 

"Foi Deus quem salvou D. Emília; a ele devemos agradecer, o senhor a vida de sua filha, eu minha felicidade. 

"Meu primeiro doente foi para mim como um primeiro filho. As emoções que senti lutando com a moléstia, as angustias por que passei nas suas recrudescências, o desespero de minha fraqueza nesses momentos, um pai os deve compreender. 

"Essas emoções só podiam ter uma recompensa. Já a recebi do meu coração. Foi a pura e santa alegria de restituir a vida querida, que me fora confiada. Substituí-la por outra, não seria generoso de sua parte, Sr. 

Duarte." O negociante ainda me procurou, e insistiu, mas inutilmente. 

Afinal lhe disse : 

—Eu conheço, Sr. Duarte, que faço uma violência à sua generosidade, Mas, em compensação lhe prometo... Começo a minha vida; é possível que alguma vez me veja em embaraços. Nesse caso recorrerei ao senhor! 

—Promete-me? —Dou-lhe minha palavra. 

Pouco tempo depois sabes que fui h Europa, onde me demorei perto de dous anos. Fizemos juntos até Pernambuco a viagem, de que nasceu a nossa boa e sincera amizade. Se não me engano, em nossas conversas intimas a bordo falei-te alguma vez dessa família, mas sem as particularidades que refiro agora. 

Então ainda a luz intensa da paixão, que veio depois, não tinha debuxado, como estereótipo nas lâminas do coração, a imagem viva dessa menina. 


III 

VOLTANDO da Europa, a primeira visita que recebi foi a do Sr. Duarte. Tinha-me despedido dele e de sua família; nessa ocasião ainda, apesar dos esforços do pai, Emília não me quis aparecer. Também eu já não reparava na vergonhosa esquivança da menina. 

Visitando o negociante, vi ao entrar na sala uma linda moça, que não reconheci. Estava só. De pé no vão da janela cheia de luz, meio reclinada ao peitoril, tinha na mão um livro aberto e lia com atenção. 

Não é possível idear nada mais puro e harmonioso do que o perfil dessa estátua de moça. 

Era alta e esbelta. Tinha um desses talhes flexíveis e lançados, que são hastes de lírio para o rosto gentil; porém na mesma delicadeza do porte esculpiam-se os contornos mais graciosos com firme nitidez das linhas e uma deliciosa suavidade nos relevos. 

(continua...)

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