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#Sermões#Retórica

Sermão da Bula da S. Cruzada

Por Padre Antônio Vieira (1647)

Tenho notado a este propósito um lanço da providência e governo de Cristo, que sempre me admirou muito e deve admirar a todos. Cristo e seus discípulos, como não possuíam nada deste mundo, viviam das esmolas com que a devoção dos fiéis socorria o Sagrado Colégio. Para receber estas esmolas, e as despender e distribuir, houve o Senhor de eleger um deles (Jo. 12, 6), e quem se não admirara e pasmara de que este eleito fosse Judas? – Senhor, dai-me licença. Vós não conheceis muito bem a Judas? – Sim, conheço. – Não sabeis que é ladrão, e que há de furtar? – Sim, sei. – Estas esmolas que lhe entregais e fiais dele, não são para sustento dos outros discípulos que vos servem, e que hão de defender com a vida vossa fé e vossa igreja? – Sim, são. – Sobretudo, a esmola não é aquela obra de caridade tão estimada de vós, a que tendes prometido tantos prêmios, tantas mercês, tantas graças, e a mesma bem-aventurança? – Sim, é. – Pois nas mãos de Judas meteis tudo isso, para que ele se aproveite e os outros padeçam? Para que ele coma, e os outros morram de fome? Não foi esse o fim de Cristo, que Deus não favorece ladrões, ainda que os permita. Mas permitiu neste caso, com alta providência, que as esmolas dadas para sustento dos que a serviam, corressem por mãos de quem as havia de roubar, para que constasse então, e agora a toda sua Igreja, que ainda que as esmolas se roubem, e se desencaminhem, e não se apliquem ao fim para que se dão, apreço, e merecimento delas, e o prêmio que se promete a quem as dá, sempre está seguro. Neste contrato há duas pagas: uma, a paga dos soldados para quem dais a esmola, que corre por mão dos homens, e outra, a paga da mesma esmola que dais, que corre pela mão de Deus. A que corre por mão dos homens, pode faltar aos soldados; a que corre por mão de Deus, nunca vos pode faltar a vós. Os soldados não serão pagos; vós sempre sois pago.

Satisfeito este escrúpulo vulgar, respondamos a outra de mais bem fundada objeção, a que nos chama o texto.

IV

Lancea: As lanças dos soldados da África e os tesouros da Igreja. O Papa, tesoureiro da monarquia de Cristo. Como Cristo atribui seus milagres não à própria onipotência, senão à fé dos que os recebem, assim atribuímos os benefícios da Bula mais à lança dos soldados que às Chaves de Pedro. Nas leis da terra, dão-se os prêmios só a quem milita e serve; nas leis do céu têm o mesmo prêmio tanto o que milita e serve, como o que o sustenta.

Lanceu. Assim como a lança do soldado do Calvário foi a que abriu o lado de Cristo, assim dissemos que as lanças dos nossos soldados de África são as que abrirão e abrem os tesouros da Igreja, que se nos concedem na Bula. Mas esta aplicação, ou modo de dizer; porece que se encontra com a propriedade e verdade do que cremos neste mesmo ponto. É verdade católica de nossa santa fé romana, que quem abre e só pode abrir os tesouros espirituais da Igreja, são as chaves de S. Pedro: logo, mal o atribuímos às lanças dos nossos soldados. Direi. Para abrir estes sagrados tesouros, necessariamente concorrem duas coisas: da porte de quem os concede (que é o Papa) o poder; e da porte de quem os recebe (que somos nós) a justa causa. Mas de tal sorte dependem desta justa causa as mesmas graças concedidas, que sem elas seriam totalmente inválidas e de nenhum efeito. A razão disto é, como está decidido em muitos cânones, porque o Pontífice não é senhor dos bens espirituais da Igreja, senão despenseiro, e como tal só os pode despender racionavelmente e com causa justa. De outra maneira seria a monarquia espiritual de Cristo tão malgovernada, como são os temparais de muitos príncipes. Por isso vemos tantos tesouros mais esperdiçados que reportidos, e tantas graças e mercês imódicas, concedidas sem nenhuma causa, e muitas vezes com a contrária. Digam-no as prodigalidades de el-rei Assuero com o seu mau valido Amã (Est. 3, 1). E no mesmo tempo o fiel Mardoqueu, benemérito de tantos serviços feitos à coroa e à pessoa do mesmo rei, pregado manhã e tarde aos postes de palácio, subindo e descendo aquelas cansadas escadas, sem haver quem pusesse nele os olhos, salvo o mesmo Amã para o destruir. Não assim os tesouros da monarquia de Cristo, de que tem as chaves o seu Vigário. Eles só os pode despender, sim, mas só com justa causa. E como a justa causa das graças que se nos concedem na bula, é a defensa dos lugares e fortalezas da África, os quais os nossos soldados sustentam contra a invasão e forças de toda a barbaria, por isso a abertura das mesmas graças se artibui justamente às suas lanças. Vede se falo conforme a doutrina e leis do Senhor e autor da mesma Igreja.

Quando Cristo concedia perdão de pecados, ou dava saúde milagrosa aos enfermos, tudo atribuía comumente à fé dos que o recebiam. À Madalena: Fides tua te salvam fecit;6 à cananéia: O mulier magna est fides tua 7 ao centurião: Sicut credidisti, fiat tibi;8 ao pai do surdo e mudo: Omnia possibilia sunt credenti.9 E assim a outros muitos. Mas, porque razão? Essas obras sobrenaturais, Senhor; e essas mercês extraordinárias, ou da graça, ou da saúde, não são todas efeito da vossa onipotência? São. Pois, porque as não atribuis à mesma onipotência que as obra, senão à fé dos que as recebem? Porque, segundo a regra geral da Providência de Cristo, queria o Senhor que assentassem estas mercês e graças que fazia, sobre o merecimento da fé dos que as logravam. E como para as mesmas graças concorriam duas causas, uma eficiente que era a onipotência, e outra meritória, que era a fé, atribui-se o efeito à meritória e não à eficiente, porque a eficiente naquela suposição dependia da meritória. O mesmo passa no nosso caso. O poder de abrir os tesouros da Igreja está nas chaves de S. Pedro; mas elas os não podem abrir validamente senão com justa causa, e toda a justa causa das graças que se nos concedem na bula, é a conservação das praças católicas, que os nossos soldados e cavaleiros da África defendem às lançadas, por isso, sem ofensa do poder das chaves (que reconhecemos) não atribuímos os efeitos delas às mesmas chaves, quanto às lanças: Lancea tatus ejus aperuit.

(continua...)

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