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#Sermões#Retórica

Sermão de Nossa Senhora de Penha de França

Por Padre Antônio Vieira (1652)

A razão por que não é necessário que haja livro, direi agora, e é tão clara e manifesta, que por ela por si mesma se está inculcando. O fim para que os homens inventaram os livros foi para conservar a memória das coisas passadas contra a tirania do tempo e contra o esquecimento dos homens, que ainda é maior tirania. Por isso Gilberto chamou os livros, reparadores da memória, e S. Máximo, medicina do esquecimento: Scriptura memoriae reparatrix est, oblivionis medicamentum.6 E como os livros foram inventados para conservadores das coisas passadas, por isso os milagres de Penha de França não hão mister livros, porque são milagres que não passam. Esta é uma excelência com que a Virgem Maria quis singularizar os privilégios desta sua casa, sobre todas as que tem milagrosas no mundo, e sobre todas as que tem nesta cidade. Deixemos as do mundo, porque fora discurso mui dilatado. Vamos às de Lisboa. Foi milagrosa em Lisboa a Casa de Nossa Senhora da Natividade, mas passaram os milagres da Natividade. Foi milagrosa a Casa de Nossa Senhora do Amparo, mas passaram os milagres do Amparo. Foi milagrosa a Casa de Nossa Senhora do Desterro, mas passaram os milagres do Desterro. Foi milagrosa a Casa da Senhora da Luz, mas passaram os milagres da Luz. Só a casa de Nossa Senhora de Penha de França foi milagrosa e há de ser milagrosa, porque os seus milagres nunca passam, e as coisas que não passam nem acabam, as coisas que permanecem sempre, não hão mister livros. Duas leis fez Deus neste mundo: uma foi a lei de Moisés, outra a de Cristo. A lei de Moisés escreveu-se, que por isso se chama lei escrita; a lei de Cristo não se escreveu. E por quê? A lei de Cristo não é lei mais pura, não é lei mais santa, não é lei mais estimada e amada de Deus, que a lei de Moisés? Sim. Pois se se escreve a lei de Moisés, a lei de Cristo, por que se não escreve? Porque a lei de Moisés era lei que havia de passar; a lei de Cristo era lei que havia de permanecer para sempre, e as coisas que passam, essas são as que se escrevem; as que permanecem não hão mister que se escrevam. Escrevam-se os milagres da Natividade, escrevam-se os da Luz, escrevam-se os do Amparo e do Desterro, para que lhes não acabe o tempo as memórias, assim como os acabou a eles. Os milagres de Penha de França não hão mister a fé das escrituras, porque eles são a fé de si mesmos. Quem quiser saber os milagres de Penha de França, não é necessário que os vá ler no papel; venha-os ver com os olhos. Esta casa não é milagrosa por papéis; não é necessário que se passem certidões onde os milagres não passam. Os rios sempre estão a passar, e nunca passam. Assim são os milagres de Penha de França: um rio de milagres.

Quereis ver este rio e esta penha? Ponde-vos nos desertos do Egito com os filhos de Israel caminhando para a Terra de Promissão. Perecendo ali de sede aquele numeroso exército, mandou Deus a Moisés que dissesse a uma penha que desse água:

Loquimini ad petram.7 Excedeu Moisés o mandamento, deu com a vara na penha, mas pagou o excesso tão rigorosamente, que o castigou Deus com que não entrasse na Terra de Promissão. Para a penha socorrer milagrosamente a necessidade do povo, basta dizerlho: Loquere. Não quer Deus que se cuide que o milagre é de vara; quer que se saiba que o milagre e o benefício é da penha. E assim foi. Saiu a água milagrosa com tanta abundância e com tal continuação, que diz S. Paulo: Bibebant de consequente eos petra (1 Cor. 10, 4): que bebiam da penha que os ia seguindo. – E como os ia seguindo a penha? Não os seguia movendo-se do lugar onde estava; mas seguia-os com um rio milagroso, que dela manava, e ia acompanhando o povo, e o sarava de todas as enfermidades: Non erat infirnus in tribubus eorum.8 Na penha brotava a fonte perene, e da fonte manava perenemente o rio que corria e socorria a todos. E acrescentou logo S. Paulo que tudo isto era figura do que depois havia de suceder, e bem o vemos. Naquele altar está a Penha transplantada de França a Castela, e de Castela a Portugal; daquela Penha sai a fonte, que é a imagem milagrosa da Virgem Maria, e daquela fonte nasce o rio de seus milagres e benefícios, que não parando nem podendo parar, corre perenemente e acode a todas as necessidades do mundo. Assim o disse S. João Damasceno falando desta Senhora: Petra quae sitientibus vitam tribut: Penha que a todos os que têm sede, dá vida. Fons universo orbi medicinam afferens: Fonte que é medicina universal para todas as enfermidades do mundo. A mesma Senhora o tinha já dito e prometido de si no capítulo oitavo dos Provérbios: Qui me invenerit inveniet vitam, et hauriet salutem a Domino (Prov. 8, 36): Aquele que me buscar, achar-me-á, e aquele que me achar, achará a vida, e beberá a saúde. Não diz que receberá a saúde, senão que a beberá, porque beberá do rio dos milagres e da fonte da saúde, que sai desta penha.

Mas vejo que me dizem os mais versados nas Escrituras, que os milagres daquela antiga penha, não só se escreveram em um livro, senão em muitos, e pelas três penas mais ilustres de ambos os Testamentos: Moisés, Davi, S. Paulo. Pois assim como a história e milagres da penha de Israel se escreveram em tão multiplicados livros, não seria justo também que se escrevesse a História e Milagres da Penha de França? Não. Pois que vai muito de penha a penha, de rio a rio, e de milagres a milagres. Ali a penha desfez-se, o rio secou-se e os milagres cessaram, e onde o tempo acaba as coisas, é bem que as perpetue a memória dos livros. Na nossa Penha de França, não passa assim. A penha é sempre a mesma, o rio sempre corre, os milagres nunca param, e milagres sobre que não tem jurisdição o tempo, não hão mister remédios contra o tempo: eles são a sua própria escritura, eles os anais, eles os diários de si mesmos.

(continua...)

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