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#Sermões#Retórica

Sermão da Quinta-Feira da Quaresma

Por Padre Antônio Vieira (1669)

No salmo cento e treze, zomba Davi dos ídolos da gentilidade, e uma das coisas de que principalmente os moteja, é que têm olhos e não vêem: Oculos habent, et non videbunt (SI. 113, 5). Bem pudera dizer que não tinham olhos porque olhos abertos em pedra, ou fundidos em metal, ou coloridos em pintura, verdadeiramente não são olhos. Também pudera dizer, e mais brevemente, que eram cegos. Mas disse com maior ponderação e energia que tinham olhos e não viam, porque o encarecimento de uma grande cegueira não consiste em não ter olhos, ou em não ver, senão em não ver, tendo olhos: Oculos habent, et non videbunt. Depois disto volta-se o profeta com a mesma galantaria contra os fabricadores e adoradores dos ditos ídolos, e a bênção que lhes deita, ou a maldição que lhes roga, é que sejam semelhantes a eles os que os fazem: Similes illis fiant, Qui faciunt ea. Porque assim como a maior bênção que se pode desejar aos que adoram ao verdadeiro Deus, é serem semelhantes ao Deus que os fez, assim a maior praga e maldição que se pode rogar aos que adoram os deuses falsos, é serem semelhantes aos deuses que eles fazem: Similes illisflant Qui faciunt ea. Agora dizei-me. E não seria muito maior desgraça, não seria miséria e sem-razão nunca imaginada, se esta maldição caísse não já sobre os adoradores dos ídolos, senão sobre os que crêem e adoram o verdadeiro Deus? Pois isso é o que com efeito nos tem sucedido. Que coisa são pela maior parte hoje os cristãos, senão umas estátuas mortas do cristianismo e umas semelhanças vivas dos idolos da gentilidade, com os olhos abertos e cegos: Oculos habent, et non videbunt? Miséria é grande que sejam semelhantes aos ídolos os que os fazem, mas muito maior miséria é, e muito mais estranha, que sejam semelhantes aos ídolos os que os desfazem, e estes somos nós. Estes somos nós, torno a dizer, por cristãos, por católicos, e muito particularmente por portugueses. Para que fez Deus Portugal, e para que levantou no mundo esta monarquia, senão para desfazer ídolos, para converter idólatras, para desterrar idolatrias? Assim o fizemos e fazemos, com glória singular do nome cristão, nas Àsias, nas Áfricas, nas Américas. Mas como se os mesmos ídolos se vingaram de nós, derrubamos as suas estátuas, e eles pegaram-nos as suas cegueiras. Cegos, e com os olhos abertos, como ídolos: Oculos habent et non videbunt. Cegos, e com os olhos abertos, como o povo de Israel: Populum caecum, et oculos habentem. Cegos, e com olhos abertos, como Saulo: Apertis oculis, nihil videbat. E cegos finalmente, e com os olhos abertos, como os escribas e fariseus: Ut videntes caeci fiant.

§III

Primeira espécie de cegueira, causada pela desatenção: a dos cegos que vêem e não vêem juntamente, contradição já anunciada por Cristo. O profeta Eliseu e a cegueira dos cavaleiros do rei da Síria. Os anjos de Deus e a cegueira dos habitantes de Sodoma. Os discípulos de Emaús e a inadvertência do olhar. Admoestação dos profetas Jeremias e Isaías.

Está dito em comum o que basta; agora, para maior distinção e clareza, desçamos ao particular. Esta mesma cegueira de olhos abertos divide-se em três espécies de cegueira, ou falando medicamente, em cegueira da primeira, da segunda e da terceira espécie. A primeira é de cegos que vêem e não vêem juntamente; a segunda, de cegos que vêem uma coisa por outra; a terceira, de cegos que vendo o demais, só a sua cegueira não vêem. Todas estas cegueiras se acharam hoje nos escribas e fariseus, e todas, por igual, ou maior desgraça nossa, se acham também em nós. Vamos discorrendo por cada uma, e veremos no nosso ver muita coisa que não vemos.

Começando pela cegueira da primeira espécie, digo que os olhos abertos dos escribas e fariseus, eram olhos que juntamente viam e não viam. E por quê? Não porque vendo o milagre não viam o milagroso, como já dissemos, mas porque vendo o milagre não viam o milagre, e vendo o milagroso, não viam o milagroso. O milagre, viam-no nos olhos do cego, o milagroso viam-no em sua própria pessoa, e muito mais nas suas obras, que é o mais certo modo de ver, e contudo nem viam o milagre, nem viam o milagroso. O milagre, porque o não queriam ver, o milagroso porque o não podiam ver. Bem sei que ver e não ver implica contradição, mas a cegueira dos escribas e fariseus era tão grande que podiam caber nela ambas as partes desta contradição. Os filósofos dizem que uma contradição não cabe na esfera dos possíveis: eu digo que cabe na esfera dos olhos. Não me atrevera ao dizer se não fora proposição expressa da primeira e suma verdade. Assim o disse Cristo falando destes mesmos homens no capítulo quarto de S. Marcos: Ut videntes videant, et non videant (Mc. 4,12): Para que vendo, vejam e não vejam. – Agora esperáveis que eu saísse com grandes espantos. Se viam, como não viam? E se não viam, como viam? Dificultar sobre tal autoridade seria irreverência. Cristo o diz, e isso basta. Eu porém não me quero escusar por isso de dar a razão deste, que parece impossível. Mas antes que lá cheguemos, vejamos esta mesma implicação de ver e não ver praticada em dois casos famosos, ambos da História Sagrada.

(continua...)

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