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#Sermões#Retórica

Sermão da Terceira Dominga da Quaresma

Por Padre Antônio Vieira (1655)

Trataram os hebreus de ter um Deus, ou um ídolo, que em lugar de Moisés os guiasse pelo deserto. Vão-se ter com Arão, e dizemlhe: Fac nobis deos, qui nos praecedant (Êx. 32,1): Arão, fazei-nos um deus, ou uns deuses, que vão diante de nós. Arão neste tempo era supremo ministro eclesiástico e secular, porque em ausência de Moisés ficara com o governo do povo, e como cabeça espiritual e temporal tinha dobrada obrigação de não consentir com os intentos ímpios dos idólatras, e de os repreender e castigar como um atrevimento tão sacrílego merecia, e de defender e sustentar a fé, a religião, o culto divino, e quando mais não pudesse, dar a vida, e mil vidas, em sua defesa. Isto é o que Arão tinha obrigação em consciência de fazer. Mas que é o que fez? Ide advertindo as palavras, porque todas importam muito para o caso. Respondeu Arão em conseqüência da proposta daquela gente, que fossem às suas casas, que tirassem as arrecadas das orelhas a suas mulheres, a suas filhas e a seus filhos, conforme o uso da Ásia, e que lhas trouxessem todas: Tollite inaures aureas de uxorum, filiorumque etfiliarum vestrarum, et afferte ad me. Trazidas as arrecadas, tomou-as Arão, derreteu o ouro, e feitas suas formas segundo a arte, fundiu e fez um bezerro: Quas cum ilIe accepisset, formavit opere fusorio, fecitque ex eis vitulum conflatibilem. – Tanto que apareceu acabada a nova imagem, aclamaram logo todos em presença de Arão, que aquele era o Deus que os tinha livrado do cativeiro do Egito. E por se não mostrar menos religioso, o sacerdote supremo: Aedificavit altare coram eo, et praeconis voce clamavit, dicens: Cras solemnitas Domini est: Edificou Arão um altar, pôs sobre ele o ídolo, e mandou lançar pregão por todos os arraiais, que no dia seguinte se celebrava a festa do Senhor, – chamando Senhor ao bezerro. Há ainda mais blasfêmias e mais indignidades? Ainda. Surgentesque mane, obtulerunt holocausta et hostias pacificas, et sedit populus manducare, et surrexerunt ludere. Amanheceu o dia soleníssimo, fizeram os sacerdotes muitos sacrifícios, seguiram-se aos sacrifícios banquetes e aos banquetes festas e danças; tudo em honra e louvor do novo deus. Até aqui, ao pé da letra, a primeira parte da história.

Pergunto agora: E se Arão houvesse de confessar este pecado, parece-vos que tinha bem que confessar? Pois assim aconteceu. Houve de confessar o seu pecado Arão, confessou-o, mas vede como o confessou, que é muito para ver e para aprender. Desceu Moisés do monte no mesmo ponto em que se estavam fazendo as festas, vê o ídolo, acende-se em zelo, argüi a Arão de todo o sucedido: Quid tibi fecit hic populus, ut induceres super eum peccatum maximum? Que te fez este pobre povo, para o fazeres réu diante de Deus do maior de todos os crimes? – Confessou Arão a sua culpa, e confessou-a por estes termos: Tu nosti populum istum, quod pronus sit ad malum: Vós, senhor, sabeis que este povo é inclinado ao mal. Dixeruntque mihi: Fac nobis deos, qui praecedant nos: Disseram-me que lhes fizesse deuses a quem seguissem. – Agora vai a confissão. Ide-vos lembrando de tudo o que temos dito. Quibus ego dlxi: Quis vestrum habet aurum? Tulerunt, et dederunt mihi, et projeci illud in ignem, egressusque est hic vitulus: Perguntei quem tinha ouro? Foram-no buscar, e trouxeram-mo, e eu lancei-o no fogo, e saiu este bezerro. – Há tal confissão? Há tal caso no mundo? Vinde cá, Arão; estai a contas comigo diante de Deus. Vós não mandastes a todos estes homens (mandado lhe chama o texto: Fecit populus quae jusserat) vós não mandastes a todos estes homens que fossem buscar as arrecadas de ouro de suas mulheres, de suas filhas e de seus filhos, e que lhas tirassem das orelhas, e vo-las trouxessem? Pois como agora na confissão dizeis que perguntastes somente quem tinha ouro: Dixi illis.. Quis vestrum habet aurum? Mais. Vós não tomastes o ouro, não o derretestes, não o fundistes, não o formastes e fizestes o bezerro: Formavit opere fusorio, fecitque vitulum conflatibilem? Pois como dizeis agora na confissão, que lançastes o ouro no fogo, e que o ídolo se fez a si mesmo, e não vós a ele: Projeci illud in ignem, egressusque est hic vitulus? Mais ainda. Vós não fabricastes o altar? Não pusestes nele o ídolo? Não lhe dedicastes dia santo? Não lhe chamastes Senhor? Não lhe fizestes, ou mandastes fazer sacrifícios, holocaustos, banquetes, jogos, festas? Pois como na confissão agora calais tudo isto, e não se vos ouve uma só palavra em matéria de tanto peso? Eis aqui como dizem os pecados com as confissões, e as confissões com os pecados! E assim confessou os seus o maior ministro eclesiástico e secular do povo de Deus.

Falou Arão no que disse, e foi mudo no que calou: Locutus est mutus. Mas notai que se fez grande injúria à pureza da confissão no que calou, muito maior injúria lhe fez no que disse, pelo modo com que o disse: porque no que calou, calou pecados; no que disse, fez de pecados virtudes. Que é que calou Arão? Calou o altar que levantara ao ídolo, a adoração que lhe dera, o nome do Senhor com que o honrara, os pregões, o dia solene, as ofertas, os sacrifícios, as festas, e sobretudo, abrir a primeira porta e dar princípio às idolatrias do povo de Israel, que duraram com infinitos castigos por mais de dois mil anos. São boas venialidades estas para se calarem na confissão? Pois isto é o que calou Arão. E que é o que confessou, ou como o confessou? O que confessou foi o seu pecado, mas o modo com que o confessou foi tão diverso que, sendo o maior pecado, parecia a maior virtude. De maneira que se Deus não tivesse revelado a Moisés o que passava, pudera Moisés por esta confissão de Arão, pô-lo no mesmo altar que ele tinha edificado. O que Arão disse a Moisés foram estas palavras formais: Dixi illis: Quis vestrum habet aurum; et tulerunt mihi, et projeci illud in ignem: Pediram-me que lhes fizesse um ídolo; perguntei-lhes se tinham ouro, trouxeram-no, e eu arremessei-o no fogo. Olhai como referiu a história! Olhai como despintou a ação! Olhai como enfeitou o pecado! Pedir o ouro para fazer o ídolo, e derretê-lo, e fundi-lo, e formá-lo, e expô-lo para ser adorado, isso não era só concorrer para a idolatria, mas ser autor e dogmatista dela. E isto é o que fez Arão. Pelo contrário, pedir o ouro de que o povo cego queria se formasse o ídolo, e arremessá-lo no fogo, era pôr o fogo à idolatria, era abrasá-la, era queimá-la, era fazê-la em pó e em cinza. E isto é o que Arão confessou que fizera. Julgai agora se têm muito que confessar semelhantes confissões, e se são boas para lançar o demônio fora da alma, ou para o meter mais dentro. Falo da confissão de Arão: cada um examine as suas. Se as vossas confissões são como a de Arão, têm muito que condenar; se são como as do Batista, têm muito que louvar. Mas eu nem louvo com Marcela,6 nem condeno com os fariseus; admiro-me somente com as turbas: Et admiratae sunt turbae.

§III

(continua...)

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