Letras+ | Letródromo | Letropédia | LiRA | PALCO | UnDF




?
Busca avançada
Compartilhar Reportar
#Romances#Literatura Portuguesa

O Conde d'Abranhos

Por Eça de Queirós (1925)

O casamento, escrevo-o com dor, não foi feliz. Não possuo os documentos necessários para decidir a quem pertence a responsabilidade das desinteligências crescentes, mas é certo que o belo Apolo que, como dizia com um chiste adorável o Conde, «frequentava muito o seu colega Baco», espancava tão imprevistamente D. Jacinta, que obrigou muita vez esta dama a refugiar-se em casa dos seus parentes, levando apenas sob as suas formas, que tinham conservado uma grande majestade aristocrática, um saiote de flanela! Apesar, porém, destas violências, a paixão de D. Jacinta, que eu respeitosamente comparo à mulher de Putifar ou às Fedras da lenda antiga, trazia-a de novo, submissa e amorosa, à casa comum e ao leito conjugal, até que um dia, (e aqui textualmente copio uma carta, existente no arquivo da família e escrita por Segismundo de Noronha, irmão da dama espancada): «...a sova foi tão forte, que vimos a mana Jacinta entrar-nos pelo portão da casa em camisa e tendo nos ombros nódoas tão roxas e dilatadas, que o padre Simões, o nosso bom capelão, as comparou, com o devido respeito, às nódoas roxas nos ombros do Redentor depois de 12 horas de Via Dolorosa».

A família Noronha exigiu uma reparação. D. Jacinta veio viver com seus irmãos, e cinco meses depois deu à luz um menino que, por se julgar que não sobreviveria, foi à pressa baptizado pelo capelão Simões, com o nome poético de Florido. Sobreviveu, porém, felizmente. E aqui encontro um facto que, por respeito às duas famílias Abranhos e Noronhas, não cerco de comentários; é ele igualmente justificável e condenável. Biógrafos irreverentes e temerários poderiam talvez emitir uma opinião nítida, cortante, definitiva: eu abstenho-me, e assim deve fazer todo o historiador honesto, sempre que se trate de factos em que duas famílias, ambas ilustres, ambas históricas, tenham um conflito de interesses: a ordem social repousa nestas respeitosas reticências.

O facto é este na sua nudez histórica: o menino Floridozinho foi lançado à roda.

Um irmão, porém – e aqui dou amplamente saída ao meu desejo de glorificar os Abranhos – um irmão, porém, de Apolo (que Apolo a esse tempo desaparecera de Amarante) reclamou Florido, adoptou-o, educou-o, e foi recompensado desta nobre dedicação, porque Florido Abranhos foi um espelho de virtudes e uma flor de honradez. É talvez aqui a ocasião de destruir outro erro que tende a introduzir-se na História: o irmão de Apolo, tio de Florido, sem estar decerto numa alta situação social, não era todavia, como perfidamente insinuou em tempos a Gazeta de Portugal, um padeiro. Como dizia o Conde com grande elevação moral, estas pesquisas miúdas, mesquinhas, na intimidade familiar de um homem de Estado, são singularmente odiosas.

Florido, que pelo lado materno era um Noronha, casou em Penafiel, e a sua vida teve a tranquilidade límpida de um belo rio de águas claras que corre entre margens de serenidade idílica. Viveu, amou, trabalhou...

Et sa vieillesse fut comme le soir d'un beau jour...

Teve dois filhos – uma menina que herdou a beleza de seu avô Apoio, e um rapaz.7 que foi António Abranhos, o pai feliz que na noite de Natal de 1826, diante da pompa do Menino Jesus no seu presépio iluminado, apertou nos braços o seu filho único – Alípio Severo de Noronha Abranhos, futuro Conde d'Abranhos.

O Conde, portanto, é da família dos Noronhas – e dos Noronhas que direi que o não saiba a Pátria? O seu nome está na História pelos altos feitos e na Legenda pelos poéticos amores.

Não vos lembrais da nobre canção:

Aldina na alta torre

Alta torre d'Algeciras,

Chora de noite e de dia

Que condenou-a seu pai

A não ter mais alegria...

Levai-lhe os prantos, oh! rios,

Nuvens, levai-lhe os suspiros...

Aldina é uma Noronha. Da torre de Algeciras restam vestígios – todo um lanço de alvenaria, evidentemente do século XIII, descoberto ultimamente pelo nosso distinto arqueólogo Macedo Garção, que ofereceu à família Noronha uma formosa fotografia da ruína.

Outra Noronha foi de grande beleza e ilustrou o seu nome e o da sua raça, partilhando o leito do nosso Rei D. Afonso V.

D. Violante de Noronha, de uma beleza clássica que lhe mereceu o nome de Juno (nesta família, a beleza das mulheres iguala a bravura dos homens) recebeu o mesmo alto favor do nosso senhor Rei D. Pedro II.

Dos varões desta casa citarei Fernando de Noronha, tão cioso da sua raça que um dia, entrando no momento em que um criado repelia com força seu filho Afonso que num inocente brinquedo lhe arrepelava os cabelos, mandou decepar a mão direita ao lacaio.

Estes actos inspiravam um terror salutar e ainda que nos nossos tempos mais doces poderiam ser desaprovados e o júri decerto mandaria o seu autor para a costa de África, eram todavia necessários nessa época gloriosa da monarquia, para manter as classes nos justos limites indicados pela Providência.

(continua...)

« Primeiro‹ Anterior...23456...Próximo ›Último »
Baixar texto completo (.txt)

← Voltar← AnteriorPróximo →