Por Eça de Queirós (1874)
Mas quando ele ia a dizer-lhe uma palavra reveladora e veemente, apareceu ao fundo do armazém o tio Francisco, com o seu comprido casaco de pinhão, de botões amarelos. Como era singular e desusado achar-se o senhor guarda-livros vendendo ao balcão e o tio Francisco, com a sua crítica estreita e celibatária, escandalizar-se, Macário começou a subir vagarosamente a escada de caracol que levava ao escritório, e ainda ouviu a voz delicada da loura dizer brandamente:
— Agora queria ver lenços da Índia.
E o caixeiro foi buscar um pequenino pacote daqueles lenços, acamados e apertados numa tira de papel dourado.
Macário, tinha visto naquela visita uma revelação de amor, quase uma «declaração», esteve todo o dia entregue às impaciências amargas da paixão. Andava distraído abstrato, pueril, não deu atenção à escrituração, jantou calado, sem escutar o tio Francisco que exaltava as almôndegas, mal reparou no seu ordenado que lhe foi pago em pintos ás três horas e não entendeu bem a recomendações do tio e a preocupação dos caixeiros sobre o desaparecimento de um pacote de lenços da Índia.
— É o costume de deixar entrar pobres no armazém – tinha dito no seu laconismo majestoso o tio Francisco. – São doze mil réis de lenços. Lance à minha conta.
Macário, no entanto, ruminava secretamente uma carta, mas sucedeu que ao outro dia, estando ele á varanda, a mãe, a de cabelos pretos, veio encostar-se ao peitoril da janela, e neste momento passava na rua um amigo de Macário, que, vendo aquela senhora, afirmou-se e tirou-lhe, como uma cortesia toda risonha, o seu chapéu de palha. Macário ficou radioso: logo nessa noite procurou o seu amigo, e abruptamente, sem meia-tinta:
— Quem é aquela mulher que tu hoje cumprimentaste defronte do armazém? — É a Vilaça. Bela mulher.
— É a filha?
— A filha?
— Sim, uma loura, clara, com um leque chinês.
— Ah! sim. É filha.
— É o que eu dizia...
— Sim e então?
— É bonita.
— É bonita.
— É gente de bem, heim?
— Sim gente de bem.
— Está bom! Tu conhece-las muito?
— Conheço-as. Muito não. Encontrava-as dantes em casa de D. Cláudia. — Bem, ouve lá.
E Macário, contando a história do seu coração acordado e exigente e falando do amor com as exaltações de então, pediu-lhe como a glória da sua vida «que achasse um meio de o encaixar lá». Não era difícil. As Vilaças costumavam ir aos sábados a casa de um tabelião muito rico na Rua dos Calafates: eram assembléias simples e pacatas, onde se cantavam motetes ao cravo, se glosavam motes e havia jogos de prendas do tempo da senhora D. Maria I, e às nove horas a criada servia a orchata. Bem. Logo no primeiro sábado Macário, de casaca azul, calças de ganga com presilhas de trama de metal, gravata de cetim roxo, curvava-se diante da esposa do tabelião, Sr.ª D. Maria da Graça, pessoa seca e aguçada, com um vestido bordado a matiz, um nariz adunco uma enorme luneta de tartaruga, a pluma de marabout nos seus cabelos grisalhos. A um canto da sala já lá estava, entre um frufru de vestidos enormes, a menina Vilaça, a loura, vestida de branco, simples, fresca, com o seu ar de gravura colorida. A mãe Vilaça, a soberba mulher pálida, cochichava com um desembargador de figura apopléctica. O tabelião era homem letrado, latinista, e amigo da musas; escrevia num jornal de então, a «Alcofa das Damas»: porque era sobretudo galante, e ele mesmo se intitulava, numa ode pitoresca, «moço escudeiro de Vênus». Assim, as suas reuniões eram ocupadas pelas belas-artes – e, numa noite, um poeta do tempo devia vir ler um poemeto intitulado «Elmira ou a Vingança do Venesiano»!... Começavam então a aparecer as primeiras audácias românticas... As revoluções da Grécia principiavam a atrair os espíritos romanescos e saídos da mitologia para os países maravilhosos do oriente. Por toda a parte se falava no paxá de Janina. E a poesia apossava-se vorazmente deste mundo novo e virginal de minaretes, serralhos, sultanas cor de âmbar, piratas do Arquipélago, e salas rendilhadas, cheias do perfume do aloés onde paxás decrépitos acariciam leões. De sorte que a curiosidade era grande – e quando o poeta apareceu com os cabelos compridos, o nariz adunco e fatal, o pescoço entalado na alta gola do seu fraque à Restauração e um canudo de lata na mão – o Sr. Macário é que não teve sensação alguma, porque lá estava todo absorvido, falando com a menina Vilaça. E dizia-lhe meigamente:
— Então, noutro dia, gostou das casimiras?
— Muito – disse ela baixo.
E, desde esse momento, envolveu-os um destino nupcial.
(continua...)
QUEIRÓS, Eça de. Singularidades de uma Rapariga Loura. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16623. Acesso em: 29 jun. 2026.