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#Romances#Literatura Portuguesa

O Mistério da Estrada de Sintra

Por Eça de Queirós (1870)

— Rendam-se, rendam-se para nos poupar algum tempo que nos é precioso! — dissegravemente um dos desconhecidos — Por quem são, acompanhem-nos! Um dia saberão por que motivo lhes saímos ao caminho, mascarados. Damos-lhe a nossa palavra de que amanhã estarão nas suas casas, em Lisboa. Os cavalos ficarão em Sintra daqui a duas horas.Depois de uma breve relutância, que eu contribuí para desva necer, o meu companheiro apeou-se e entrou no coupé. Eu segui-o.Cederam-nos os melhores lugares. O homem que se achava em frente da parelha segurou os nossos cavalos; o que fizera cair o poldro subiu para a almofada e pegou nas guias; os outros dois en traram connosco e sentaram-se nos lugares fronteiros aos nossos.Fecharam-se em seguida os estores de madeira dos postigos e cor reuse uma cortina de seda verde que cobria por dentro os vidros fronteiros da carruagem.No momento de partirmos, o que ia a guiar bateu na vidraça e pediu um charuto. Passaram-lhe para fora uma charuteira de pa lha de Java. Pela fresta por onde recebeu os charutos lançou para dentro do trem a máscara que tinha no rosto e partimos a galope.Quando entrei para a carruagem pareceu-me avistar ao lon ge, vindo de Lisboa, um ónibus, talvez uma sege. Se me não iludi, a pessoa ou pessoas que vinham no trem a que merefiro terão vis to os nossos cavalos, um dos quais é ruço e o outro castanho, e po derão talvezdar notícia da carruagem em que íamos e da pessoa que nos servia de cocheiro, O coupé era, como já disse, verde e pre to. Os estores, de mogno polido, tinham no alto quatro fendasestreitas e oblongas, dispostas em cruz.

Falta-me tempo para escrever o que ainda me resta por con tara horas de expedir ainda hoje esta carta pela posta interna.Continuarei. Direi então, se o não suspeitou já, o motivo por que lhe oculto o meu nome e o nome do meu amigo.

II

Julho, 24 de 1870. — Acabo de ver a carta que lhe dirigi publi cada integralmente por V. no lugar destinado ao folhetim do seu periódico. Em vista da colocação dada ao meu escritoprocurarei nas cartas que houver de lhe dirigir não ultrapassar os limites de marcados a esta secção do jornal.

Por esquecimento não datei acarta antecedente, ficando assim duvidoso qual o dia emque fomos surpreendidos na estrada de Sin tra. Foi quarta-feira, 20 do corrente mês de Julho.

Passo de pronto a contar-lhe o que se passou no trem, especi ficando minuciosamentetodos os pormenores e tentando recons truir o diálogo que travámos, tanto quanto me seja possível, com as mesmas palavras que nele se empregaram.

A carruagem partiu na direcção de Sintra. Presumo, porém, que deu na estradaalgumas voltas, muito largas e bem dadas por que se não pressentiram pela intercadência da velocidade no passo dos cavalos. Levaram-me a supô-lo, em primeiro lu gar as diferenças dedeclive no nível do terreno, conquanto estivéssemos ro dando sempre em uma estrada macadamizada e lisa; em segundo lugar umas leves alterações na quantidade de luz que havia dentro do coupé coada de seda verde, o que me indicava que o trem passa va porencontradas exposições com relação ao Sol que se escondia no horizonte.

Havia, evidentemente, o desígnio de nos desorientar no rumo definitivo quetomássemos. É certo que, dois minutos depois de termos principiado a an dar, me seria absolutamente impossível decidir se ia de Lisboa pa ra Sintra ou se vinha de Sintra para Lisboa. Na carruagem havia uma claridade baça e ténue, que todavia nos permitia distinguir os objectos. Pude ver as horas no meu re lógio. Eram sete e um quarto.O desconhecido que ia defronte de mim examinou também as horas. O relógio, que ele não introduziu bem na algibeira do cole te e que um momento depois lhe caiu, ficando por algum tempo patente e pendido da corrente, era um relógio singular que se não confundefacilmente e que não deixará de ser reconhecido, depois da notícia que dou dele, pelas pessoas que alguma vez o houvessem visto. A caixa do lado oposto ao mostrador era deesmalte preto, liso, tendo no centro, por baixo de um capacete, um escudo de armas de ouro encobrado e polido.

Havia poucos momentos que caminhávamos, quando o indiví duo sentado defronte deF..., o mesmo que na estrada nos instara mais vivamente para que o acompanhássemos, nos disse:Eu julgo inútil asseverar-lhes que devem tranquilizar-se inteiramente quanto à segurança das suas pessoas...

— Está visto que sim — respondeu o meu amigo -, nós esta mos perfeitamentesossegados a todos os respeitos. Espero que nos façam a justiça de acreditar que nos não têm coactos pelo medo. Nenhum de nós é tão criança que se apavore com o aspecto das suasmáscaras negras ou das suas armas de fogo. Os senhores acabam de ter a bondade de nos certificar de que não querem fazer-nos mal; nós devemos pela nossa parte anunciar-lhes que desde o momento em que a sua companhia principiasse a tomar-se-nos desagradável, nadanos seria mais fácil do que arrancar-lhes as máscaras, arrombar os estores, convidá-los perante o primeiro trem que passasse por nós a que nos entregassem as suas pistolas, e relaxá-los em seguida aos cuidados policiais do regedor da pri meira paróquia queatravessássemos. Pareceme, portanto, justo que principiemos por prestar o devido culto aos sentimentos da amabilidade, pura e simples, que nos tem aqui reunidos. Doutro modoficaríamos todos grotescos: os senhores terríveis, e nós as sustados.

(continua...)

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