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#Novelas#Literatura Portuguesa

Alves & Cia

Por Eça de Queirós (1925)

Depois subiu o Chiado. Um momento parou a olhar, com respeito, um grande homem, um poeta, um historiador, um grande caráter, que nesse momento, com um velho casaco de lustrina e um chapéu de palha, conversava à porta do Bertrand, com o seu enorme lenço de ramagens preparado para se assoar. Godofredo admirava-lhe os romances, o estilo. Depois comprou charutos: ele não fumava; mas era para dar ao sogro depois do jantar. E desceu enfim a Calçada do Correio, que faiscava, sob o sol, poeirenta e seca. E apesar do calor caminhava depressa – de vez em quando apalpando a caixa da pulseira, que metera no bolso da sobrecasaca.

Estava à rua de São Bento, alguns passos antes de sua casa, quando, dentro da confeitaria, viu a sua criada, a Margarida, esperando ao balcão. E então compreendeu logo que Lulu não se esquecera do dia da data feliz. A Margarida viera comprar doces, a sobremesa. Ele, em dois passos, entrou no seu portal. Era uma casa de dois andares, pintada de azul, apertada entre dois grandes prédios; ele ocupava o primeiro andar: e, apesar de não gostar dos vizinhos de cima, uma gente barulhenta, e ordinária de não querer fazer-lhes participar dos luxos que ele dava à sua entrada, a pedido da Lulu tinha ultimamente feito tapetar a escada . E não se arrependia: era agora sempre um prazer, o encontrar sob os pés, ao entrar em casa, aquele tapete desenrolando-se pelos degraus, dando uma sensação de conforto sólido. Aquilo dava-lhe como um acréscimo de consideração para si mesmo. Em cima, a Margarida, que voltaria num instante, deixara a cancela aberta: e um grande silêncio reinava dentro da casa: tudo parecia adormecido, sob a grande calma do dia. Uma luz forte caía da clarabóia; o cordão da campainha, com a sua grande bola escarlate, pendia imóvel.

Então veio-lhe certa idéia absurda de noivo folgazão: entrar pé ante pé, ir ao quarto surpreender a Lulu, que ordinariamente àquela hora se vestia para o jantar. E sorria-se já do gritinho que ela ia dar, em saia branca talvez, com os seus belos braços nus. A primeira sala era de jantar: e para ali comunicavam, pôr duas portas de reposteiros, o boudoir dela e a sala de visitas. Entrou. No chão esteirado os seus sapatos de verão, de sola fina, não faziam rumor. E tudo parecia desabitado, caído num silêncio, tão grande, que se sentia dentro da cozinha vir um som de frigir, e na varanda os movimentos do canário dentro da sua gaiola. O reposteiro do quarto dela estava corrido, e ele, sorrindo baixo, ia levantá-lo, assustá-la – quando da porta fronteira, que era a da sala de visitas, veio através do reposteiro meio corrido, um ligeiro rumor, vago, indistinto, como dum vago suspiro, um som de garganta. Ele voltou-se, percebeu que ela estava lá, espreitou. E o que viu, Santo Deus, deixou-o petrificado, sem respiração, todo o sangue na cabeça, e uma dor viva no coração, que quase o deitou por terra... No canapé de damasco amarelo, diante duma mesinha, com uma garrafa de vinho, Lulu, de robe de chambre banco, encostava-se, abandonada, sobre o ombro dum homem, que lhe passava o braço pela cintura, e sorria, contemplando-lhe o perfil, com um olhar afogado em languidez. Tinha o colete desabotoado. E o homem era o Machado.

CAPÍTULO II

Ao estremecer do reposteiro, Ludovina vira-o, deu um grito, saltou instintivamente para longe do sofá. E Godofredo ouviu aquele grito: mas não se podia mexer, sem saber como, achara-se caído sobre uma cadeira ao pé da porta, e tremia, tremia, como numa sezão, e todo frio. E, através do rumor de febre que lhe enchia a cabeça, o deixava sem idéias, ele sentia toda a atrapalhação que ia dentro na sala. Passos fortes pisavam o tapete, houve algumas palavras, palavras trocadas num sopro, e com angústia: depois o ferrolho da porta que dava para a escada correu; e depois um silêncio. Então, subitamente, a idéia que eles tinham fugido ambos restituiu-lhe bruscamente a força, um furor apoderou-se dele, dum salto arremessou-se para dentro da sala. Mas tropeçou numa pele de raposa que ornava o limiar, foi-se estatelar ridiculamente sobre o tapete; quando se ergueu, furioso, com os punhos cerrados, o reposteiro da porta da escada balouçava-se, à margem, e a escada desenrolava-se, sob a luz da clarabóia, solitária, com o seu grande ar de decência. Então, alucinado, precipitou-se para a janela. Pela rua fora, a passadas de côvado, afastava-se o Machado, com o seu guarda-sol na mão. Onde estava ela então? Quando se voltou, no meio da sala, estava a Margarida, espantada, com o seu cartucho de bolos na mão.

— Onde está ela? – gritou o Godofredo.

Ao princípio a criatura não compreendeu; mas, subitamente, deixou cair o cartucho, levou o avental à cara, rompeu a chorar. Ele repeliu-a, quase a atirou para o chão; correu à cozinha. Com a porta fechada, cantando alto para o saguão, e escamando o seu peixe, a cozinheira não ouvira nada, não sabia nada. Então Godofredo arremessou-se contra a porta do quarto de Ludovina. Estava fechada.

— Abre, ou arrombo!

Não houve resposta: ele colou a orelha à madeira; vinha de dentro como um vago soluçar, um confuso sopro de angústia e de terror.

(continua...)

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