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#Romances#Literatura Brasileira

O Turbilhão

Por Coelho Neto (1906)

Paulo dominava-a com aspereza, exprobrando-lhe a vida desmazelada e, quando a velha, na intimidade, referia-lhe algum pequenino escândalo de Violante, rompia, assomado, ameaçando pregar a janela, atirar ao lixo todas aquelas caixas, todos aqueles vidros que entulhavam o toucador. Mas a irmã tinha crises — rolava pela casa, aos gritos, rangendo os dentes, rasgando a roupa, escabujando. E a boa velha, lamentando-se, corria os cantos, procurando remédios e, de joelhos, com a cabeça da filha ao colo, beijando-a, chamava-a, pedindo ao outro que a não tratasse com tanta aspereza, que tivesse pena dela, e instava para que, com afagos, procurasse chamá-la à razão. Ele obedecia contrariado. E Violante, amuada e mais linda depois da excitação nervosa, com os olhos mais brilhantes e a cor das faces mais viva, ia trancar-se no quarto, resmungando ameaças.

Voluntariosa, criada aos joelhos do pai, que a tratava de "princesa", anunciando-lhe sempre um noivo formoso e rico, que a havia de cobrir de sedas e carregá-la de jóias, foi acostumando o espírito com estas idéias de nobreza e fausto; de sorte que, quando lhe morreu o pai, já mocinha, sentiu-se como deserdada: foi como se, com ele, houvesse perdido uma fortuna que já possuía e um noivo que já a visitava em sonhos, formoso como os príncipes dos romances que ela devorava, revendo-se, com enlevo, em todas as heroínas.

Com a monte do pai, major de cavalaria, condecorado por feitos no Paraguai, todo o peso da casa recaiu sobre Paulo que, então, concluía os preparatórios.

Abandonando a idéia de bacharelar-se no Ginásio, matriculou-se na Faculdade de Medicina, conseguindo um lugar na revisão do Equador e algumas lições particulares, com o que fazia uma soma regular que, reunida ao meio-soldo que a mãe recebia, dava para irem vivendo, se não com luxo, ao menos com decência e fartura.

Posto que não achasse gravidade no estado da mãe, andava apreensivo, receoso, imaginando complicações e, volta e meia, lá ia um médico à casa; eram, às vezes, colegas. E os frascos de remédios enchiam prateleiras.

Com aqueles dias úmidos, Dona Júlia sofria atrozmente: mal podia mover-se na casa; sempre acaçapada nas cadeiras, as mãos espalmadas nas coxas, a gemer, dando ordens à cozinheira, que era a criada única que tinham. Ainda assim, se as dores abrandavam, lá ia ela para a vassoura, varrer, limpar os móveis ou arranjar a sala, porque não podia ver um fósforo no chão, nem um átomo de poeira nos seus velhos trastes do tempo do falecido. E, se a moléstia a prendia à cama, lá mesmo, com a perna esticada e untada, com o cesto de costura ao colo, ia cerzindo roupas, remendando meias ou reformando, pacientemente, os casacos da filha.

Profundamente religiosa, tinha no seu quanto, defronte da cama, sobre a cômoda, o oratório ante o qual ardia, perene, a lamparina de azeite iluminando registros milagrosos e duas imagens: a da Conceição e a do Senhor dos Passas.

Paulo ia pensando na boa velha e, quando o bonde passava pela Estrada de Ferro, saltou, subindo a Rua do Dr. João Ricardo, deserta àquela hora da noite. Grossas gotas de chuva bateram nas pedras, uma lufada de vento passou e, ao clarão de um relâmpago, o céu apareceu negro, acastelado de nuvens. Levantou a gola do casaco e, com o guarda-chuva à frente, como um escudo, a cabeça encolhida, partiu, rompendo a ventania.

CAPÍTULO II

Foi com surpresa pressaga que, ao avistar a casa, percebeu luzes por entre as persianas, acusando desusada vigília e logo a idéia de um acidente grave sobressaltou-lhe o espírito. Atravessou a rua a correr e bateu açodadamente à porta, aflito, ouvindo soluços e exclamações desesperadas que vinham do fundo da casa. A cozinheira apareceu, embrulhada num xale, com um lenço à cabeça. Ele entrou d'arremesso:

— Que é, Felícia? Que tem mamãe?

— Foi Nhá Violante que desapareceu, exclamou lamentosamente a negra.

Paulo ficou a olhar, num espanto, e, sem tirar o chapéu, avançou pelo corredor, direito à sala de jantar, onde Dona Júlia, com a cabeça entre os braços, dobrada sobre a mesa, soluçava.

— Que é, mamãe? Que foi? Então Violante desapareceu? Como? Quando?

Ouvindo-lhe a voz, a velha senhora levantou o rosto demudado e, pondo nele os olhos rasos de água, arrancou do peito um suspiro, pronunciando o nome da filha, com uma expressão de imenso desespero. Paulo compreendeu imediatamente o horror do crime que haviam levado a efeito na sua ausência. Teve um movimento impetuoso, lançando os olhos ao corredor, como se quisesse partir no mesmo instante, voltar à noite fria, para seguir no encalço da fugitiva. Mas Dona Júlia, abalada, rompendo em pranto convulso, lançou-lhe as mãos aos ombros, encostando-lhe ao peito a cabeça, cujos cabelos brancos, desfeitos, esvoaçavam e, numa queixa dorida, entrecortada, pôs-se a dizer: "Que nunca esperara aquilo de uma menina que ela criara com tantos sacrifícios, privando-se de tudo para que nada lhe faltasse, trabalhando como uma moura para poder satisfazer os seus caprichos de moça. Ah! nunca esperara tamanha ingratidão!"

— Mas como foi? perguntou Paulo, sentando-se numa cadeira próxima.

(continua...)

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