Por Coelho Neto (1897)
Os deuses do Garizin, depois da destruição do templo, pareciam haver desertado o monte onde os homens subiam a temperar a fé, de onde manava a seiva que se infiltrava nos campos e mantinha vivas todas as fontes, entre rochas úmidas.
Ermo o sagrado monte, esquecido o santuário antigo, as lavouras mirravam e um sol mais árdego crestou as ervas, sorveu as águas outrora copiosas.
Nem as torrentes ligeiras, conseguiram, fugindo, escapar à inclemência e os leitos dos córregos, em lodo seco, estalavam, fendiam-se em gretas fundas. Um fio d’água rastejava nos lugares que, antigamente, rios largos alagavam.
Das fontes restavam apenas as pedras calvas sobre areias tórridas onde víboras esfuziavam, entaliscando-se. De ponto em ponto uma cisterna funda oferecia ao caminhante a sua água salobra.
Às vezes o terebinto forte sombreava-a ou figueiras e mimosas formavam-lhe em torno um bosque ameno.
Mas os trilhos, arenosos e pedrentos, eram apenas habitados pelo cardo que esgalhava os ramos espinhosos, abertos em feridas, feios, disformes como aleijões. Não se ouvia cantar um pássaro – só o gipaeto(1) atravessava o espaço fulgurante ou grandes águias hostis, pousadas nos cabeços das penhas, devassavam os arredores buscando o que prear.
Maria ofegava seguindo o esposo. A areia escaldava-lhe os pés mimosos, o sol abrasavalhe a cabeça.
Caminhavam como através de chamas, sem que os olhos avistassem um colmado, a grata ramagem duma árvore.
Ó terras férteis da Galiléias! Vales alfombrados e frescos de tanta beleza por onde correm numerosos ribeiros claros. Ó Galiéia.
Tudo era desolação na tristonha Samária e o sol do outono queimava como nos incendidos dias estivais.
Seria melhor esperarem a tarde, prosseguirem com a brandura do crepúsculo, mas a pressa que levavam não lhes permitia demora.
José mais robusto e afeito a rigores, resistia; a Virgem, porém, começava a sentir-se atordoava: faltava-lhe o ar, os olhos ardiam-lhe.
- Chega-te à sombra do meu corpo, disse-lhe o patriarca. Ela obedeceu. Mas o sol zombava da misericórdia do amor e Maria continha as lágrimas, calava as dores dos delicados pés abertos em feridas, não querendo que o esposo sofresse com o seu sofrimento.
O sol subia, aumentava o calor e o ânimo da Virgem desfalecia quando uma nuvem cresceu acima do monte Ebal. Era escura como os nimbos e apressava-se como impelida por um grande vento. Barulho surdo anunciava-a, igual ao ronco soturno que precede as saraivadas de verão.
A terra entenebrecia à passagem obumbrada da nuvem, que vinha direita ao caminho trilhado pelo casal. O ruído aumentava tornando-se como o escachôo das catadupas. Detiveram-se de dois pálidos, tolhidos de espanto. Súbito Maria sorriu:
- São pombas, disse. Eram, efetivamente, milhares de pombas azuis que, muito juntas, formavam as nuvem escura. Pairavam, ficavam adejando sobre eles, com rumoroso arrulho e o sol quebrava-se-lhes nas asas estendidas.
José baixou os olhos, dobraram-se-lhe os joelhos e a Virgem, olhando as aves, não deu pelo gesto piedoso nem ouviu as palavras devotas com que ele, em êxtase, adorava-a.
Então prosseguiram à sombra do imenso pálio azul e fora da nuvem viva a terra, quente e rútila, ardia e faiscava ao sol.
AO PÔR DO SOL
No céu desbotavam, esbatiam-se as cores vivas, o ouro e a púrpura fundiam-se em violeta e, docemente, a melancolia vesperal envolvia a natureza e penetrava as almas. E Maria perguntou? - Por que é mais triste que a noite o breve instante do pôr-do-sol? - Porque é uma agonia, respondeu José. Não é a morte que impressiona, é o morrer.
A luz que vasqueja é como o corpo que estrebucha. A noite é serena , tem a imobilidade do cadáver.
Quantas sombras havia na terra? Tantas quantas são os seres e as coisas que existem. O sol, porque é a vida, discrimina, dá a cada um a sua autonomia para o bem ou para o mal.
O homem tem a sua sombra, como a formiga. A cordilheira escurece uma região e o grão de areia destaca a sua mancha. A noite condensa na mesma sombra todo o universo.
No instante da agonia a lama, como o saltador que recua para ganhar impulso na corrida e formar o pulo, regressa na reminiscência recordando a vida, desde os primevos até a hora suprema.
O crepúsculo que lembra o amanhecer, sem a alegria, é um recuo à madrugada para o salto dentro da noite.
- Aquele clarão que alveja nos montes é o luar. A lua é como uma lâmpada que o sol deixa acesa quando parte. Como a noite é linda! - E purificadora. O sono é um mergulho na eternidade.
(continua...)
COELHO NETO, Henrique Maximiano. A partida. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=7527 . Acesso em: 7 abr. 2026.