Por Raul Pompéia (1881)
- ... Nós somos os sagrados preparadores do futuro. A pátria de amanhã é a concretização danossa idéia.
"A nossa missão não é a simples propaganda de um partido: é o desempenho heróico de um sacerdócio.
"Às armas! A nossa existência de cidadãos deve ter este programa: Às armas!...
"E neste momento, que nos reunimos todos para solenizar o grande dia republicano, neste momento, mais do que nunca, os nossos entusiasmos de pontífices da liberdade devem fundirse em uma saudação que seja mais um pacto de aliança para as nossas lutas!...
"Um brinde à liberdade!..."
O salão estourou, como se uma vasta explosão de picrato o tivesse arremessado às nuvens; estourou ao brado de duzentas goelas de bronze, aclamando a Liberdade...
Circunstância mínima:
O doutor, arroubado de entusiasmo, levara tão alto o seu brinde, que partira o cristal nas faces da estátua.
O vinho caíra-lhe pelos seios abaixo, prostituindo a casta brancura impoluta do gesso.
São Paulo, 21 de abril de 1883.
Raul Pompéia
50$OOO DE GRATIFICAÇÃO
Fugiu no dia 11 do corrente o escravo Lino, pardo claro, de 27 anos de idade pouco mais ou menos, estatura regular, bons dentes, porém maltratados, pequenos bigodes e alguns cabelos no queixo, tem o olhar vivo, unhas roídas e é atrevido. É muito conhecido por ser cocheiro há muitos anos do Dr. Peçanha. Levou calça branca, paletó de brim pardo, chapéu preto pequeno e anda às vezes calçado.
Protesta-se com o vigor da Lei contra quem o acoutar e gratifica-se com a quantia acima a quem prendê-lo e levá-lo à alguma estação policial ou à casa de seu Senhor, Rua Do... N....
Sr. Anunciante.
Mirando-me ao espelho, reconheci, no frontispício da minha obscura cabeça, os vigorosos traços descritivos, com que encheu este anúncio a pena abalisada do seu anônimo e simpático escritor. Linha por linha, incidente por incidente, lá vem a minha fotografia. Isso não é um anúncio, é um retrato! Mirando-me ao espelho e no anúncio, entrei a hesitar, até, sem saber qual dos dous era o anúncio e qual era o espelho...
"Pardo claro..." Sou pardo claro.
Quando Deus pintou-me, por sinal estavam no atelier, à espera da sua brochadela, alguns companheiros, que, mais tarde, no mundo foram exaltados pelo destino, aos quais, à medida que subiram na escala da grandeza, foi-se-lhe o colorido gastando, de sorte que não são mais, agora, os pardos claros que nasceram... Eu, infelizmente, fiquei tal qual.
"27 anos..." É a minha idade.
"Estatura regular..." Bem regular... gabo-me disso.
"Bons dentes..." Oh! obrigado! Isso me lisonjeia em extremo...
"Porém maltratados..." Lá isso, protesto!... Eu não sou porco!... Aqui há engano com certeza... Sempre tratei carinhosamente a minha dentadura!
"Pequeno bigode..." Sim senhor, não é muito grande.
"Alguns cabelos no queixo... Justinho! Rari nantes...
"O olhar vivo..." Apoiado! Vivíssimo!... Olho vivo é a melhor regra de bem viver.
"Unhas roídas!..." Roídas! que horror! Trago-as simplesmente aparadas rente. Há sempre um meio de se obscurecer, na linguagem, os predicados alheios. Aparada rente é a nossa unha roída, roída a unha aparada dos outros.
"Atrevido..." Com licença: atrevido é mais quem chama.
Verificada a identidade dos tipos, vamos ao resto do anúncio.
"É muito conhecido por ser cocheiro há muitos anos Oh, qualidade rara!... "do Dr. Peçanha..."
Exatamente! Sou muito conhecido. O Larousse cita-me o glorioso nome, no volume da letra L. E com razão! eu guiava certo as minhas parelhas, em direção à Posteridade, quando a conveniência urgente de tomar ares obrigou-me a cortar a bela carreira. Apesar disso, o anúncio não mente. Sou na verdade conhecido, sou um homem universalmente popular! Dou-me muito com o Pão de Açúcar; o Corcovado fala comigo; já tive estreitas relações com o Himalaia; a coluna Vendome, quando me vê, cumprimenta-me; as pirâmides tiram-me o chapéu; as esfinges já me ofereceram cigarros uma vez; os crocodilos da Índia têm sorrisos amáveis para mim, pedem-me fogo com intimidade... Quanto aos homens, não falemos. O meu nome monopoliza perpetuamente a atenção do público, no Cairo, em Malta, em Nazaré, no Egito...
Este precioso anúncio, que me chegou às mãos inesperadamente, veio despertar-me saudades do Rio de Janeiro. Neste remoto asilo da paz onde habito, só muito raro chegam notícias do bulício do mundo. Planto café e gozo a existência bucólica e sossegada de quem tem certeza de que não faltam céus nem serras para a vida. A sede do ouro não me exaspera a garganta.
Este anúncio, todavia, que me veio lembrar a grande corte, abriu-me um pouco o apetite do ganho.
Pensei num negócio e o proponho.
(continua...)
POMPÉIA, Raul. 14 de julho na roça. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=7632 . Acesso em: 6 abr. 2026.