Por Adolfo Caminha (1896)
O Maranhão chegou ao Rio num domingo luminoso e calmo. Adelaide enjoara horrivelmente, sem sair do camarote, sem gozar dos aspectos da viagem, numa indolência estúpida, com a cabeça a doer, os olhos mortos de fadiga, debaixo dos lençóis, muitíssimo pálida. Oh, aquele maldito cheiro de azeite e de alcatrão, que vinha da proa, dava-lhe tonteiras, embrulhava-lhe o estômago, causava-lhe arrepios de náusea! Sempre meiga, porém, não se queixava, não se revoltava contra o marido, que, em parte, era o culpado. Bem que estavam tranqüilos na província!
Evaristo foi de uma solicitude incomparável, de um carinho extremoso. Ela nunca o vira tão amável, se é que se podia ser mais amável do que ele sempre fora. Todos a bordo notavam que "aquele moço de paletó de alpaca amarela" trazia os criados numa roda-viva, ocupava-os a todo instante, e era só abrindo e fechando o camarote, subindo e descendo escadas, numa azáfama. E entravam bandejas e saíam bandejas com iguarias especiais, com limonadas e frutas, e Evaristo ainda achava que era pouco!
Os passageiros desconfiavam de tanta dedicação e piscavam-se os olhos e sublinhavam risinhos de instintiva malícia. Não era possível que fossem casados! Qual casados! Donde saíra aquele exemplo de marido?
E falava-se baixinho no camarote n0 16 e no moço de paletó amarelo. Um caixeiro-viajante, que só andava de binóculo a tiracolo e sombrero de cortiça, afirmou que no camarote no 16 ia uma senhora tísica; uma ocasião vira-a, de relance, no fundo do beliche, muito magrinha, coitada, quase a morrer... Outro passageiro dizia que era a mãe do "paletó amarelo", uma velha doente de reumatismo.
Quando o Maranhão largou ferro, Adelaide estava pronta para desembarcar. A primeira pessoa que Evaristo viu da tolda na lancha do Arsenal de Guerra, foi o seu inestimável amigo Luís Furtado.
— Não é ele, ó Adelaide? — perguntou, indicando um sujeito alto, de cartola e sobrecasaca, muito aprumado na lancha.
Adelaide conhecia-lhe o retrato.
— É ele, sim, creio que é ele...
Nesse instante Luís Furtado acenava para bordo com o lenço; reconhecera o amigo; e de ambos os lados trocaram-se sinais de boas-vindas.
Horas depois rodava um carro para Botafogo, conduzindo Evaristo de Holanda, a mulher e Luís Furtado.
A residência deste era uma excelente casa de dois andares, vistosa, olhando para o Corcovado, nas imediações do cemitério de S. João Batista. Morava no primeiro andar; o segundo era ocupado por uma família estrangeira de vida misteriosa.
Furtado quis mostrar que inda ora amigo do seu amigo, hospedando-o em casa, acudindo-lhe às primeiras necessidades. Ele, que se gabava tanto de altas empresas no Rio de Janeiro, que dizia-se muitíssimo bem colocado", na praça e na sociedade fluminense, que falava no Lírico, em personagens eminentes da política contemporânea, despiu a vaidade que ostentara de longe para com Evaristo, e agora fazia-se pequeno, sem importância, "humilde secretário do Banco Industrial".
—Modéstia... modéstia - opunha Evaristo, batendo-lhe amigavelmente na coxa.
Adelaide sorria.
Enquanto o carro rodava para Botafogo, iam os três conversando, abrindo-se, dizendo novidades, perguntando pelos amigos. Os três, não, porque Adelaide não falava, não dizia nada - com um ar ingênuo e tímido. Luís Furtado provocou-a:
— Vossa Excelência que acha, minha senhora: Evaristo fez bem ou mal vindo ao Rio?
Ela sorriu ainda, mas respondeu:
— Nem bem, nem mal... — voltando-se para o marido e catando um fio de algodão que brincava na roupa dele.
— Esta minha mulher é uma santa! - gracejou Evaristo.
— Acredito, pois não! acredito — confirmou o secretário. — Na minha opinião, todas as mulheres são umas santas...
—Oh, isso não! — exclamou o outro. — Mais devagar... Mulheres conheço eu de gênio infernal, capazes de vender... Judas!
— Qual! - duvidou Luís com uma ponta de ironia.
Certo é que ele achava qualquer coisa de puro no rosto sereno e meigo de Adelaide, uns longes de pintura religiosa, uma translucidez mística e evocadora, qualquer coisa, enfim, que não sabia determinar. Olhava-a de banda, enquanto dava atenção a Evaristo, como se quisesse gravar bem, na memória, aquele estranho tipo de brasileira.
O carro parou. Tinham chegado.
— É aqui — disse Luís.
E, rápido, adiantou-se para oferecer a mão a Adelaide.
A rua estava, como de costume, silenciosa, muito banhada de luz, na calma do meio-dia.
— Papai! Papai!
Era o filho mais velho de Luís, o Raul, que anunciava, berrando, as suas férias do domingo.
— Não é preciso gritar, meu filho, oh! — advertiu o secretário. E para Evaristo:
- Cá está o meu Raul. Hoje, como é domingo, veio passar o dia em casa com a mãe — Um homem! - exclamou Evaristo. — Que idade tem?
— Nove anos... Não é, meu filho?
— É, sim, papai; ainda vou fazer nove.
(continua...)
CAMINHA, Adolfo. Tentação. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16515 . Acesso em: 27 mar. 2026.