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#Romances#Literatura Brasileira

O Livro de uma Sogra

Por Aluísio Azevedo (1895)

Éramos ambos de boa família, ambos muito bem relacionados, ambos sadios, ambos até bonitos. Ele — médico, inteligente e trabalhador, conservando intacto um patrimônio de quarenta contos, que herdara ainda criança; gênio feliz, costumes irrepreensíveis, nada de vícios perigosos e nada de paixões de qualquer gênero, nem mesmo desses perturbadores sonhos de glória ou dessas ambições descomedidas, que nos fazem sacrificar às vezes a doce tranqüilidade do presente garantido, pela hipotética e fascinadora conquista de um nome no futuro incerto. Eu, pelo meu lado — inocente e pura, educada sob os mais austeros exemplos de moral e virtude, tendo feito a minha aprendizagem doméstica sem prejuízo dos meus pequenos dotes sociais; sabendo coser, como sabendo bordar; dirigir o serviço dos criados, governar uma casa, como sabendo tocar piano, receber visitas e dançar uma valsa; e mais: tinha boa ortografia, alguma leitura, que não era composta só de maus romances, um pouco de francês, um pouco de inglês, um pouco de desenho, sessenta contos de dote, princípios religiosos bem regulados, caráter sereno, temperamento garantido por hereditariedade natural, seguros hábitos de asseio, alinho e gosto no vestir, que nada deixavam a desejar, quanto à elegância, mas que jamais roçavam, nem de leve, pelos arrebiques do janotismo equívoco.

Eis como nós éramos os dois. E eu — meiga e delicada; e meu marido — extremoso e forte.

Casamo-nos por inclinação de parte a parte, com o aplauso de ambas as famílias, depois de um calmo namoro de seis meses, regular e honesto, abençoado por todos os nossos parentes e amigos.

Não se poderia, pois desejar casamento mais equilibrado, nem se poderia conceber um par mais harmonioso, e até mais simétrico.

Não obstante, apesar de que nunca transigi dos meus deveres conjugais; apesar de que meu marido prosperou sempre de fortuna na sua carreira médica e, depois, na sua carreira política; apesar de que ele era bom, e apesar de que sempre nos estimamos; apesar de tudo isso, tanto ele como eu fomos igualmente muito desgraçados, enquanto nos não separamos; fomos os dois um casal de infelizes amarrados um ao outro pelo duro e violento laço do matrimônio; fomos dois calcetas, seguros na mesma corrente de ferro, condenados a suportar a existência eternamente juntos.

Não foi possível! Quebramos a cadeia, arrancamo-nos da grilheta. O governo nomeou-o para uma honrosa comissão fora do Brasil; aproveitamos o ensejo e separamo-nos. Tínhamos dois filhos, um de cada sexo; a menina ficou comigo e o menino seguiu com ele.

Ao contrário do alvitre jurídico, entendi sempre que, na separação de cônjuges, mormente abastados, o filho ou filhos varões devem acompanhar o pai, e a filha ou filhas devem ficar ao lado da mãe, porque esta é sem dúvida mais apta, que um homem, para zelar pela boa educação e pureza de uma menina; ao passo que aquele outro pode, melhor que a mulher, dirigir e encaminhar a vida de um rapaz.

O contrato moral e íntimo do nosso apartamento foi ainda mais digno e mais sincero do que o contrato público e material da nossa união. Não nos preocupou a questão de dinheiro, porque éramos já bastante ricos, e podíamos ficar ambos pecuniariamente independentes. Obriguei-me a não macular jamais o nome que ele me dera, e esse preceito foi por mim cumprido à risca; ele, pelo seu lado, comprometeu-se a se não descuidar nunca de nosso filho, e assim o fez, durante os curtos anos que viveu ainda o meu pobre Gastãozinho.

Separamo-nos bons amigos, mas, ai de nós! depois de grandes desavenças domésticas e brigas de cada instante, que fizeram até aí da nossa vida um triste inferno, e que para sempre nos tornaram incompatível a existência em comum. O que nos valeu foi o nosso espírito. Num momento lúcido compreendemos tudo, encaramos a sangue-frio a situação; e abraçamos com coragem o único partido digno de nós. Se continuássemos a viver juntos, teríamos chegado às últimas degradações da falta de respeito um pelo outro e talvez ao crime. É possível que Virgílio me batesse, ou me matasse, num dos nossos muitos ímpetos de irreprimível cólera nervosa. Só os casados, só estes, poderão calcular e compreender quanto nos injuriamos os dois, quanto nos aviltamos, por palavras e gestos, nessas secretas e constantes lutas. O arrependimento chegava sempre, porém tarde, e nunca aproveitava para impedir novas crises; o arrependimento só servia para mais nos rebaixarmos aos nossos próprios olhos, com a consciência da nossa degradação. Mais do que as rixas, os seqüentes amores na confirmação das pazes, deixavamnos humilhados e corridos de vergonha; e este fato, só por si, a deprimente certeza da nossa ignomínia, era já um novo rastilho pronto e aceso para uma nova explosão de cólera.

Afinal, o contacto, ou a só presença de qualquer dos dois, tinham se tornado absolutamente insuportáveis para o outro. Às vezes, sem razão, não podia demorar a vista sobre meu marido: irritavam-me nervosamente os seus gestos mais simples e naturais. Uma ocasião, em que o contemplei pelas costas, assentado à sua mesa de trabalho, todo embebido no que estava fazendo, com a cabeça baixa, um gorro de seda preta, os ombros envolvidos num xale que lhe escondia o pescoço, desejei-lhe a morte, e tive de fugir dali para não disparatar com ele.

(continua...)

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