Por Franklin Távora (1879)
Chegando ao engenho, antes da hora costumada, Virgínia fez-lhe mil indagações para saber a causa desta alteração; Paulo respondeu-lhe que se sentira indisposto. Deixando a mulher em seu aposento, dirigiu-se à sala onde D. Carolina se demorava a maior parte do dia. Queria contar o que vira à sua mãe e pedir-lhe que o aconselhasse; mas antes de fazer qualquer revelação, D. Carolina começou a relatar-lhe o que se passara naquela manhã entre ela e Maurícia. Em sua opinião, Maurícia criava fantasmas para desacreditar o marido, que não era tão mau como dizia. Então, Paulo referiu tudo: Maurícia tinha carradas de razão. Ele próprio fora testemunha da cena mais aviltante que se pode imaginar para um homem casado. D. Carolina ouvindo estas atrozes revelações, mostrou-se ao princípio incrédula; mas, depois, forçoso foi ter por certas as palavras do filho. Paulo estava triste e indignado e os seus sentimentos eram comunicativos. Sabendo que Maurícia voltara desgostosa, convidou sua mãe para ir com ele e Virgínia aquela tarde buscá-la para tomar chá no engenho. Conhecia quanto Maurícia era melindrosa. “Se minha mãe não for lá, D. Maurícia nunca mais tornará a esta casa”.
Ficou assentado que haviam de ir depois do jantar.
CAPÍTULO XIV
Maurícia despertou, seriam cinco horas da tarde, ao estrondo produzido por fortes pancadas na porta do gabinete. Olhando por aí, viu Bezerra, que arrancava a fechadura, tendo em uma das mãos um escopro e na outra um martelo. Lançando as vistas à alcova fronteira, viu mais que à porta se substituíra um reposteiro de pano verde, em cujo centro se mostrava a palavra — Toilette — feita de letras amarelas.
— Que quer dizer isso? - inquiriu espantada, apontando de pé para a alcova.
— Quer dizer, Maurícia, que eu resolvi dar à minha casa o tom de uma casa de baile. Isto não lhe pode ser desagradável, visto que ninguém ainda teve mais do que a senhora o gosto delicado, que se aprende em Paris.
Passada a primeira impressão que lhe deixava o remoque do marido, Maurícia sentou-se e disse-lhe:
— O senhor fez isso para se vingar do que eu pratiquei ontem?
Bezerra aproximou-se da mulher, e tornou-lhe em resposta:
— E julga a senhora ter praticado uma bonita ação para o seu marido?
— Ao homem que fosse verdadeiramente meu marido eu certo não faria o que fiz; mas o senhor, não obstante dizer-se tal, pode acaso julgar-se com direito a procedimento diverso?
— Maurícia, você anda iludida. Supõe que os homens se devem equiparar às mulheres. Entende que os deveres e os direitos da mulher são idênticos aos do marido. Ignora que o pecado mortal para a mulher não é senão culpa venial para o homem. Estranha que os maridos tenham liberdade ampla em suas ações, e as mulheres só a tenham muito reduzida. Ora, tudo isto são erros, Maurícia! Aceite a sociedade, Maurícia, como é. Se não lhe agrada esta constituição social, tenha paciência, resigne-se. Nenhuma outra será possível, senão passados muitos tempos, e revolvida a atual sociedade desde as suas raízes. Que prejuízo lhe causo com os meus pequeninos passatempos?
— A mim não me causa nenhum prejuízo, senhor, o que me causa é vergonha. Este sentimento é inseparável de toda mulher que, posto educada em Paris, de pequena se afez a ver a maior moralidade no lar dos seus pais, e receber dos seus mestres lições inspiradas em tal sentimento, base da família nos tempos felizes, e o seu esteio, que a impede de vir à terra, quando sopra o furacão dos contratempos. A vergonha é inseparável dos meus olhos, porque eu nunca vi na casa paterna, nunca vi na casa do meu protetor as lastimosas e indignas cenas que o senhor representou em minha casa nos primeiros anos do meu casamento, e agora reproduz depois de empregar os maiores esforços a fim de que eu voltasse para a sua companhia. Priva-me da porta do meu quarto, único meio, que me restava, de cobrir-me contra os seus insultos grosseiros, de resguardar os meus melindres ofendidos por seus ignominiosos amores de palhoça e de cozinha!
Espantado, senão atemorizado desta rápida síntese de suas vilezas, que Maurícia fizera com a mesma mobilidade meridional, onde a sua linguagem afetiva deparava raros atavios e encantos, Bezerra, que, ao princípio julgara esmagá-la com sua hostilidade cínica, sobresteve entre o receio de perder a vasa e a dificuldade de a não fazer brava. Quis interromper Maurícia com algumas palavras de dureza, mas ela, ou porque estava cheia de razão, ou porque a sua exaltação lhe não dava lugar a atender senão à sua grande dor, prosseguiu com a mesma veemência que tivera até aí:
— Cumpre absolutamente que de uma vez nos entendamos sobre o melhor modo de carregar a pesada cruz de um casamento desigual. Estou por tudo, menos pelo aviltamento. Por que procede tão vilmente comigo?
Bezerra sorriu cinicamente, e respondeu em termos ignóbeis.
Então, Maurícia ergueu-se arrebatadamente, mostrando no gesto indício de entranhada indignação.
— Se o senhor tem este direito, igual devo ter eu. Mas não! - acudiu imediatamente. Ainda que mo assegurassem...
Maurícia não pode concluir a frase. Bezerra, de pé ao lado dela, ameaçava despedaçar-lhe a cabeça com o martelo que tinha na mão.
— A senhora não sabe o que disse. Quer fazer de mim um assassino?
Maurícia retorquiu sem se acovardar:
— Assassino já é o senhor, assassino do meu modesto e inofensivo sossego; pode bem assassinar-me agora.
As lágrimas saltaram com veemência dos olhos de Maurícia que se sentara novamente.
Bezerra ainda estava de pé em posição hostil, quando se ouviu na sala ruído de passos na banda de fora. Não passou um minuto que a voz de Virgínia ecoou na porta:
— Dá licença, mamãe? Aqui está Sinhazinha, que vem passar com a senhora esta semana.
(continua...)
TÁVORA, Franklin. O Sacrifício. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16632 . Acesso em: 28 fev. 2026.