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#Romances#Literatura Brasileira

O Seminarista

Por Bernardo Guimarães (1872)

— É mais uma provação, que Deus vos reservava, filho — dizia-lhe o padre diretor, procurando consolá-lo -; mais um cálix de amargura, para vos acrisolar nas atribulações da vida, e vos servir de escarmento eterno contra as ilusões do mundo. Era necessária ainda esta última gota de fel, para tornar o sacrifício mais perfeito e agradável aos olhos de Deus. Bem-aventurados os que choram.

CAPÍTULO XX

Banidas da fazenda do capitão Antunes, Umbelina e Margarida, tristes, como outrora Agar e Ismael despedidos da tenda de Abraão, e internando-se pelo deserto, tomaram o caminho da vila de Tamanduá, onde Umbelina possuía ainda uma pequena casa habitada por uma velha parenta, ainda mais pobre do que ela.

Umbelina, já bastante entrada em anos, e cheia de achaques, quase nada mais podia fazer. Sua velha companheira, essa coitada!... vivia quase às esmolas. Aquela pequena e desvalida família teria caído na mais extrema miséria, se não fosse Margarida que, cheia de mocidade, robustez e boa-vontade, se entregava a um contínuo trabalho, cosendo, lavando, engomando, e assim provia à parca subsistência de todos, e lhes proporcionava mesmo um pouco de abastança.

Mesmo naquela humilde condição, a formosura de Margarida, que havia atingido a todo o opulento viço, a todo o esplendor da juventude atraía a atenção geral, e fascinava todos os olhos.

Lavando roupa, com os lindos braços nus, como as asas de uma ânfora de alabastro, os cabelos entornados pelos ombros, como a ramagem do salgueiro, com os pés embebidos na água, e as roupas arregaçadas deixando ver as extremidades de duas colunas do mais perfeito lavor era a náiade da fonte.

No templo, vestida pobremente mas com esmerado asseio e elegante singeleza, com os tímidos e pudibundos olhos velados pelos longos cílios, em sua cândida e modesta atitude tomá-la-íeis por uma estátua da Virgem, produção genial de inspirado cinzel.

Em casa, fiando ou entregue aos trabalhos de agulha, vendo aquele busto angélico pendido sobre a almofada, vos lembraríeis da casta Lucrécia, ou da pudica Susana.

Desprotegida como se via, sua pureza navegava entre mil riscos em um mar semeado de cachopos e sirtes traiçoeiras, e como lâmpada exposta a todos os ventos, mantinha-se como por um milagre. Não faltaram libertinos e sedutores, que dispondo dos favores da fortuna, da posição e da mocidade, empregassem inúteis esforços para arrastá-la ao lodo da prostituição; nem também amantes, que possuídos de sincero e verdadeiro amor, cobiçassem com ardor a posse do coração e da mão de Margarida.

Não era porém somente o inimigo externo, que ela tinha a temer. De temperamento ardente, de compleição sangüínea vigorosa, Margarida não era muito própria para manter por largo tempo a sua afeição na esfera de uma aspiração ideal de um celeste devaneio. Feita para os prazeres do amor e para as expansões ternas do coração, os instintos sensuais achavam em sua natureza estímulos de indomável energia; sua pudicícia teria infalivelmente naufragado no meio dos perigos que a rodeavam, se uma paixão casta e santa, que desde a infância lhe enchia o coração, lhe não servisse de broquel contra todas as seduções do mundo.

O anjo do amor puro velava desde o berço sobre a encantadora menina, e com suas asas cândidas afugentava para longe dela as larvas do gênio da devassidão.

Graças a este celeste talismã, Margarida, como um lírio de alvura deslumbrante, balanceava incólume e orgulhosa o cálix imaculado no meio da torrente turva e impetuosa, que lhe rugia em derredor.

Já perto de sete anos eram volvidos, desde que se partira o querido companheiro de sua infância.

Entregue à melancolia e ao desalento, Margarida, ainda que aparentemente robusta e sadia, sofria, um mal de coração, que lhe contaminava as fontes da existência. Uma organização de vigorosa têmpera, e sobretudo uma alma paciente e resignada, davam-lhe força apenas para não sucumbir e resistir tranqüila e quase risonha ao peso esmagador do seu infortúnio.

Ao seu aspecto, ninguém à primeira vista adivinharia que um germe de morte lhe ia solapando a existência. Era como um desses pomos, que ostentam na superfície a mais fresca e viçosa cor, e que entretanto trazem no âmago já bem adiantado o germe da destruição.

Uma esperança e um dever lhe alentavam o ânimo, lhe vigoravam o corpo, e davam-lhe força e vontade para viver. Era a esperança de ver ainda um dia o seu querido Eugênio, e o dever de viver para sua pobre e desamparada mãe.

A sorte despiedosa em breve a livrou de um desses cuidados, tornando ainda mais triste e precária a sua situação. Umbelina afrontada de desgosto, velhice e enfermidades faleceu deixando a pobre órfã mais desvalida e angustiada que nunca. Um feroz destino como que se comprazia em recalcá-la cada vez mais na voragem do infortúnio.

(continua...)

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