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#Romances#Literatura Brasileira

O Garimpeiro

Por Bernardo Guimarães (1872)

Elias não teve mais sossego, e levantou-se imediatamente. Só a idéia de que ali tão perto dele achava-se Lúcia, davalhe vigor e alma nova. Era impetuoso, irresistível o desejo de vê-la; mas ao mesmo tempo a lembrança da pobreza, em que ia encontra-la, o contristava e enchia-lhe de amargura o coração. Vieram-lhe ao espírito todos os tristes transes de sua vida passada, e refletiu amargamente sobre os cruéis e estranhos caprichos da sorte. Ele, que outrora fora quase que despedido da casa do Major, e considerado indigno de pôr os olhos em sua filha, ele que há poucos dias fora tratado desabrida e brutalmente em casa do mesmo Major por amor de um infame aventureiro, ele o via esse mesmo Major, a seu lado, tanto ou mais miserável do que ele próprio. Se tivesse alma maldosa e vingativa, oferecia-lhe então uma bela ocasião de espezinha-lo humilhando- o com a sua visita; a sua presença por si só seria um sarcasmo vivo que devia encher de confusão e vergonha aquele homem outrora tão fátuo e ambicioso. Mas Elias nada tinha de vingativo e rancoroso. Sua alma nobre era incapaz de desrespeitar o infortúnio de quem tanto adorava.

Entretanto crescia-lhe o desejo cada vez mais impaciente de ver Lúcia. Passado o abalo e a comoção violenta dos primeiros dias, e enfraquecido o corpo pela enfermidade, acalmou-se a irritação do espírito do infeliz mancebo, começou a refletir com mais frieza, e uma voz interior como que o advertia de que Lúcia era inocente, e o amava ainda como sempre, e que algum motivo muito poderoso a forçara a condescender com a vontade de seu pai.

Posto que ainda bastante fraco, Elias parecia lesto e disposto como em seus dias de perfeita saúde; uma força interior o reanimava como por encanto. Seu primeiro cuidado foi ir ver, ainda que a certa distância, a casinha em que viera habitar a família do infeliz major. Era uma tosca choupana, a última que se via à orla do caminho que seguia rio acima para o comércio de Mundim. Mas essa choupana aos olhos de Elias tinha mais encantos que um palácio: era o templo que encerrava uma divindade.

Sentado sobre a relva que se estendia pela encosta acima em frente de sua casinha, esteve por largo tempo contemplando- a e examinando- a minuciosamente; mas não viu ninguém. Apenas a fumaça que saía pelo telhado, e algum rumor confuso de vozes atestavam que a choupana era habitada. Depois de estar ali mais de uma hora a contemplar a casa, e embebido em mil pensamentos, ora risonhos e esperançosos, ora amargos e sombrios, a porta se abriu, o Major saiu, e imediatamente a porta se fechou. Envolvido num largo sobretudo, chapéu de pêlo de lebre, carregado sobre os olhos, a cabeça descaída sobre o peito, arrimando-se a uma grossa bengala, lá ia o Major a caminho da povoação.

Ao vê-lo, Elias teve o mais profundo dó e sentiu apertar-lhe o coração. Como estava a certa distância do caminho, o Major passou sem vê-lo.

- Onde irá aquele infeliz pai, pensava Elias; que irá fazer? Irá talvez envidar os últimos esforços para achar algum meio de manter com decência sua pequena família, tão digna de melhor sorte! irá talvez vender alguma jóia que ainda resta a suas filhas, para dar-lhes um pedaço de pão! . . . E a que portas vais bater, infeliz Major! . . . de uns monstros sem consciência e sem entranhas, que folgam com a desdita alheia, como folga o urubu ao ver expirar o animal em que vai cravar o imundo bico faminto de carniça. Esses mesmos, que ainda ontem regozijavam-se em tua casa, comendo e bebendo à tua custa, hoje apenas se dignarão testemunhar-te um pouco de compaixão. Cega- os a gana do dinheiro; piores que os lobos, são capazes de devorarem-se uns aos outros por um punhado de ouro. Major! Major! eles vos arrancarão até a camisa do corpo, e tomai bem cuidado sobre vossas filhas! eles são capazes de roubar-te esse único tesouro de teu coração, esse último consolo de teu infortúnio! . . .

A voz da velha enfermeira o veio despertar daquelas sombrias reflexões.

- Olá, senhor Elias! . . . o que está aí a banzar? . . . fuja desse sol, que está ficando muito quente; venha tomar seu caldo. Então? perguntou ela depois que Elias se aproximou; então, viu os novos vizinhos?

- Vi somente o velho: é muito meu conhecido.

- Falou com ele?

- Não; ele saiu de casa, e passou por mim sem ver-me; coitado! vai tão cabisbaixo! ainda ontem era rico; hoje, minha velha, talvez lhe possamos dar esmolas!

- Forte pena! . . . mas Deus é grande; há de compadecer-se deles. Eu tenho mais dó é das pobres meninas, coitadinhas!

tão mimosas, tão bonitinhas! há de custar-lhes bastante acostumarem-se com a pobreza.

-talvez não; foram criadas na roça, e estão acostumadas com o trabalho. O pai não tinha outro defeito senão o de ser muito fanfarrão e todo enfatuado de riqueza e fidalguia. No mais era um homem de bem, e soube dar excelente educação a suas filhas. Mas nem por isso são menos dignas de lástima.

- E por que não vai fazer-lhe uma visita, e oferecer-lhe o nosso préstimo; coitados! . . . Não digo hoje, mas amanhã ou depois, quando melhorar. . .

- Esse é o meu desejo; mas. . .

-mas o quê? . . . há de ir; são nossos vizinhos, e talvez lhe possamos prestar nalguma coisa.

(continua...)

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